As exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram ao menor patamar da história no primeiro semestre deste ano, refletindo os efeitos das tarifas impostas pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros. Os embarques somaram US$ 17,4 bilhões no período, o que representa uma queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento da Amcham Brasil.
O impacto do tarifaço contra o Brasil também reduziu a participação dos EUA nas exportações brasileiras para 9,4%, considerado o menor percentual desde o início da série histórica, em 1997. Apesar de o governo norte-americano manter uma extensa lista de exceções às tarifas aplicadas desde o ano passado, o comércio bilateral continuou perdendo espaço — no total, as trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos movimentaram US$ 36,4 bilhões entre janeiro e junho, volume 12,8% inferior ao registrado no mesmo período de 2025.
Em sentido oposto, o comércio exterior brasileiro manteve ritmo de crescimento com outros parceiros: as exportações globais avançaram 11,5%, impulsionadas principalmente pelo aumento das vendas para a China, em 21,9%, e para a União Europeia, em 12,8%.
Esse cenário ganha um novo componente nesta quarta-feira (22), com a entrada em vigor da tarifa adicional de 25%, definida pela Casa Branca após investigação conduzida pelo USTR, o escritório de representação comercial do governo americano.
Embora aproximadamente 60% da pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos permaneça protegida por exceções, o levantamento destaca que boa parte dos produtos manufaturados ficou fora dessa lista e passou a ser atingida pela nova tributação.
Amcham alerta para risco de novas tarifas
Para a Amcham Brasil, o primeiro semestre confirma o impacto das barreiras comerciais sobre o fluxo de negócios entre os dois países.
Em nota, o presidente da entidade, Abrão Neto, afirmou que “o primeiro semestre confirma que o comércio bilateral atravessa um período de forte pressão e reforça a necessidade de um acordo que evite a aplicação de novas tarifas no âmbito da investigação da Seção 301”.
A Seção 301 é um mecanismo da legislação comercial americana que permite ao governo dos Estados Unidos investigar práticas consideradas prejudiciais ao comércio do país e aplicar medidas como tarifas adicionais.
Neto acrescenta que “as sobretaxas poderão comprometer ainda mais as trocas entre Brasil e Estados Unidos”.
Produtos sobretaxados concentram as maiores perdas nas exportações aos EUA
Segundo a Amcham, a retração das exportações está concentrada justamente nas mercadorias submetidas às tarifas americanas.
Os produtos sobretaxados registraram queda de 16,6% nas exportações para os Estados Unidos no primeiro semestre. Já os itens não atingidos pelas tarifas tiveram recuo de 8,7%.
Mesmo com esse cenário, no mês passado houve um primeiro sinal de melhora. Após dez meses consecutivos de queda provocada pelas tarifas impostas por Donald Trump em agosto de 2025, o valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos avançou 3,7% no mês.
O volume embarcado, porém, continuou em queda, indicando que a recuperação ocorreu apenas em termos de preços ou composição das vendas.
Petróleo, café e aço lideram queda na exportação
Cinco dos dez principais produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos registraram queda nas vendas no semestre. Todos eles foram atingidos pelas tarifas americanas. As maiores retrações ocorreram em:
- Café não torrado: -34,8%
- Petróleo bruto: -30,4%
- Produtos semiacabados de ferro ou aço: -21,7%
- Celulose: -9,4%
- Ferro-gusa de ferro ou aço: -1,2%
Ao mesmo tempo, outros cinco dos principais produtos exportados ampliaram as vendas para o mercado americano. Os destaques foram:
- Carne bovina: +41%
- Aeronaves: +32,9%
- Equipamentos de engenharia: +23,8%
- Máquinas de energia elétrica: +16%
- Óleos combustíveis: +13,7%
Importações dos EUA também diminuíram
As compras brasileiras de produtos americanos também perderam força no semestre. As importações recuaram 12,5%, movimento concentrado principalmente em máquinas e motores, cujas aquisições despencaram 76%, redução equivalente a US$ 2,7 bilhões.
Também houve queda nas importações de aeronaves e partes, que diminuíram 14,6%, o equivalente a aproximadamente US$ 100 milhões.
Comércio reage em junho, mas cenário geopolítico pressiona
Embora junho tenha apresentado os primeiros sinais de recuperação do comércio bilateral, a Amcham avalia que o ambiente permanece cercado de incertezas.
Além da possibilidade de novas tarifas decorrentes da investigação conduzida pelo USTR, a entidade destaca que o conflito no Oriente Médio pode elevar os custos relacionados ao petróleo e ao gás natural, pressionando cadeias produtivas e afetando o fluxo comercial entre Brasil e Estados Unidos.











