As importações brasileiras de fertilizantes provenientes dos países do Conselho de Cooperação do Golfo somaram US$ 220,44 milhões no primeiro semestre deste ano, segundo dados compilados no ComexStat, do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). O resultado equivale a uma redução de aproximadamente 53% em relação aos US$ 469,77 milhões registrados no primeiro semestre de 2025.
Junho concentrou o maior valor mensal das importações no primeiro semestre, com o Brasil importando US$ 98,9 milhões em fertilizantes do bloco, contra US$ 116,1 milhões em junho do ano anterior. Na sequência aparecem os meses de janeiro, com US$ 47,4 milhões, e março, com US$ 29,9 milhões.
Para Luciano Gioielli, analista internacional do Portal das Commodities, ainda que o choque seja temporário, evidencia uma vulnerabilidade estrutural do Brasil para a produção de commodities. Dessa forma, “a cadeia de produção brasileira fica nas mãos de produtores externos de fertilizantes”, enfatiza Gioielli.
Ele destaca que 80% dos fertilizantes utilizados pelo país são importados, e 100% dos produtos à base de ureia também vêm de fora, dos quais aproximadamente 41% passam pelo Estreito de Ormuz. Daí a grande importância dos países fornecedores do Oriente Médio, como Catar, Arábia Saudita e Irã, para o mercado brasileiro, assim como para outros países considerados grandes produtores de alimentos.
Nesse cenário, aponta Gioielli, ainda que haja espaço para países como Rússia, Canadá, China e Marrocos ampliarem a participação no mercado de fertilizantes, nesse momento não é possível reduzir completamente a dependência global do Oriente Médio, uma vez que cada país possui vantagens na produção de um tipo específico de fertilizante, incapaz de suprir a demanda mundial como os países do Oriente Médio.
Segundo o especialista, o maior desafio neste momento é garantir fertilizantes a preços competitivos em território nacional, sem deixar o produtor vulnerável à volatilidade inerente à geopolítica.
Redução do volume importado também pressiona o agro
A distribuição mensal evidencia a diferença em relação a 2025. Em janeiro, as compras foram de US$ 47,35 milhões, contra US$ 124,25 milhões um ano antes, enquanto em fevereiro caíram para US$ 8,12 milhões, ante US$ 44,43 milhões.
Já em março, houve movimento contrário: as importações alcançaram US$ 29,9 milhões, acima dos US$ 7 milhões registrados no mesmo mês de 2025, e em abril foram US$ 8,66 milhões, contra US$ 75 milhões no ano anterior. Em maio, o valor chegou a US$ 27,41 milhões, ante US$ 103 milhões em maio de 2025.
A retração não ocorreu apenas em valor. O Brasil recebeu aproximadamente 383,05 mil toneladas de fertilizantes dos países do Conselho de Cooperação do Golfo no primeiro semestre. No mesmo período de 2025, o volume havia chegado a cerca de 1,03 milhão de toneladas.
A redução da quantidade importada explica parte importante da queda dos gastos com logística. O frete totalizou aproximadamente US$ 13,01 milhões entre janeiro e junho deste ano, contra US$ 27,92 milhões no primeiro semestre de 2025.
O seguro acompanhou o movimento. O custo passou de US$ 223,7 mil no primeiro semestre do ano passado para US$ 126,66 mil em 2026. Apesar da queda no desembolso total, a comparação mensal mostra aumento do custo logístico por tonelada em maio e junho.
Avanço nas negociações entre EUA e Irã pode favorecer retomada dos fluxos comerciais
O mercado global de fertilizantes deve entrar em uma fase de menor previsibilidade no terceiro trimestre, mas com riscos diferentes entre os principais tipos de insumos, segundo o Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX.
Segundo o levantamento, de um lado, avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã podem favorecer a retomada dos fluxos comerciais. De outro, novas tensões no Oriente Médio já voltaram a pressionar a ureia e colocam o abastecimento brasileiro no centro das atenções.
Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, avalia que “a evolução das tratativas diplomáticas representa um fator importante para a redução dos riscos no mercado global de fertilizantes. Embora não elimine a possibilidade de novos episódios de instabilidade, esse cenário contribui para melhorar a visibilidade dos agentes do setor e reforça as expectativas de normalização dos fluxos comerciais ao longo do segundo semestre”.
Nesse cenário, uma eventual retomada da navegação pelo Estreito de Ormuz e a recuperação gradual das exportações chinesas de ureia podem ampliar a oferta internacional e reduzir parte das restrições observadas nos últimos meses.
Porém, essa melhora não ocorre de maneira uniforme. Enquanto a ureia pode entrar em um ciclo de recuperação dos preços, os fertilizantes fosfatados continuam enfrentando limitações estruturais de oferta. Já os potássicos tendem a apresentar menor oscilação no curto prazo, segundo o analista.
