Os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, conhecidos como Treasuries, se encaminham para fechar setembro nos maiores níveis em cerca de 20 anos, em um movimento que vai além da política monetária do Federal Reserve (Fed). O mercado passou a exigir uma remuneração maior para carregar títulos de longo prazo diante da combinação de inflação, petróleo mais caro, aumento da oferta de dívida e incertezas sobre os juros americanos.
Nesta segunda-feira (28), o rendimento do Treasury de 10 anos chegou a 5,23%, no maior nível desde 2007. Já o título de 30 anos alcançou 5,56%, maior patamar desde 2004.
O rendimento, ou yield, é a taxa de retorno que o investidor obtém ao comprar um título pelo preço negociado no mercado. Como os títulos têm pagamentos previamente definidos, preço e rendimento se movimentam em sentidos opostos: quando o preço cai, o rendimento sobe.
Pressão do petróleo na inflação impacta títulos do Tesouro dos EUA
Um dos fatores que ajudaram a acelerar a alta dos títulos do Tesouro nos últimos dias foi o petróleo. O Brent, referência internacional, alcançou a máxima de US$ 108,83 por barril na manhã desta segunda, com alta próxima de 4%. O movimento ocorre em meio às tensões entre Estados Unidos e Irã e à indefinição sobre um possível acordo entre os países.
O petróleo é um dos componentes que afetam diretamente os custos de energia e transporte. Quando permanece em níveis elevados, pode pressionar outros preços da economia e dificultar a convergência da inflação para a meta.
Para o mercado de juros, isso aumenta a preocupação de que o Federal Reserve precise manter uma política monetária restritiva por mais tempo. Segundo análise do Financial Times, publicada pela Folha de S.Paulo, dados econômicos recentes também reforçaram essa percepção. Na última quarta-feira (23), indicadores mostraram que a atividade empresarial nos Estados Unidos acelerou em setembro no ritmo mais forte em cinco anos.
A combinação de atividade econômica firme e petróleo mais caro aumentou as apostas de que os juros americanos possam permanecer elevados por mais tempo.
Inflação e dívida mantêm os juros longos sob pressão
A inflação é um dos principais fatores para a formação dos juros de longo prazo. Quando os investidores acreditam que a inflação permanecerá elevada, passam a exigir uma remuneração maior para comprar títulos que serão mantidos por vários anos. Isso ocorre porque a inflação reduz o poder de compra dos pagamentos futuros recebidos pelo investidor.
Por esse motivo, mesmo quando existe expectativa de cortes na taxa básica do Fed, os rendimentos dos Treasuries de longo prazo podem continuar subindo.
Outro fator é a situação fiscal dos Estados Unidos. O governo americano precisa emitir grandes volumes de Treasuries para financiar seus déficits. Estimativas do Bank of America (BofA) e do J.P. Morgan apontam para uma emissão superior a US$ 1 trilhão no ano fiscal encerrado em setembro de 2027. Já o Goldman Sachs projeta US$ 961 bilhões.
Quando aumenta a quantidade de títulos disponíveis no mercado, os investidores podem exigir rendimentos maiores para absorver essa oferta. A alta dos juros também aumenta o custo de financiamento do próprio governo.
Por que os juros de 30 anos estão ainda mais altos?
A diferença entre os Treasuries de curto e longo prazo também ajuda a entender o movimento. Um título de dez anos está mais diretamente ligado às expectativas para a política monetária e a inflação ao longo da próxima década. Já um papel de 30 anos incorpora um período ainda maior de incertezas.
Nesse horizonte, o investidor precisa considerar não apenas os próximos movimentos do Fed, mas também a trajetória da inflação, do crescimento econômico, dos déficits e da dívida americana.
Alta dos Treasuries encarece o crédito
O movimento não fica restrito ao mercado de títulos. Os Treasuries são uma das principais referências para a formação das taxas de juros nos Estados Unidos e influenciam o custo do dinheiro em outros mercados.
No crédito corporativo, por exemplo, uma empresa que emite dívida normalmente paga um rendimento baseado em um Treasury de prazo semelhante, acrescido de um prêmio pelo risco da companhia. Se o rendimento do título público sobe, o custo de captação tende a aumentar.
Isso também pode atingir consumidores por meio de financiamentos imobiliários, de veículos e outros empréstimos. O efeito não ocorre de forma automática ou na mesma proporção em todas as modalidades, porque cada operação possui custos, riscos e spreads próprios.
Hipotecas também sentem o movimento
No mercado imobiliário norte-americano, a taxa de uma hipoteca fixa de 30 anos é influenciada pelos juros dos Treasuries de longo prazo, embora não acompanhe o título de forma automática.
Segundo o Poder360, a taxa média desse financiamento está próxima de 7%, ante cerca de 6,30% em setembro de 2025. Juros mais altos aumentam o valor das parcelas e reduzem o poder de compra de quem busca financiamento.
Para quem já possui uma hipoteca de taxa fixa, a alta dos títulos do Tesouro não altera automaticamente a prestação. O impacto é maior sobre novos contratos e refinanciamentos.
Alta de títulos do Tesouro em outros mercados
O movimento recente não ficou restrito aos Estados Unidos. Nos últimos dias, o rendimento do Treasury de dez anos japonês subiu para 3,08%, maior nível desde 1996.
Na quinta-feira (24), o rendimento do Treasury de dez anos japonês subiu para 3,08%, maior nível desde 1996, segundo a Folha. Na Alemanha, o rendimento do Bund de dez anos avançou para 3,64%, maior nível desde 2009. No Reino Unido, o juro do gilt de dez anos chegou a 5,38%, maior patamar desde 2007.
A movimentação simultânea dos mercados indica que os investidores estão reavaliando as condições de inflação, juros e financiamento em diferentes economias.










