Os mercados globais operam em tom de cautela nesta terça-feira (28), pressionados por uma nova rodada de liquidação das ações de tecnologia, especialmente das fabricantes de semicondutores. As preocupações com a elevada concentração do setor em poucas companhias e com o aumento do endividamento corporativo para financiar a expansão da infraestrutura de inteligência artificial (IA) continuam limitando o apetite dos investidores.
Apesar da fraqueza do segmento de chips, o sentimento negativo é parcialmente compensado pela queda dos preços do petróleo, pelo recuo dos rendimentos dos Treasuries e pela expectativa em torno de uma nova rodada de balanços corporativos, fatores que sustentam parte da demanda por ativos de risco.
Os preços do petróleo seguem em forte correção após a decisão dos Estados Unidos de suspenderem, no fim de semana, a campanha de bombardeios contra o Irã, reduzindo temporariamente os temores sobre interrupções no fornecimento global da commodity. Na segunda-feira (27), o Brent acumulou queda próxima de 8%, movimento que tem continuidade nesta terça-feira. Os contratos futuros da commodity recuam mais de 2,5%, sendo negociados em torno de US$ 86 por barril.
No campo geopolítico, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã entra em seu sexto mês sem perspectivas concretas de uma solução definitiva. A suspensão temporária dos bombardeios americanos abriu uma nova janela para negociações mediadas pelo Paquistão e pelo Catar, embora o presidente Donald Trump tenha deixado claro que uma retomada das operações militares permanece sobre a mesa caso as conversas fracassem.
Um dos principais obstáculos para um acordo permanece sendo o futuro do Estreito de Ormuz. O Irã voltou a defender o direito de administrar as rotas marítimas ao longo de sua costa, enquanto os Estados Unidos insistem na manutenção da livre navegação internacional sem cobrança de tarifas. Segundo a Reuters, Omã apresentou uma proposta que recebeu apoio dos países do Golfo para destravar as negociações. O plano prevê que Irã e Omã administrem conjuntamente o estreito, permitindo a cobrança apenas de taxas voluntárias de serviço dos navios.
O modelo seria semelhante ao adotado no Estreito de Malaca, entre Indonésia, Malásia e Singapura, onde embarcações fazem contribuições voluntárias destinadas ao financiamento da segurança da navegação, proteção ambiental e operações de busca e salvamento. Washington, porém, defende o retorno ao modelo vigente antes da guerra, quando os navios transitavam livremente, sem qualquer tipo de cobrança, argumentando que taxas obrigatórias violariam normas internacionais.
O mercado também acompanha o encontro entre o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente Donald Trump, previsto para esta terça-feira, na Casa Branca. Netanyahu defende a continuidade das operações militares contra o Irã e deverá apresentar informações de inteligência sobre o programa nuclear iraniano, incluindo avaliações sobre as condições do Monte Kulang, localizado nas proximidades da instalação nuclear de Natanz, além da capacidade do país de avançar em seu programa nuclear.
Brasil aciona os EUA na OMC contra tarifas
No cenário comercial, o governo brasileiro iniciou formalmente uma disputa contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC). O Itamaraty apresentou nesta segunda-feira um pedido de consultas no sistema de solução de controvérsias da organização para contestar duas tarifas adicionais impostas por Washington ao Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974: uma sobretaxa de 25%, aplicada especificamente ao Brasil, e outra de 12,5%, adotada em investigação envolvendo 60 economias.
A tarifa de 25% decorre de uma investigação sobre práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, legislação anticorrupção e proteção à propriedade intelectual. Já a sobretaxa de 12,5% foi aplicada após investigação sobre restrições à importação de produtos fabricados, total ou parcialmente, com utilização de trabalho forçado.
O processo também analisou questões ligadas ao acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e às políticas de combate ao desmatamento ilegal.
Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que considera as medidas “injustificadas e incompatíveis” com os compromissos assumidos pelos Estados Unidos no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT 1994) e das regras do sistema de solução de controvérsias da OMC.
Pelas normas da OMC, os Estados Unidos terão até dez dias para responder ao pedido e até 30 dias para iniciar as consultas. Caso não haja entendimento em até 60 dias, o Brasil poderá solicitar a instalação de um painel para julgar o caso.