Mercado de fertilizantes nitrogenados muda de direção e acumula alta no Brasil
O mercado de nitrogenados é o que apresenta a mudança mais relevante de trajetória. Depois de alcançar níveis historicamente elevados durante o período mais crítico das tensões no Oriente Médio, a ureia passou por uma forte correção. No Brasil, as cotações CFR — que consideram o produto entregue no porto de destino — chegaram próximas de US$ 800 por tonelada em abril e recuaram quase 50% em nove semanas.
A queda melhorou a relação de troca para os produtores, indicador que compara o preço do fertilizante com o valor recebido pela produção agrícola. Ao mesmo tempo, porém, reduziu o espaço para novas quedas significativas.
“Os preços já absorveram uma parcela importante dos fatores baixistas que pressionavam o mercado. Com valores mais baixos, o foco dos participantes volta a se concentrar nos fundamentos de demanda, especialmente diante da possível retomada das compras pela Índia e da necessidade de recomposição de estoques para a safrinha de milho no Brasil”, explica Pernías.
Com parte dos fatores de baixa já incorporada às cotações, o balanço de riscos dos nitrogenados passou a apontar para uma possível recuperação dos preços.
Esse movimento já aparece no mercado brasileiro. Na última semana de julho, a ureia nos portos do país registrou a quarta semana consecutiva de alta e acumulou avanço de 14% no período.
Fatores logísticos e de oferta pressionam ureia
A pressão sobre a ureia está relacionada a fatores logísticos e de oferta. As dificuldades para navegar pelo Estreito de Ormuz e o bloqueio norte-americano aos portos iranianos aumentaram, entre os compradores, a percepção de que a disponibilidade de fertilizantes pode ser menor.
Ao mesmo tempo, segundo dados da StoneX, a demanda tende a ganhar força. As compras brasileiras de nitrogenados normalmente aumentam nesta época do ano, enquanto a Índia deve continuar ativa no terceiro trimestre para recompor seus estoques. Na prática, dois grandes importadores passam a disputar volumes no mercado internacional justamente quando as restrições logísticas ainda limitam a oferta.
Para o Brasil, a combinação de demanda sazonal, estoques menores e incertezas logísticas torna as próximas semanas relevantes para as decisões de compra.
Mohamad Mourad, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, explica que, com o fechamento do Estreito de Ormuz, as companhias marítimas reajustaram para cima os preços dos fretes e dos seguros, impactando tanto as vendas brasileiras para os países árabes quanto no sentido oposto.
No entanto, Mourad atribui à restrição repentina na oferta internacional o maior componente do aumento nos preços dos fertilizantes, fator que, segundo ele, por si só, é capaz de elevar os custos.
Além disso, o secretário-geral chama atenção para a desorganização na programação de navios graneleiros usados para trazer fertilizantes ao Brasil, que, somada ao aumento dos custos com combustível, fretes e seguros de cargas, fez os custos das exportações do Golfo para o Brasil praticamente dobrarem no primeiro semestre, atingindo um pico histórico.
Apesar disso, em poucos meses, as companhias marítimas e os exportadores encontraram alternativas logísticas para driblar as restrições no Estreito de Ormuz. Nesse contexto, Mourad avalia que há uma tendência de que o comércio de fertilizantes retorne à normalidade nos próximos meses, justamente quando o produto será mais necessário para a preparação das safras de verão.
Rotas alternativas e o problema da demanda interna
Para Mourad, a possibilidade de novas rotas para exportação de fertilizantes ou desvios por rotas mais longas e caras tem papel importante na garantia da oferta de fertilizantes vindos dos países árabes, apesar de não serem a solução ideal. Nesse cenário, ele destaca a importância da reconfiguração das rotas nos períodos de conflito:
“Acompanhamos o comércio entre o Brasil e os países árabes há muitos anos e, ao longo de todos eles, mesmo com os conflitos, nunca houve retração expressiva nos embarques realizados pelos dois lados. O comércio, aliás, ao longo dos últimos 40 anos, tem avançado de forma consistente, ano após ano. E isso foi possível porque o setor exportador dos dois lados soube reconfigurar seus processos conforme as condições e encontrar soluções”, afirma.
Sobre a perspectiva de preços, Mourad afirma que o Brasil está tomando medidas para elevar a oferta interna de fertilizantes, mirando, inclusive, a autossuficiência. Quando ao cenário de oferta, ele destaca que, além dos países árabes do Golfo, há outros fornecedores capazes de suprir a demanda e pavimentar a retomada do equilíbrio dos preços.
“Entre os países árabes, há grandes produtores de fertilizantes, inclusive fornecedores em condições de ampliar os envios ao Brasil. Então, há alternativas. Com toda certeza, elas serão utilizadas, e a tendência é que os preços atinjam um novo patamar de equilíbrio”, conclui.
Estoques de nitrogênio ficam abaixo dos anos anteriores
A StoneX também destaca que as importações de ureia e MAP continuam abaixo da média histórica. Além disso, os volumes somados de ureia, sulfato de amônio e nitrato de amônio desembarcados entre janeiro e junho indicam um estoque de nitrogênio inferior ao observado em anos anteriores.
