O brasileiro já consegue manter as contas sob controle, mas ainda encontra dificuldades para transformar a organização do orçamento em segurança financeira para enfrentar imprevistos e planejar o futuro, aponta o Índice Planejar, elaborado pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro, que atribuiu 52,7 pontos, em uma escala de 0 a 100, ao planejamento financeiro da população avaliada.
O levantamento considera brasileiros das classes A, B e C com acesso à internet e mede comportamentos efetivamente adotados por eles. O resultado mostra que há uma diferença latente entre administrar receitas e despesas no presente e construir uma estrutura capaz de absorver uma interrupção de renda, proteger o patrimônio e sustentar objetivos de longo prazo.
Ana Leoni, CEO da Planejar, explica que o planejamento financeiro não se resume a controlar o orçamento ou fazer as contas fecharem no fim do mês, mas abrange diferentes dimensões da vida financeira em cada fase.
“Organização financeira não basta, porque você pode ser organizado e ter um grande rombo no seu no orçamento. Eu sei o quanto ganho, quanto eu gasto, mas não é suficiente; isso faz com que eu deixe de pagar alguma conta, que eu atrase algum boleto, ou tenha que me alavancar por meio do financiamento ou do empréstimo para fazer jus a isso”, afirma Leoni.
O índice é dividido em cinco dimensões: gestão orçamentária; impacto do endividamento no orçamento; reservas e resiliência; proteção e seguros; e planejamento de longo prazo. O modelo também considera que as necessidades financeiras se alteram ao longo da vida.

Reserva financeira acende alerta, enquanto gestão do orçamento tem melhor desempenho
A diferença entre controlar o presente e se preparar para o futuro aparece com maior clareza na dimensão de reservas e resiliência (39,3), que registra o principal ponto de atenção do índice. Já a gestão orçamentária (70,1) apresenta o melhor desempenho entre as cinco dimensões avaliadas.
Nesse cenário, manter receitas e despesas organizadas não significa, necessariamente, ter condições financeiras para atravessar uma perda de renda ou outro acontecimento inesperado.
A formação de reservas reforça essa diferença. O levantamento aponta desempenho superior no item relacionado à posse de produtos de poupança ou investimento em relação à capacidade de manter a vida financeira diante de uma interrupção de renda.
“Ter algum dinheiro investido é diferente de ter uma reserva capaz de sustentar a vida financeira quando a renda é interrompida. Antes de pensar apenas em rentabilidade, é preciso entender a função daquele recurso dentro do planejamento e construir segurança”, diz Leoni.
A dificuldade atravessa todas as faixas etárias consideradas no estudo, dos jovens de 18 a 24 anos às pessoas com 61 anos ou mais.
Planejamento para aposentadoria também fica para trás
O planejamento de longo prazo, com pontuação de 43,3 no índice, é outro ponto de atenção identificado pelo estudo, que evidencia uma diferença entre reconhecer a importância de se preparar para a aposentadoria e efetivamente adotar comportamentos voltados para esse objetivo.
A previdência privada aparece entre os itens de menor desempenho avaliados pelo levantamento.
Para quem investe, a constatação reforça que o planejamento financeiro não se limita à gestão do dinheiro disponível no presente. A estratégia também precisa considerar a finalidade dos recursos e os objetivos que deverão ser financiados ao longo da trajetória financeira.
Planejamento é menor entre pessoas de 25 a 44 anos
O índice também mostra que o planejamento financeiro não avança de forma linear com a idade. Entre as faixas analisadas, os brasileiros de 25 a 44 anos apresentam o menor resultado, enquanto o grupo com 61 anos ou mais registra o melhor desempenho.
A faixa de 25 a 44 anos concentra diferentes compromissos financeiros. Formação de família, financiamentos de longo prazo e uma carreira ainda em consolidação podem pressionar o orçamento em um período no qual o patrimônio acumulado tende a ser menor para absorver essas responsabilidades.

Essa diferença entre as etapas da vida é incorporada à própria metodologia do índice. Os pesos utilizados no cálculo consideram as particularidades e prioridades de cada faixa etária, em vez de aplicar o mesmo critério indistintamente a todos os participantes.
“A metodologia considera justamente essas particularidades ao distribuir os pesos que compõem o cálculo do índice. Em vez de aplicar uma única régua para todas as pessoas, o indicador pondera as diferentes dimensões do planejamento financeiro, levando em conta as prioridades e necessidades de cada fase da vida, ajudando a identificar quais temas merecem maior atenção ao longo da trajetória financeira”, explica Hilton Notini, gestor de Riscos e consultor da Planejar no projeto.
O Índice Planejar, portanto, aponta que o desafio não está apenas em equilibrar o orçamento mensal. O levantamento mostra uma lacuna entre a capacidade de administrar as finanças correntes e a construção de recursos e estratégias destinados a enfrentar imprevistos, proteger a renda e atender objetivos de longo prazo.











