A devastação da Amazônia já está reduzindo as chuvas em regiões do Brasil e da Bolívia e pode quebrar a maior “máquina de chuva” do planeta. O alerta foi feito por cientistas durante o TEDxAmazonia, no Equador, no último sábado (12), segundo a Agência Brasil.
Segundo a pesquisadora Julia Valentim Tavares, uma árvore adulta na floresta libera de 200 a 300 litros de água por dia; são 400 bilhões de árvores trabalhando em conjunto, formando rios voadores que abastecem rios, plantações e hidrelétricas.
Rios voadores: a bomba d’água da floresta
O mecanismo começa com a umidade do oceano produzindo chuva sobre a floresta. As árvores absorvem a água do solo e a devolvem à atmosfera em forma de vapor. O vento então espalha esse vapor por todo o continente, fazendo chover em diferentes regiões.
“Imaginem 400 bilhões delas trabalhando juntas todos os dias. Se pudéssemos tornar essa umidade possível, veríamos rios gigantes voando no céu. É o que nós, cientistas, chamamos de rios voadores”, explicou Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, entidade que reúne mais de 350 cientistas.
Marielos destaca que a floresta é a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes e carbono ao nível local, regional e global. Mas a devastação já atinge a conectividade do bioma. Em regiões desmatadas, a temperatura tem aumentado e as épocas de seca estão ficando mais intensas e mais cumpridas.
Como pesquisadora da borda sul da Amazônia — o chamado arco do desmatamento —, Julia Valentim mede os efeitos a partir do interior das árvores, onde o volume de chuvas já diminuiu e a temperatura subiu na última década. Ela investiga por quanto tempo essas árvores resistem à seca antes que suas “cordas” internas se rompam e elas morram de sede.
Seca recorde e aproximação do ponto de não retorno
Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca de sua história, agravada pelo El Niño. Segundo Marielos, 88% da bacia amazônica sentiu os efeitos da estiagem, que interferiu na máquina de chuva. A capital da Colômbia, Bogotá, sofreu desabastecimento de água. Em Quito, no Equador, a falta de água levou a cortes no fornecimento de energia elétrica. A seca também deixou a floresta mais vulnerável a queimadas recordes, cuja fumaça se espalhou pelo Brasil até a Região Sudeste.
A previsão de um super El Niño para este ano preocupa as pesquisadoras. Para Julia, quando há secas extremas, a floresta ou tem mortalidade por falha hidráulica ou para de crescer, somado aos eventos de fogo. Isso faz a Amazônia deixar de funcionar como sumidouro de carbono e passar a ser emissora, agravando o aquecimento global.
Um estudo publicado na revista Nature estima que entre 10% e 47% da floresta amazônica pode atravessar pontos de não retorno até 2050, comprometendo o ciclo hidrológico que abastece as chuvas no Brasil e na América do Sul.
Hidrelétricas e lavouras dependem da umidade na Amazônia
Na mesma linha, uma pesquisa clássica da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS) demonstrou que a perda de floresta na Amazônia reduz diretamente as chuvas que abastecem os rios que alimentam as hidrelétricas brasileiras. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico têm acionado usinas termelétricas em períodos de seca para compensar a queda na geração hidrelétrica, elevando o custo da energia para o consumidor.
Relatório da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) também aponta que as alterações no regime hidrológico da Amazônia impactam o transporte de umidade para o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil, afetando diretamente a agricultura e o abastecimento urbano.
Para Marielos, a solução definitiva passa pela diminuição drástica das emissões de gases do efeito estufa, com substituição dos combustíveis fósseis por fontes menos poluentes. Também é preciso investir em conectividade, restaurar áreas degradadas e recuperar áreas desmatadas para produção. “A Amazônia já está se aproximando do ponto de não retorno, e a perda total dessa conectividade seria catastrófica para o mundo todo”, alertou.











