Por Igor Monteiro*
Por muito tempo, o mercado de crédito privado brasileiro foi analisado sob o simples racional do “quanto maior a robustez da empresa, melhor o investimento”.
Essa associação faz sentido até certo ponto, já que a literatura financeira sempre nos mostrou que grandes empresas costumam ser menos arriscadas do que as companhias menores. A questão é que crédito é uma classe de ativos em que qualidade e preço caminham lado a lado. Uma empresa excelente pode, de igual forma, não representar uma oportunidade excelente para o investidor.
Essa diferença ajuda a explicar uma reflexão que faço bastante por aqui. O mercado está remunerando adequadamente os riscos que os investidores assumem? Para mim, parte da resposta está na própria estrutura do mercado de crédito privado.
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O segmento high grade reúne empresas de (suposta) elevada qualidade de crédito, sendo normalmente grandes corporações com ratings elevados. São emissões frequentemente encontradas em debêntures, CRIs, CRAs e outros instrumentos distribuídos ao mercado pelos grandes bancos. Empresas como Vale e Raízen são exemplos.
Já o mercado high yield concentra operações que oferecem retornos mais elevados em função de um risco percebido maior. Em muitos casos, são empresas de menor porte ou com acesso mais restrito ao crédito bancário e ao mercado de capitais.
Por norma, a leitura mais comum é enxergar o high grade como a melhor escolha. Mas essa conclusão ignora uma variável importante, que é o preço.
Grandes empresas possuem acesso a diversas fontes de financiamento. Bancos, fundos de crédito, investidores institucionais e mercado de capitais disputam espaço para emprestar recursos a esses emissores. Quanto maior a oferta de capital, maior o poder de negociação das empresas e menor a remuneração exigida por elas para captar recursos.
Essa dinâmica tem pressionado os spreads para baixo. Se olharmos agora, não é raro encontrar operações de crédito high grade oferecendo CDI +0,5% ou CDI +1%. São retornos que vêm sendo cada vez mais debatidos pelo mercado, especialmente diante dos riscos inerentes a qualquer exposição corporativa.
Os eventos de crédito observados nos últimos anos mostraram que porte e rating elevado reduzem riscos, mas estão longe de os eliminarem. Nenhuma análise séria de crédito parte da premissa de que a inadimplência é impossível.
Vimos empresas tidas como high grade, com ratings elevados, enfrentando problemas de solvência. Algumas delas, com problemas de governança que seriam esperados em micro e pequenas empresas. E, apesar disso tudo, remunerando pouquíssimo os investidores. A conta, de fato, não fechava.
Por isso, a questão relevante para o investidor talvez não seja identificar onde está o menor risco, mas onde o risco está sendo melhor remunerado. É nesse contexto que o mercado high yield passa a merecer atenção.
Pequenas e médias empresas convivem com uma realidade diferente. Muitas possuem acesso limitado ao crédito bancário e poucas alternativas de financiamento. Como consequência, a oferta de capital disponível para essas companhias é significativamente menor.
Naturalmente, quando o capital é escasso, o poder de barganha das empresas é menor e o prêmio exigido pelos investidores aumenta. Isso cria oportunidades em operações que podem oferecer CDI + 6%, CDI + 7% ou até retornos anuais superiores, dependendo do perfil da empresa e da estrutura da transação.
Isso não significa, obviamente, que todo crédito high yield seja um bom investimento. Empresas menores costumam apresentar menos histórico operacional e um nível de governança que exige análise mais cuidadosa. Cabe ao analista, inclusive, entender se a operação da empresa comporta um custo de capital dessa magnitude.
Por outro lado, justamente por enfrentarem restrições de acesso a capital, essas operações frequentemente incorporam mecanismos de proteção que nem sempre estão presentes em emissões tradicionais de grandes companhias (garantia real, cessão fiduciária de recebíveis, subordinação de cotas, covenants mais restritivos e sobrecolateralização). Esse é o ponto que considero mais interessante na discussão atual sobre crédito privado.
Em diversos segmentos do high grade brasileiro, a abundância de capital comprimiu os spreads a níveis que merecem atenção. Ao mesmo tempo, parte do universo high yield continua oferecendo prêmios significativamente maiores, muitas vezes acompanhados por estruturas robustas de proteção.
Isso não torna o high yield superior por definição. Mas sugere que, neste momento do ciclo, algumas das melhores relações entre risco e retorno podem estar justamente em empresas que recebem menos atenção do mercado tradicional. E essa é uma discussão que o mercado de crédito brasileiro deveria fazer com mais frequência.
*Igor Monteiro é CEO da EqSeed. Fundada em 2015, foi a primeira plataforma autorizada pela CVM a distribuir rodadas de investimento em empresas privadas e se consolidou como a maior do país no segmento online, com mais de 90 mil investidores cadastrados e 86 ofertas concluídas.
Em um ambiente 100% digital e regulado, qualquer pessoa pode investir diretamente em startups e empresas de alto crescimento, de forma simples e acessível, como quem compra ações na Bolsa. Para quem quer ir além do tradicional, é a porta de entrada para conhecer uma classe de ativos antes reservada a grandes fundos e investidores institucionais.
[Conteúdo produzido por Monitor Conexões, em parceria com EqSeed]











