A expansão das fontes renováveis na matriz energética brasileira e a perspectiva em torno do acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul, em vigor desde 1º de maio, criaram um ambiente favorável para ampliar a cooperação entre Brasil e Barcelona-Catalunha em áreas ligadas à transição energética e à modernização da indústria.
A aproximação reúne duas economias com ativos complementares: de um lado, a disponibilidade brasileira de energia limpa e escala industrial; de outro, a capacidade catalã em inovação, tecnologia e descarbonização da produção.
Atualmente, o Brasil é o principal parceiro comercial da Catalunha no Mercosul e responde por parcela relevante dos cerca de 1,9 bilhão de euros movimentados entre a região espanhola e o bloco sul-americano.
Os indicadores reforçam esse cenário: em 2025, as fontes renováveis passaram a representar 64,4% do consumo de energia da indústria brasileira, resultado de investimentos em eficiência energética, eletrificação de processos produtivos e expansão da geração de energia limpa. A expectativa é que o acordo entre União Europeia e Mercosul fortaleça a integração entre empresas, centros tecnológicos e cadeias industriais dos dois mercados.
Segundo Josep Maria Buades, diretor do escritório da ACCIÓ (Agência para a Competitividade da Empresa da Catalunha no Brasil), a complementaridade entre os dois mercados cria oportunidades relevantes de cooperação.
“Há uma convergência natural de capacidades entre os dois ecossistemas. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com grande disponibilidade de recursos renováveis. Já a Catalunha concentra conhecimento, tecnologia e experiência em áreas fundamentais para a descarbonização industrial”, afirma.
Buades avalia ainda que a combinação entre a disponibilidade de recursos naturais e a escala produtiva brasileira com a capacidade tecnológica catalã favorece o desenvolvimento de iniciativas conjuntas.
Empresas catalãs ampliam investimentos em transição energética
A transição energética já ocupa posição estratégica na economia catalã. Atualmente, 41,4% das empresas da região investem em transformação verde, enquanto os segmentos de energia e hidrogênio figuram entre os setores prioritários, ao lado de mobilidade elétrica, semicondutores e indústria avançada.
Buades explica que as fontes renováveis representam mais da metade da matriz energética brasileira e respondem por mais de 88% da geração elétrica do país.
“Do outro lado, a União Europeia vem acelerando investimentos em hidrogênio verde, biocombustíveis, energia solar e eólica, sistemas de armazenamento e tecnologias voltadas à redução das emissões industriais, criando um ambiente de sinergia e complementaridade”, ressalta.
Entre as empresas catalãs dos segmentos de energia e eletricidade com operações no Brasil, segundo a ACCIÓ, estão Enerside Energy S.A., Sociedad Hispano Americana de Lubricantes S.L., Jarkov 43 S.L., Simon Holding S.L., Sqby Share Sociedad Limitada, Schneider Electric España S.A., Leica Geosystems S.L., Automated Transactions S.L. e Repsol S.A., que possui uma planta industrial na Catalunha.
Digitalização e IA ampliam oportunidades na cooperação industrial
A cooperação entre Brasil e Catalunha também avança na transformação digital da indústria. Enquanto o Brasil reúne um dos maiores parques industriais do mundo, com forte presença nos setores automotivo, agroindustrial, químico, energético, mineral e de bens de consumo, a Catalunha concentra competências em Indústria 4.0, automação, inteligência artificial (IA), manufatura avançada e mobilidade.
Essa combinação favorece projetos voltados à digitalização das fábricas, automação de processos produtivos e gestão inteligente do consumo de energia.
“O avanço da eficiência energética passa cada vez mais pela digitalização. Tecnologias como inteligência artificial permitem reduzir desperdícios, otimizar processos e aumentar a competitividade industrial”, destaca Buades.
Segundo o executivo, a região abriga alguns dos ecossistemas europeus mais desenvolvidos em inovação aplicada à indústria, conhecimento que pode contribuir para acelerar a modernização prevista pela Nova Indústria Brasil, fortalecendo cadeias produtivas e ampliando a competitividade internacional.
Além da digitalização, as possibilidades de cooperação incluem projetos de hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, armazenamento de energia, economia circular e tecnologias para descarbonização industrial, além de mecanismos de financiamento destinados à transição energética e à economia de baixo carbono.
Acordo UE-Mercosul amplia integração econômica e estratégica para a transição energética
O acordo entre União Europeia e Mercosul também prevê medidas voltadas à integração econômica dos dois blocos. Entre elas está a ampliação do acesso europeu a matérias-primas consideradas estratégicas para as transições energética e digital, como lítio, grafite e manganês, disponíveis nos países do Mercosul.
O tratado prevê ainda a eliminação de 91% das tarifas incidentes sobre produtos europeus, com uma economia estimada em 4 bilhões de euros para empresas da União Europeia.
O mercado abrangido pelo acordo reúne mais de 700 milhões de habitantes e responde por aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. O Mercosul reúne 269,1 milhões de habitantes e possui um PIB de aproximadamente US$ 3,07 trilhões.
Dentro do bloco, o Brasil responde por 79,1% da população; 73,5% do PIB e 72,3% das importações.
Ecossistema de inovação reforça potencial de parceria
A Catalunha abriga 2.285 startups, formando o quinto maior ecossistema de startups da União Europeia. Desse total, 340 são deeptech, segmento voltado ao desenvolvimento de tecnologias de alta complexidade, e 27,9% dessas empresas atuam com Inteligência Artificial.
A combinação entre a escala industrial brasileira, a elevada participação de energias renováveis e a especialização catalã em digitalização, eficiência energética e descarbonização reforça a perspectiva de ampliação da cooperação entre os dois mercados, tendo a transição energética como vetor de crescimento econômico, inovação e fortalecimento da indústria.











