O Banco do Japão (BoJ) manteve a taxa básica de juros em 1% nesta sexta-feira (31), interrompendo, por ora, o ciclo de aperto monetário iniciado em junho, quando elevou o custo do crédito ao maior nível em cerca de três décadas. A decisão, aprovada por oito votos a um, reflete a estratégia da autoridade monetária de avaliar os efeitos da alta mais recente sobre a atividade econômica, a inflação e as condições financeiras antes de promover um novo ajuste.
O único voto divergente veio do conselheiro Hajime Takata, que defendeu uma elevação imediata da taxa para 1,25%, argumentando que o BoJ deve responder mais rapidamente aos riscos inflacionários associados à demanda externa e às mudanças nas condições financeiras internacionais.
Apesar de preservar os juros, o Banco Central reforçou que o processo de normalização da política monetária está em andamento. A instituição reiterou que continuará elevando as taxas e reduzindo os estímulos à economia caso a inflação e o crescimento evoluam conforme as projeções.
Entre os fatores que exigem atenção estão a evolução do conflito no Oriente Médio, o comportamento das cotações internacionais do petróleo e seus reflexos sobre a inflação japonesa.
Suspeitas de nova intervenção no câmbio precede decisão sobre juros
Outro ponto de preocupação continua sendo o desempenho do iene. A desvalorização da moeda japonesa eleva o custo das importações e pode ampliar as pressões inflacionárias no país.
Nesta madrugada, o iene registrou uma forte valorização frente ao dólar em meio às suspeitas de uma nova intervenção do governo no mercado cambial. Analistas, porém, avaliam que esse tipo de ação tende apenas a retardar a perda de valor da moeda.
Segundo dados do Banco Central citados pela Reuters, o Japão pode ter utilizado até US$ 58,97 bilhões nas operações mais recentes para fortalecer o iene, reforçando os esforços para conter sua desvalorização.
As projeções do BoJ para as condições do mercado monetário também surpreenderam. O banco estimou uma saída líquida de 8,2 trilhões de ienes para o dia seguinte, enquanto as projeções das corretoras variavam entre um superávit de 1,4 trilhão de ienes e um déficit de 1,73 trilhão de ienes.
Intervenção do Japão pode ter apoio dos Estados Unidos
Fonte do mercado informou que o governo japonês teria realizado na quinta-feira (30) uma operação de compra de ienes e venda de dólares em Nova York, a primeira intervenção desse tipo em três meses. Durante as negociações, o dólar chegou a recuar cerca de 3%, para 158,34 ienes, após ter alcançado, no início da semana, o maior patamar em aproximadamente quatro décadas. As autoridades japonesas, porém, não confirmaram uma atuação no mercado.
As operações também indicam uma possível coordenação entre os governos do Japão e dos Estados Unidos para conter a desvalorização do iene. Segundo analistas, a combinação de dados econômicos mais fracos nos EUA, o ajuste de posições de fim de mês e a queda generalizada da moeda americana criou uma oportunidade para que Tóquio reforçasse a defesa do iene.
Por volta das 9h30 (horário da costa leste dos Estados Unidos) de quinta-feira, a moeda japonesa saiu de aproximadamente 162,8 por dólar para a faixa de 157 em cerca de 50 minutos, após compras em larga escala de ienes, segundo fontes do mercado. Posteriormente, o câmbio voltou para a faixa de 159 por dólar antes de o iene recuperar parte das perdas e retornar ao patamar de 158 pouco depois das 13h.
O dólar chegou ao menor nível em mais de dois meses frente ao iene na quinta-feira, movimento que analistas atribuíram à atuação das autoridades japonesas. Depois de alcançar 157,80 por dólar, o iene voltou a perder força durante as negociações asiáticas desta sexta-feira.
Também na quinta-feira, o Federal Reserve de Nova York, atuando sob orientação do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, solicitou a diversos bancos cotações para operações cambiais — procedimento conhecido como “verificação de taxas”. A atuação simultânea dos governos dos dois países no mercado de câmbio é considerada incomum.
Banco do Japão reduz projeção de inflação para 2026
No relatório trimestral divulgado nesta sexta-feira, o Banco do Japão revisou para baixo sua estimativa de inflação para o ano fiscal de 2026, encerrado em março de 2027. A projeção passou de 2,8% para 2,5%, refletindo o impacto das medidas adotadas pelo governo para reduzir as contas de eletricidade e gás das famílias durante o verão.
Mesmo assim, a autoridade monetária continua projetando que a inflação permanecerá claramente acima da meta de 2% a partir da segunda metade do ano fiscal de 2026.
Segundo o BoJ, esse movimento deverá ser impulsionado pela alta do petróleo, pela fraqueza do iene e pelo aumento dos preços de semicondutores e de outros produtos relacionados à expansão da demanda por inteligência artificial.
À medida que os efeitos da alta do petróleo diminuírem, a expectativa é de que a inflação volte gradualmente para perto da meta. Ainda assim, o Banco considera que os riscos para os preços permanecem concentrados na direção de novas altas, principalmente devido à continuidade dos reajustes salariais, ao aumento dos preços praticados pelas empresas e à elevação das expectativas de inflação.
O conselho reiterou que continua esperando que a inflação subjacente alcance a meta de 2% de forma sustentável em um futuro próximo.
As projeções apontam inflação média de 2,5% no ano fiscal encerrado em março de 2027, de 2,4% no período seguinte e de 2% no ano fiscal posterior. Segundo comunicado, estabilizar a inflação subjacente em torno de 2% é fundamental para reduzir o risco de que os preços avancem além do objetivo estabelecido pelo banco central.
Economia japonesa deve crescer de forma moderada
O BoJ também revisou para cima sua estimativa para o crescimento da economia japonesa no atual ano fiscal, elevando a projeção de 0,5% para 0,6%. Para os dois anos fiscais seguintes, a expectativa permanece de expansão de 0,8% ao ano.
Na avaliação da autoridade monetária, a economia continuará avançando de forma moderada, embora em ritmo mais lento.
O Banco destaca que a alta dos preços do petróleo tende a reduzir os lucros das empresas e a renda real das famílias. Em contrapartida, as medidas de estímulo do governo, as condições financeiras ainda favoráveis e os investimentos ligados à inteligência artificial devem continuar sustentando a atividade econômica.
Entre os principais riscos para esse cenário estão os desdobramentos da situação no Oriente Médio, a volatilidade dos preços do petróleo, as oscilações do câmbio e o comportamento da demanda global por produtos e tecnologias relacionados à inteligência artificial.











