A decisão do Federal Reserve de elevar os juros nos Estados Unidos pela primeira vez desde 2023 e a derrota do Clarity Act no Senado americano ocorreram com menos de 24 horas de diferença. Para Lucas Veronezzi, sócio e especialista em investimentos em cripto na Blue3 Investimentos, os dois eventos ajudaram a retirar do Bitcoin parte das expectativas que sustentavam a recuperação do ativo nas últimas semanas.
Segundo o especialista, o movimento de preço começou antes das decisões oficiais. O Bitcoin já havia recuado nas semanas anteriores, enquanto investidores reduziam exposição e os fluxos para ETFs de Bitcoin à vista, fundos negociados em bolsa que acompanham diretamente o preço do ativo, ficavam negativos.
Além disso, para Veronezzi, a reação do Bitcoin ao projeto regulatório americano também começou antes da votação no Senado. As probabilidades de aprovação do Clarity Act na Polymarket, segundo a análise, chegaram a 82% em fevereiro, mas caíram para 35% no fim de julho, quando a proposta saiu da pauta pela primeira vez.
Posteriormente, o Bitcoin voltou para a casa dos US$ 80 mil em agosto e no início de setembro, em meio à expectativa de uma mudança nesse cenário. Em sua análise, Veronezzi aponta que o mercado antecipou o resultado, em vez de esperar pela confirmação oficial.
Brasil corta juros enquanto EUA voltam a subir
Era um consenso para o mercado que o Comitê de Política Monetária (Copom) cortaria os juros em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, após a inflação brasileira recuar 0,32% em agosto e a inflação acumulada ficar em 4,22% em 12 meses.
Para o investidor brasileiro, a combinação reduz o diferencial entre os juros do Brasil e dos Estados Unidos. Esse diferencial representa a distância entre as taxas praticadas nos dois países e é um dos fatores observados nas decisões de alocação de capital.
Ainda assim, Veronezzi ressalta que uma Selic de 13,75%, com inflação de 4,22%, representa juros reais próximos de 9%.
Fed eleva juros e Bitcoin quase não reage
A decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) de elevar os juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano, gerou pouca reação imediata no bitcoin, que negociava perto de US$ 75,9 mil próximo do anúncio. Nesta manhã de quinta-feira (17), a criptomoeda avança 0,83%, a US$ 76,7 mil.
Na avaliação de Veronezzi, a baixa reação ocorreu porque o aumento de juros já estava incorporado aos preços. A ferramenta FedWatch, da CME, indicava 92% de probabilidade para esse resultado na manhã da decisão.
Antes da reunião, o Bitcoin havia recuado cerca de 4% em relação à máxima da semana. No período também foram liquidados US$ 545 milhões em posições compradas alavancadas. Esse tipo de operação utiliza recursos emprestados para ampliar a exposição ao ativo e pode ser encerrado automaticamente quando o mercado se move contra o investidor.
Os ETFs de Bitcoin à vista registraram ainda saída líquida de US$ 450 milhões na semana anterior, de acordo com os dados citados na análise. Fluxos negativos indicam que houve mais retiradas do que entradas nesses produtos no período.
Por que juros dos EUA afetam o Bitcoin
Juros mais altos nos Estados Unidos aumentam o retorno oferecido por títulos do Tesouro americano. Com isso, aumenta também o chamado custo de oportunidade, que é o retorno que um investidor deixa de obter ao manter recursos em outro ativo.
Como o Bitcoin não gera fluxo de caixa próprio, a mudança na remuneração dos títulos americanos pode alterar a disposição dos investidores de manter exposição à criptomoeda. Além disso, juros maiores podem fortalecer o dólar e reduzir a liquidez global, isto é, a quantidade de capital disponível para aplicações em ativos de maior risco.
A inflação americana também aparece como elemento central na análise. Segundo o texto, o índice acumulava alta de 3,4% em 12 meses até agosto, acima da meta de 2% do Fed. O documento também aponta que quatro integrantes do comitê projetavam espaço para mais 0,50 ponto percentual de alta ainda em 2026, enquanto dois consideravam encerrado o ciclo no nível atual.
“A síntese da superquarta é menos sobre um dia e mais sobre um regime. O mercado retirou do Bitcoin, na mesma semana, os dois pilares que sustentaram a tese de recuperação em 2026: a expectativa de liquidez global mais frouxa e a promessa de segurança jurídica nos Estados Unidos”, explicou Veronezzi.
Bitcoin perde referência de US$ 76,5 mil
Outro ponto abordado por Veronezzi é o chamado True Market Mean, métrica da Glassnode que estima o preço médio de custo dos investidores ativos na rede do Bitcoin. A referência estava em cerca de US$ 76,5 mil, mas, segundo a análise, o Bitcoin rompeu esse nível durante a votação do Clarity Act e permaneceu abaixo dele.
Na leitura apresentada, a perda dessa referência pode dificultar a recuperação do preço, porque parte dos investidores passa a estar abaixo do preço médio de aquisição.
O Bitcoin alcançou sua máxima histórica, na região de US$ 122 mil, em outubro de 2025, mas, no início de 2026, já operava na casa dos US$ 88 mil e chegou a negociar abaixo de US$ 64 mil no fim de julho. A recuperação para a região de US$ 80 mil ocorreu em meio à expectativa de avanço do Clarity Act em setembro, segundo o texto.











