O número de brasileiros com crédito ativo entre 2021 e 2025 cresceu de 96,8 milhões para 122,8 milhões em 2025, alta de 27%. A expansão na primeira metade da década ampliou o acesso da população a empréstimos e financiamentos, mas também veio acompanhada de maior pressão sobre a capacidade de pagamento das famílias.
Os dados fazem parte do estudo “O começo de uma década – A evolução do mercado financeiro até a metade dos novos anos 20”, elaborado pela Equifax BoaVista, Acordo Certo e Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL Porto Alegre).
O levantamento mostra que o saldo dos contratos de crédito ativo avançou 63,7% em cinco anos, de aproximadamente R$ 2,7 trilhões em 2021 para R$ 4,47 trilhões em 2025. Já o número de relacionamentos entre consumidores e instituições credoras aumentou 52,5%, passando de 260,1 milhões para 396,7 milhões.
Mais acesso ao crédito, maior pressão sobre as famílias
A expansão do crédito também foi acompanhada pelo aumento da inadimplência. A parcela de indivíduos inadimplentes passou de 19,9% em 2021 para 26,3% em 2025. O tema, inclusive, foi abordado pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante participação na Febraban Tech 2026 nesta segunda-feira (24).
“Ao olharmos para o endividamento das famílias, não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento também cresceu. Nem todo tipo de endividamento é um problema. No mercado imobiliário, por exemplo, há a construção de um ativo. Mas o endividamento ex-imobiliário também cresceu bastante nos últimos anos”, disse Galípolo.
Na primeira metade da década, o saldo de crédito inadimplente mais que triplicou, de R$ 54 bilhões para R$ 177,6 bilhões. Como consequência, a inadimplência sobre a carteira ativa passou de 1,98% para 3,97%, praticamente dobrando em cinco anos.
Entre os consumidores com crédito ativo, porém, 73,7% permaneciam adimplentes ao fim de 2025.
“O aumento do acesso ao crédito representa uma evolução importante do mercado brasileiro, porque amplia as possibilidades de consumo, investimento e realização de projetos pessoais. Ao mesmo tempo, os dados mostram que essa expansão precisa ser acompanhada por uma leitura cada vez mais precisa da capacidade de pagamento e do momento financeiro de cada consumidor”, afirmou Henrique Moraes, CEO da Equifax BoaVista.
Comprometimento de renda aumenta
Outro indicador que mostra a pressão sobre as finanças das famílias é o comprometimento de renda, que mede quanto da renda disponível está vinculada ao pagamento de contratos de crédito.
O indicador passou de 70,3% em 2021 para 81,1% em 2025, alta de 15,4%. O índice chegou a 86,1% em 2024 antes de recuar no ano seguinte.
O endividamento total, por outro lado, caiu até 2023 e voltou a crescer nos dois anos seguintes. Em 2025, terminou em 36,02%, ainda abaixo do nível registrado no início da década.
As negativações também aumentaram. O número de pessoas negativadas cresceu 39,8% entre 2021 e 2025, enquanto a quantidade de registros avançou 73,1%.
Jovens e baixa renda concentram risco
Segundo Oscar André Frank Junior, economista-chefe da CDL Porto Alegre, os dados mostram maior incidência de inadimplência entre consumidores mais jovens e pessoas com renda de até dois salários mínimos.
A menor experiência no mercado de trabalho e os rendimentos mais baixos tornam esses grupos mais expostos a choques financeiros, segundo o economista.
Frank também avalia que a redução do comprometimento de renda em 2025, após o pico de 2024, não necessariamente representa uma melhora estrutural das finanças das famílias. “É possível que seja resultado de um processo de ajuste das famílias ao cenário de custo elevado do crédito”, afirmou.
Consumidor vê crédito mais acessível
Apesar do aumento da inadimplência e do comprometimento de renda, a percepção dos consumidores sobre o acesso ao crédito melhorou. Segundo a pesquisa da Acordo Certo, 49,1% dos entrevistados afirmam que ficou mais fácil conseguir crédito nos últimos cinco anos.
Ao mesmo tempo, 72,3% consideram que também ficou mais fácil se endividar. A percepção sobre a própria situação financeira é dividida. 48,8% dizem que sua vida financeira está melhor do que no início da década, enquanto 29,6% avaliam que houve piora.
Entre os consumidores que perceberam melhora, 32,3% apontaram maior poder de compra como principal motivo. Outros 30% citaram a ausência de dívidas acumuladas e 17,5%, a possibilidade de guardar dinheiro.
Digitalização pode ampliar mercado de crédito
Para Frank, a digitalização das relações econômicas, acelerada durante a pandemia, ajudou a ampliar o acesso ao crédito no início da década. O economista avalia ainda que o avanço da inteligência artificial (IA), do open finance e de novos modelos de score pode ampliar essa trajetória nos próximos anos.
O open finance permite o compartilhamento autorizado de informações financeiras entre instituições, o que pode ajudar bancos e empresas a avaliar o perfil de risco dos clientes com mais dados.
A evolução, porém, continuará condicionada ao cenário macroeconômico. Entre os principais fatores está a taxa Selic, taxa básica de juros da economia brasileira, que influencia o custo de empréstimos e financiamentos.
“Nosso mercado de crédito já é grande demais para ignorar uma questão central dos anos: o paradoxo da inclusão. Conhecer os consumidores e acompanhar suas mudanças de comportamento em tempo real exige cada vez menos esforço, cabe a nós combinar tudo isso. O impacto que queremos depende de como vamos traduzir nossos recursos em alternativas concretas para o consumidor”, diz Fernando Iódice, CEO da Acordo Certo.