Esse quadro pode exigir uma aceleração das compras nas próximas semanas, justamente quando os importadores brasileiros entram no período mais relevante de preparação para a próxima safra de verão.
“Os preços se tornaram mais atrativos, mas a atenção dos compradores deve se voltar cada vez mais para a execução logística e para o abastecimento físico. As decisões tomadas nas próximas semanas serão determinantes para garantir a disponibilidade de fertilizantes durante a próxima temporada agrícola”, observa Pernías.
Além do comportamento da demanda brasileira, o mercado monitora as monções na Índia, eventuais oscilações da demanda global e as limitações das janelas logísticas.
Fosfatados têm outro desafio: falta de enxofre
Se a ureia pode voltar a subir, o mercado de fosfatados enfrenta uma restrição diferente. A eventual normalização da logística no Oriente Médio tende a exercer pressão de baixa sobre os preços, mas a oferta limitada de enxofre impede uma correção rápida e consistente.
O enxofre é uma matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes fosfatados. A escassez mundial elevou os custos industriais, reduziu as taxas de utilização das fábricas e limitou a capacidade de produção em diferentes regiões.
Pernías explica que a melhora no fluxo logístico não significa que o mercado retornará imediatamente às condições observadas antes do conflito. A disponibilidade de enxofre continua sendo um fator determinante para a oferta global de fosfatados, o que pode tornar qualquer ajuste de preços mais gradual e cercado de incertezas”.
A restrição, segundo ele, também reduz a possibilidade de uma recuperação mais forte das exportações chinesas de MAP e DAP. Com isso, a expectativa é de que os preços dos fosfatados permaneçam elevados por mais tempo.
Fertilizantes potássicos têm cenário mais equilibrado
Segundo relatório, entre os principais grupos de fertilizantes, o potássio apresenta a menor perspectiva de volatilidade no curto prazo. Os compradores seguem cautelosos diante de preços mais altos, mas não há sinais relevantes de restrição na oferta global.
“Os fundamentos do mercado de potássicos permanecem relativamente equilibrados. Não há, neste momento, uma combinação de demanda forte ou restrições de oferta que justifique movimentos expressivos de alta ou de baixa dos preços”, afirma Pernías.
A StoneX projeta relativa estabilidade para o terceiro trimestre, com condições de aquisição semelhantes às atuais.
Milho e ureia ainda preservam relação de troca
Para o produtor brasileiro, a diferença entre os segmentos também aparece na relação de troca. No caso do milho e da ureia, o indicador permanece próximo da média dos últimos anos e em nível considerado relativamente atrativo. Isso significa que a valorização recente do fertilizante ainda não provocou impacto significativo sobre o poder de compra do agricultor.
“Por enquanto, as relações de troca entre milho e ureia permanecem em níveis relativamente atrativos, próximos à média dos últimos anos. Isso indica que o agricultor ainda não foi significativamente afetado pela recente valorização do fertilizante. No mercado de fosfatados, porém, as relações de troca estão desfavoráveis. Portanto, embora a situação dos nitrogenados continue razoável, os fosfatados seguem pressionando a rentabilidade do produtor”, conclui Pernías.
Juros elevados adicionam pressão às margens
Além dos preços, da oferta e da logística, o custo do dinheiro permanece como outro fator de pressão sobre o agronegócio. O relatório destaca que os juros continuam elevados no Brasil e nos Estados Unidos. Com isso, o financiamento fica mais caro e reduz a margem dos produtores rurais.
Para o segundo semestre, a StoneX considera que esse continuará sendo um desafio, mesmo se houver redução das incertezas geopolíticas e maior equilíbrio no mercado de fertilizantes.
“Mesmo com a redução das incertezas geopolíticas e um mercado mais equilibrado, a rentabilidade do produtor continua sendo impactada pelo elevado custo do capital. Por isso, a melhora das condições de mercado não implica uma normalização imediata do ambiente financeiro para o agronegócio”, segundo Pernías.
Gioielli destaca que, em um cenário de pressão sobre os custos de financiamento da colheita, de insumos e commodities, o medo da escassez de fertilizantes pode desencadear um adiantamento das importações e, consequentemente, acarretar o aumento da demanda, puxando os preços para cima.
Em outro cenário, no qual, devido ao momento atual do agro brasileiro, o produtor não possa fazer compras antecipadas, uma espera pela melhora dos preços pode levar ao atraso do plantio, perda da janela ideal e até mesmo comprometer a produtividade e impactar tanto a safra de soja como a safrinha de milho, caso até outubro os produtores não estejam bem abastecidos.
Nesse cenário, os custos dos fertilizantes podem impactar o preço da área plantada, influenciando a qualidade da safra e a margem de lucro do produtor.











