Em menos de um mês, as ações de uma empresa de Santa Catarina subiram praticamente 400% em 10 dias. E a explicaçãopode estar em um documento de apenas nove páginas.
Trata-se da Teka Tecelagem, fábrica conhecida por suas toalhas e lençóis.
Suas ações ordinárias (TEKA3) tiveram uma alta de 390% desde o dia 1º de junho, saltando da faixa dos R$ 7 para serem negociadas, hoje, por R$ 35.
A média do volume diário de negociações do papel, que, entre os dias 1º e 18, era de 2,4 mil, saltou para 420 mil entre os dias 18 e 26.
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O aumento expressivo se deu a partir da divulgação um documento crucial para a companhia, que está em recuperação judicial.
Um relatório feito pela administradora judicial nomeada para acompanhar os passos da recuperação da Teka, a advogada Carmen Schafauser, adota um tom otimista em relação à companhia.
O documento traça o caminho percorrido pela empresa nos últimos meses, de dezembro de 2019 a abril de 2020. Vale lembrar que a Teka terminou o último ano com uma dívida líquida de R$ 129 milhões.
A advogada demonstra que as vendas iam bem até fevereiro, mas, com a chegada do coronavírus no Brasil, a receita caiu pela metade, a partir de março. E a inadimplência aumentou.
Antes de se tornar uma pandemia, o vírus até “ajudou” as contas da empresa, uma vez que o fechamento do mercado chinês fez aumentar a procura pelos produtos da Teka, explica Schafauser.
A partir de março, produção das fábricas passou a ser focada em produtos hospitalares, como aventais, toucas e máscaras. Turnos foram reduzidos e empregados, demitidos. Mais de mil trabalhadores tiveram seus contratos suspensos ou jornadas reduzidas.
Apesar de as contas continuarem fechando no negativo, o tom adotado pela administradora dá a entender que a direção da empresa tem feito tudo da forma correta para sair bem da recuperação judicial. A impressão que fica é que, se não fosse a pandemia de Covid-19, a Teka estaria nos trilhos.
O momento parece positivo para isso, uma vez que as decisões favoráveis a empresas em recuperação judicial têm proliferado no Judiciário.
Antecipando as dificuldades financeiras, o Conselho Nacional de Justiça editou no final de março a Recomendação 63, que orienta juízes a adotar medidas para mitigar o impacto da Covid-19 nas empresas em recuperação judicial, como noticiou o site Consultor Jurídico.
Segundo a recomendação, os magistrados devem dar prioridade à análise de pedidos de levantamento de valores em favor dos credores ou de empresas recuperandas.
Não dá para dizer que a Teka não se favoreceu disso. No último dia 24, a empresa conseguiu impedir, por 60 dias, o corte de luz de suas fábricas por falta de pagamento.
A medida do CNJ orienta também que magistrados autorizem a reformulação de planos de recuperação quando comprovada a diminuição da capacidade de cumprir obrigações por parte da companhia afetada. E o documento divulgado pela administradora judicial pode servir para essa comprovação, abrindo as portas para a negociação de um novo plano de recuperação.
Recuperação como oportunidade
Os preços das ações de empresas que entram em recuperação costumam cair, pois o risco de quebrarem fica nítido. Mas o preço baixo pode ser visto também como oportunidade.
Então o investidor precisa estar atento a questões que vão além dos dados fundamentalistas e financeiros das companhias (que podem ser acessados aqui) ou dos balanços.
Um ponto que precisa ser analisado é o valor de liquidação da companhia. Ou seja: se ela quebrar hoje, a venda de todos os seus bens dá conta de pagar todas as suas dívidas e, ainda, seus acionistas?
O item pode ser bem ilustrado com a recente venda da Unitel, controlada africana da Oi, lembra Samuel Torres, analista da Capital Research. Quem não havia olhado de perto as contas da companhia, poderia ficar empolgado com o negócio avaliado em R$ 4,19 bilhões. Mas o impacto no preço das ações foi baixo, uma vez que já era um movimento esperado pelo mercado. “Quem comprou as ações, já tinha avaliado que a Unitel era um ativo a ser vendido e precificou as ações também com base nisso”, explica Silveira.
Outra exigência para investir em companhias em recuperação é o acompanhamento constante das notícias. Como lembra Pedro Albuquerque, CEO do Tradersclub, esses são os chamados “papéis de eventos”. Com preços baixos e volatilidade alta, costumam sofrer forte impacto do noticiário.
Segredos no processo
O advogado especialista na área, Tullo Cavallazzi, aponta que o próprio processo judicial da recuperação cria um caminho interessante para o investidor se inteirar de tudo o que ocorre na operação da empresa. Isso porque a companhia é obrigada a apresentar um plano de recuperação judicial, com todos os seus planos para dar a volta por cima.
O plano costuma ficar disponível na página de RI da empresa ou em sites feitos especificamente para dar transparência à recuperação.
Além disso, também costumam ficar à disposição os relatórios feitos mensalmente pelos administradores judiciais das empresas em recuperação, que trazem detalhes sobre a operação e servem como ferramentas estratégicas para o investidor.
Leia o documento sobre a Teka.
*Imagem em destaque: Piqsels.com










