Os grandes bancos brasileiros ainda veem espaço para ampliar o crédito imobiliário, mas o cenário de juros elevados e inadimplência mudou a forma como as instituições pretendem buscar esse crescimento. Em vez de perseguir participação de mercado a qualquer custo, a prioridade passou a ser combinar expansão da carteira com rentabilidade e eficiência.
O diagnóstico foi feito nesta terça-feira (18), por executivos de Bradesco (BBDC4), Banco do Brasil (BBAS3), Caixa Econômica Federal e Itaú (ITUB4), durante o Abecip Summit 2026, em São Paulo (SP). Eles apontaram que o financiamento habitacional continua estratégico, mas exige uma seleção maior das operações em um ambiente de capital mais escasso.
Para Ede Viani, vice-presidente executivo do Varejo do Santander, a instituição passou a colocar menos ênfase em participação de mercado e mais em rentabilidade. “Capital é um recurso super escasso. Os ciclos passam, mas o crédito imobiliário é algo para anos”, afirmou.
A lógica está relacionada ao próprio prazo das operações. Como um financiamento imobiliário pode se estender por anos, as instituições precisam considerar não apenas as condições atuais, mas também os diferentes ciclos econômicos que podem ocorrer durante o contrato.
Juros altos colocam rentabilidade no centro da estratégia
O cenário de juros elevados também altera a estratégia de concessão. Para Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, diante das taxas atuais, o principal desafio não é simplesmente aumentar o volume de crédito.
A prioridade, segundo ele, é manter o equilíbrio da carteira e selecionar operações que apresentem rentabilidade. O executivo afirmou que o crédito imobiliário ainda tem espaço relevante para crescer no banco, embora seja necessário considerar o prazo longo das operações e os efeitos da inadimplência.
Ao projetar o segundo semestre, Bittencourt disse não saber se o banco conseguirá manter crescimento acima de 2%, mas ressaltou que o produto continua importante para a estratégia da instituição.
No Bradesco, a avaliação sobre o mercado também passa pelo desempenho observado neste ano. Para Rocha, vice-presidente executivo do banco, “foi muito surpreendente como o primeiro semestre continuou com um desembolso muito grande”.
Apesar de a inadimplência ter ganhado espaço nos balanços, o executivo destacou que seu peso é menor especificamente na concessão de crédito imobiliário.
Caixa chega a R$ 1 trilhão em crédito imobiliário
A relevância do segmento também aparece na estratégia da Caixa Econômica Federal, que chegou a R$ 1 trilhão em carteira de crédito imobiliário.
Segundo Inês Magalhães, vice-presidente de Habitação da Caixa, o crédito habitacional segue como um eixo estrutural da instituição e a perspectiva para o segundo semestre é promissora.
A estratégia, porém, vai além da concessão do financiamento. A ambição da Caixa é atuar como um “orquestrador” de um ecossistema capaz de oferecer crédito durante toda a jornada da habitação, desde a aquisição do terreno até a pessoa física.
“O setor habitacional chega até aqui com uma profunda agenda de transformação. […] O Brasil precisa ampliar a participação do financiamento imobiliário e o crescimento do setor necessita de maneiras de diversificação”, completou.
Itaú aposta em carteira preparada para diferentes ciclos
No Itaú, a estratégia combina o crédito imobiliário com uma tentativa de construir uma carteira capaz de atravessar diferentes condições econômicas.
Flávio Iglesias, diretor de Estratégia, Planejamento, Clientes e Necessidades do banco, afirmou que a instituição trabalha em duas frentes: o desenvolvimento de um portfólio que sobreviva a ciclos econômicos diversos e a integração dos clientes em uma estrutura centralizada no super app.
“Dentro dessa estratégia, o crédito imobiliário representa uma parcela relevante do crescimento do banco”, afirmou Iglesias.
O executivo também comentou que o prazo longo do produto faz com que qualquer cenário de incerteza precise ser considerado na decisão de concessão.
Inteligência artificial entra na disputa por eficiência
A forte adoção da inteligência artificial (IA) em todos os processos das instituições também faz com que ela seja um dos pontos a serem observados pelos bancos na busca por rentabilidade, a fim de reduzir custos e promover melhorias operacionais.
No Itaú, segundo Iglesias, a tecnologia já apresenta aplicações internas em áreas como prevenção a fraudes, produção e atendimento. A expectativa é que a IA também altere a experiência do cliente ao longo de toda a jornada do crédito.
Já no Santander, Viani afirmou que a tecnologia pode melhorar a qualidade operacional, a eficiência e a personalização das operações imobiliárias.











