As micro e pequenas empresas (PMEs) ampliaram sua participação na crise de crédito do país e levaram a inadimplência corporativa a um novo recorde. Em abril, 8,5 milhões de CNPJs desse segmento estavam negativados, segundo dados da Serasa Experian.
O número impulsionou o total de empresas inadimplentes para 9 milhões em abril — o maior patamar desde o início da série histórica em 2016 e 1,5 milhão acima na comparação anual.
O avanço da inadimplência também elevou o volume das dívidas em aberto. As PMEs negativadas acumulavam 57,6 milhões de débitos em abril, totalizando R$ 191,8 bilhões. Em média, cada CNPJ possuía 6,8 contas em atraso, com dívida média de R$ 22,5 mil e valor médio de R$ 3,3 mil por débito, evidenciando a crescente pressão financeira sobre os negócios de menor porte.
O avanço dos calotes ocorre mesmo após o início dos cortes na Selic. Com a taxa básica ainda em 14,5% ao ano, o crédito segue caro e mais difícil de acessar, pressionando o capital de giro, reduzindo a capacidade de pagamento das empresas e elevando os riscos para bancos, investidores e para o ritmo da atividade econômica nos próximos meses.
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Segundo a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, essas empresas seguem mais vulneráveis porque dependem com maior intensidade de linhas de crédito de curto prazo e possuem menor poder de negociação junto ao sistema financeiro.
“Com juros ainda elevados e maior seletividade na concessão de crédito, essas empresas enfrentam dificuldades adicionais para recompor capital de giro e administrar o fluxo de caixa, o que contribui para a permanência da inadimplência em níveis elevados”, conclui.
Sudeste lidera concentração de empresas negativadas
O Sudeste concentrou o maior volume de empresas inadimplentes do país em abril. São Paulo liderou o ranking, com 3.076.064 CNPJs negativados. Na sequência aparecem Minas Gerais (881.652); Rio de Janeiro (864.722); Paraná (588.935) e Rio Grande do Sul (518.195).
Segundo a Serasa, a concentração acompanha o peso econômico e a elevada densidade empresarial dessas regiões.
Serviços concentram mais da metade das empresas inadimplentes
Os dados da Serasa mostram que o setor de serviços respondeu por 55,6% das empresas de pequeno a grande porte negativadas em abril. Na sequência aparecem: o comércio, com 32,4%; a indústria, com 8,1%; e o setor primário, com 0,9%.
Quando analisada a origem das dívidas, o maior peso ficou com obrigações ligadas ao segmento de serviços, responsável por 31,7% do total. Em seguida aparecem os bancos e cartões (19,4%), cooperativas (8,6%), utilities de energia, água, gás e saneamento (7%) e telefonia (5,7%).
Bancos preveem aumento do risco de calote
O aumento da inadimplência também elevou a preocupação das instituições financeiras, como mostrou Marcos de Vasconcellos, CEO do Monitor do Mercado, em coluna na Folha de S.Paulo há um mês. A inadimplência tirou R$ 70 bilhões dos três maiores bancos brasileiros nos últimos em abril, impactando seus resultados trimestrais.
O elevado endividamento das famílias, a Selic em dois dígitos, os impactos da guerra do Irã e o processo de recuperação financeira de grandes empresas contribuíram para pressionar os balanços do setor.
Com mais dificuldade para recuperar recursos emprestados, as instituições passaram a restringir linhas consideradas mais arriscadas, elevando o custo do crédito e reduzindo a oferta de financiamentos. Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Caixa Econômica Federal, Santander (SANB11) e Banco do Brasil (BBAS3) ampliaram as provisões destinadas a cobrir possíveis perdas com inadimplência.
Luis Gustavo Budziak, especialista em negociações estratégicas de empresas e sócio-diretor da Quartzo Capital, avalia que quem mais sofre hoje é o Banco do Brasil. O especialista relembra que, no primeiro trimestre de 2025, havia uma provisão de R$ 10 bilhões de perda e, no primeiro trimestre de 2026, o banco reportou R$ 16,8 bilhões de provisão, um aumento de 65%.
Com esse impacto, o lucro da instituição caiu de R$ 7,3 bilhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, montante que representa uma redução de 54% do lucro total do Banco do Brasil.
Somente entre janeiro e março deste ano, essas despesas totalizaram R$ 51,3 bilhões, valor 43,4% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
A expectativa para os próximos meses é de maior deterioração da qualidade do crédito, levando as instituições a adotarem critérios mais rigorosos para concessão de empréstimos e reduzirem o ritmo de crescimento das carteiras.
PMEs devem ter mais dificuldade para renovar crédito
Nesse cenário, Budziak destaca ainda a preocupação das empresas quanto à renovação do crédito com os bancos, diante da exigência de um número ou valor maior das garantias que deve ser exigido devido à demora nos pagamentos, além dos juros altos, que tornam o crédito mais caro diante de uma nova solicitação.
Além da necessidade de prover maiores ou múltiplas garantias para a tomada de crédito, em um ambiente de maior restrição e juros elevados, segundo o especialista, as companhias devem recorrer mais ao crédito comercial e a outros instrumentos alternativos de financiamento que não necessariamente estejam ligados ao crédito para pessoa jurídica, que é o caso de produtores rurais, por exemplo.
Banco do Brasil e Caixa registram piora da inadimplência no agro
No Banco do Brasil, o agronegócio também pressionou os resultados da instituição. Os atrasos superiores a 90 dias chegaram a 6,22% da carteira rural, alta de 3,46 pontos percentuais em um ano.
Budziak destaca que o percentual de empresas do agro em recuperação judicial saltou de apenas 1% em 2012 para os atuais 30% contabilizados até o final de 2025.
O setor enfrenta uma onda de recuperações judiciais desde a quebra da safra de grãos de 2024, que ocorreu após a colheita recorde registrada em 2023.
Somente no primeiro trimestre de 2026, 162 clientes do Banco do Brasil recorreram à recuperação judicial. Segundo o diretor-financeiro da instituição, Geovanne Tobias, “as RJs continuam acontecendo. Houve 61 novos processos em abril, totalizando R$ 650 milhões, o que ainda é um número elevado para um único mês”.
A Caixa Econômica Federal também registrou deterioração em sua carteira rural. No primeiro trimestre, 35 produtores rurais atendidos pelo banco entraram em recuperação judicial. Ao mesmo tempo, a inadimplência do segmento alcançou 18,29%, após avanço de 14 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Para mitigar impactos ainda maiores no setor de crédito, Budziak estima que os bancos com maior provisionamento de perdas, especialmente os bancos privados, devam ficar mais criteriosos em relação à disponibilidade de créditos e financiamentos.
No entanto, o economista avalia que podem adotar a oferta de outros produtos financeiros de impacto menor no crédito, a fim de cobrir a ausência do crédito convencional e dar mais espaço a alternativas de crédito com baixo risco e de curto prazo.











