Apenas 9% dos brasileiros afirmam ter segurança financeira e capacidade de planejar com tranquilidade, enquanto 58% conseguem manter as contas, mas convivem com algum grau de fragilidade. Outros 33% enfrentam dificuldades frequentes ou até para cobrir necessidades básicas.
Os dados foram revelados na pesquisa “O Brasil de Agora – A Vida Sob Novas Condições”, realizada pela Aerah House com 2 mil brasileiros. O cenário ajuda a explicar por que o segundo semestre tem sido marcado menos por novos planos e mais por ajustes no orçamento. Com menor margem financeira, os brasileiros passaram a rever compras, adiar despesas e buscar alternativas mais econômicas.
Nos três meses anteriores à pesquisa, 41% reduziram a quantidade ou a frequência das compras, enquanto 33% passaram a comprar mais em promoções.
A mudança também aparece em outras decisões de consumo: 26% adiaram compras maiores, 21% trocaram marcas por alternativas mais econômicas e 8% mudaram de loja, canal ou forma de pagamento para gastar menos.
Menos planos, mais gestão do orçamento
Para Fernanda Faria, sócia-fundadora do Instituto de Pesquisa Aerah House, o comportamento vai além de uma simples redução do consumo. Segundo ela, a restrição financeira alterou a forma como os brasileiros organizam decisões do cotidiano.
“O brasileiro não deixou de planejar. O que mudou foi o ponto de partida desses planos: hoje eles começam pelas possibilidades do presente, e não pelas expectativas de crescimento.”
A lógica aparece na comparação de preços, na espera por promoções e no adiamento de despesas que não são consideradas urgentes. O orçamento passa a determinar não apenas o quanto consumir, mas também quando, onde e como realizar uma compra.
A Aerah House classifica esse comportamento como “Consumo em Modo Gestão”. O conceito descreve uma rotina em que preço, prioridade, momento da compra e percepção de valor são avaliados antes da decisão.
“Não estamos falando apenas de um consumidor que apertou o orçamento. Estamos falando de alguém que passou a administrar escolhas o tempo todo”, afirma Fernanda.
Segurança financeira vira principal plano para brasileiros
Apesar das restrições atuais, o futuro não deixou de fazer parte dos planos. 68% dos entrevistados acreditam que conseguirão realizar seus sonhos nos próximos dois anos. O principal objetivo, porém, está relacionado à recuperação da estabilidade financeira. Para 31%, a prioridade é alcançar segurança financeira e sair das dívidas.
O contraste entre a expectativa para o futuro e as limitações do presente ajuda a explicar a postura mais cautelosa. Ainda existe intenção de realizar projetos, mas a distância entre desejo e capacidade financeira exige que as decisões sejam revistas com mais frequência.
Nesse cenário, uma compra de maior valor pode ser adiada, uma marca mais cara pode ser substituída e uma promoção pode se tornar determinante para a decisão.
Para Fernanda, o comportamento mostra que o brasileiro continua olhando para o futuro, mas mudou a forma de construí-lo. “O brasileiro continua acreditando no futuro, mas passou a construí-lo com mais cautela. Antes de pensar em crescer, ele busca recuperar previsibilidade.”











