O descontrole fiscal deve levar o Brasil ao “pior ano de crescimento desde a pandemia” em 2027. A avaliação é de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, que projeta, em um cenário otimista, crescimento de apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB).
Em sua palestra no TRX Day, evento exclusivo realizado pela gestora em São Paulo (SP) nesta quinta-feira (20), afirmou que, independentemente do resultado das eleições, o ano terminará com uma taxa de juros próxima de 14% ao ano — sexto ano consecutivo acima de 10% ao ano.
Esse cenário coloca o país entre as maiores taxas reais de juros do mundo (descontada a inflação). Mesmo com três cortes nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), a taxa continuaria elevada diante de uma inflação projetada em aproximadamente 4,5% para 2027.
Na avaliação de Mansueto, o principal problema da economia é o cenário fiscal, com os gastos públicos saltando de 9% em oito anos (de 2012 a 2020) para 21% acima da inflação nos últimos quatro anos. “O desafio do Brasil é controlar o crescimento do gasto”, afirmou.
O percentual supera o crescimento real observado nos governos de Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Entretanto, tranquilizou os investidores ao dizer que a situação econômica é bem mais tranquila do que a observada em 2015 e 2016. Naquele período, o país enfrentava problemas simultâneos nos setores de petróleo, energia e construção civil, além de uma recessão e inflação elevada.
Também destacou que o governo atual conseguiu reduzir o déficit primário de 2,4% do PIB no primeiro ano da atual administração para cerca de 0,5% do PIB em 2026. A melhora, porém, não teria sido suficiente para estabilizar a trajetória da dívida pública.
O gasto com juros da dívida pública passou de aproximadamente 6% do PIB em 2023 para cerca de 8,5% do PIB em 2026. Com isso, o déficit nominal, que considera o resultado das contas públicas após o pagamento dos juros, deve chegar a cerca de 9% do PIB neste ano.
Segundo o economista, esse percentual é significativamente superior à média de aproximadamente 6% do PIB registrada em países que enfrentam problemas fiscais, como Estados Unidos, Reino Unido e França.
Ajuste fiscal pode acelerar cortes da Selic
Mansueto afirmou que o mercado precisa enxergar um momento em que a dívida pública deixe de crescer e passe a apresentar uma trajetória de queda. Segundo ele, a falta de clareza sobre quando isso ocorrerá dificulta a redução dos juros de longo prazo.
Como exemplo, citou o período do governo Michel Temer. Em maio de 2016, a taxa Selic estava em 14,25% ao ano. Em outubro daquele ano, a queda das expectativas de inflação abriu espaço para cortes de juros. Dois anos depois, os juros chegaram a 6,5% ao ano.
Para ele, um movimento semelhante poderia ocorrer a partir de 2027, caso o próximo governo apresente um plano fiscal considerado crível pelo mercado.
“Se, no início do próximo governo, com o novo plano fiscal, o mercado conseguir enxergar que a dívida continuará crescendo, mas, eventualmente, no final do próximo governo, a dívida para de crescer e começa a cair, imediatamente o juro cai”, afirmou.
Queda dos juros pode beneficiar Bolsa e FIIs
Esse movimento causará um “efeito dominó”, na visão do economista, com a queda estrutural dos juros resultando na valorização das empresas listadas em Bolsa, no aumento das cotas de fundos imobiliários (FIIs) e na expansão do mercado de capitais.
Ele lembrou que, à época, o volume anual de recursos captados por empresas por meio de FIIs, ofertas públicas de ações, follow-ons e emissão de dívida privada passou de aproximadamente R$ 120 bilhões em 2015 e 2016 para cerca de R$ 800 bilhões nos últimos 12 meses.











