As eleições se aproximam e a Presidência da República vê uma disputa clara entre dois candidatos: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A principal questão para os mercados, entretanto, não está no resultado, mas na capacidade do próximo governo de controlar a trajetória da dívida.
Em análise, Diego Barnuevo, analista de mercado do Ebury Bank, explica que Lula defende a continuidade de uma política baseada em transferência de renda, consumo das famílias e investimento público. Já Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda baseada em redução de gastos, privatizações e desregulamentação, além de uma proposta de ajuste fiscal mais rígido, chamada de “tesouraço”.
Um dos principais desafios apontados é a composição do orçamento. Grande parte das despesas públicas é obrigatória, como gastos com Previdência, saúde e educação. Isso reduz o espaço para cortes de despesas discricionárias, que são aquelas sobre as quais o governo possui maior liberdade de decisão.
A dívida bruta chegou a 82,5% do PIB em julho, equivalente a R$ 10,9 trilhões, segundo dados do Banco Central (BC). O percentual foi o maior desde abril de 2021.
“Apesar das diferenças entre os programas, nenhum dos dois candidatos apresentou um plano suficientemente detalhado para estabilizar a trajetória da dívida pública, mantendo a volatilidade elevada”, completa o analista.
Real deve reagir a eleições
O comportamento do real também dependerá da percepção dos investidores sobre a política econômica, mesmo recebendo influência de fatores externos, como o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos e os preços das commodities, segundo Barnuevo.
Uma vitória de Lula no primeiro turno, com vantagem superior a 4 pontos sobre Bolsonaro, poderia gerar alguma pressão sobre o real. Essa margem ampla seria interpretada como sinal de maior probabilidade de Lula avançar ao segundo turno e, consequentemente, de menor chance de um ajuste fiscal agressivo.
Ainda assim, a moeda brasileira poderia ser sustentada nos próximos trimestres por dois fatores: diferencial de juros elevado e preços de commodities favoráveis.
Por outro lado, se a vantagem de Lula no primeiro turno for menor que o esperado ou se Flávio terminar à frente, o real poderia se fortalecer de maneira significativa — com uma alteração das expectativas para o segundo turno.
A volatilidade implícita de um mês do dólar contra o real, que mostra quanto o mercado espera que o câmbio oscile no período, já subiu para níveis observados pela última vez em 2022, refletindo o aumento da incerteza.
Disputa presidencial se estreita
Lula lidera as pesquisas de primeiro turno, com índices entre a casa dos 30% e o início dos 40%, enquanto Bolsonaro aparece em segundo lugar, com mais de 30% das intenções de voto. Os demais candidatos permanecem em níveis de intenção de voto de um dígito.
O cenário muda no segundo turno. A maioria das pesquisas aponta para um empate técnico, com a diferença entre os candidatos dentro da margem de erro.
A vantagem de Lula, que era mais confortável anteriormente, diminuiu desde o início de agosto. O movimento também aparece nas probabilidades implícitas de mercados de previsão, que passaram a indicar uma disputa mais favorável a Bolsonaro após meses de precificação de uma provável reeleição de Lula.
Entre os fatores que contribuíram para o enfraquecimento do governo estão, segundo o analista, a percepção sobre a economia e a segurança pública, além da crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes.
Bolsonaro tem explorado politicamente as controvérsias relacionadas ao Banco Master para associar Moraes ao atual governo. A disputa pelo Supremo também ganha relevância porque o próximo presidente terá a oportunidade de indicar quatro dos 11 ministros da Corte.
Segundo o Datafolha, a desconfiança em relação ao STF atingiu 48%, chegando a 69% entre eleitores de Bolsonaro, contra 22% entre os apoiadores de Lula.