Manchetes desta manhã
- Bradesco reformula área de renda fixa e volta a liderar ranking da Anbima após quase 10 anos (Valor)
- Brasil tem déficit em conta corrente de US$ 2,33 bi em junho, diz BC (Folha)
- IPCA-15: prévia da inflação volta a desacelerar em julho e fica em 0,06%, abaixo do esperado (Estadão)
- Limite de pagamento imposto pelo STF e juros sobre atrasados criam bola de neve bilionária (O Globo)
Mercado global
Os mercados da Ásia encerraram a sessão majoritariamente em queda, puxadas por Coreia do Sul e Japão, em meio a uma forte liquidação das ações de fabricantes de semicondutores. O Kospi despencou 10,84%, nível mais baixo desde meados de abril, acionando os mecanismos de sidecar e circuit breaker no início da sessão. O Nikkei perdeu 3,95%, patamar mais baixo desde 22/5.
O movimento foi impulsionado por preocupações com o ritmo dos investimentos em infraestrutura para IA e pela intensificação da concorrência da indústria chinesa de chips.
Na China e em Hong Kong, porém, as ações de tecnologia limitaram as perdas após notícias de avanços do país em litografia DUV por imersão, fortalecendo a expectativa de redução da dependência tecnológica em relação aos concorrentes estrangeiros.
As Bolsas da Europa operam em alta, impulsionadas por uma nova rodada de balanços corporativos, que compensam a fraqueza do setor de tecnologia.
A Unilever lidera os ganhos, com alta de 7,31% após elevar sua projeção para o ano e reportar crescimento das vendas no segundo trimestre. A Mercedes-Benz sobe 3,45%, refletindo um lucro operacional 22% maior que o esperado. Na contramão, a ASML recua 2,50%, pressionada pela liquidação global das ações de tecnologia.
Em Nova York, os índices futuros abriram mistos com a fraqueza das ações de fabricantes de semicondutores limitando o desempenho do mercado.
Confira os principais índices do mercado:
- S&P 500 Futuro: -0,10%
- FTSE 100: +0,58%
- CAC 40: +0,26%
- Nikkei 225: -3,95%
- Shanghai SE Comp: -1,16%
- Hang Seng: +0,41%
- Ouro (jun): -1,07%, a US$ por 4.033,45 por onça troy
- Índice do dólar (DXY): +0,05%, aos 101,58 pontos
- Bitcoin: -2,46% a US$ 63.469,9
Commodities
- Petróleo: os contratos futuros mantêm a trajetória de queda, estendendo as perdas da sessão anterior após a pausa nos ataques entre EUA e Irã. Apesar do alívio, investidores seguem cautelosos diante da incerteza sobre o conflito.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que as negociações continuam e disse haver uma “boa chance” de acordo, mas alertou que as ofensivas podem ser retomadas caso as conversas fracassem. O tema deve ganhar novos desdobramentos com o encontro de Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, ainda hoje.
O Brent/setembro cai 2,25%, cotado a US$ 86,37, enquanto o WTI/setembro recua 1,85%, a US$ 81,08. - Minério de ferro: fechou em queda de 0,20% em Dalian, na China, cotado a US$ 109,42 a tonelada.
Cenário internacional
Nos Estados Unidos, o principal destaque é a divulgação do Índice de Confiança do Consumidor de julho, medido pelo Conference Board, às 11h. A expectativa é de alta para 92,2 pontos, ante 91,2 registrados em junho. O indicador ganha importância por ser um dos últimos termômetros da economia americana antes da decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed), ajudando a calibrar as expectativas para os próximos passos da autoridade monetária.
Apesar da expectativa majoritária de manutenção dos juros na reunião desta quarta-feira (29), o mercado continua apostando em um novo aperto monetário em setembro. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, mais de 80% dos investidores projetam uma alta na próxima reunião: 55,7% esperam elevação de 25 pontos-base, enquanto 25,8% apostam em um ajuste de 50 pontos-base. Apenas 18,5% veem possibilidade de manutenção dos juros.
Para Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury, o Fed deverá, no mínimo, manter aberta a possibilidade de elevar os juros em setembro, mesmo que preserve a taxa atual nesta quarta-feira.
No noticiário corporativo, a temporada de resultados do segundo trimestre continua movimentando os mercados. Antes da abertura de Wall Street, divulgam seus números Boeing e Coca-Cola. No Reino Unido, os investidores acompanham os balanços de Barclays e Rio Tinto. Após o fechamento dos mercados americanos, será a vez de Visa e Ford apresentarem seus resultados.
No cenário político americano, o governo Trump recorreu à Suprema Corte para tentar restabelecer, em todo o território nacional, um decreto que endurece as regras para o voto por correspondência, a poucos meses das eleições legislativas de novembro, que definirão o controle do Congresso.
O Departamento de Justiça pediu que a Corte suspenda a decisão que impede a aplicação da medida em 23 Estados — a maioria governada por democratas — além de Washington. Os governos locais argumentam que o decreto é inconstitucional e contestam sua validade enquanto o processo segue em tramitação.
IPCA-15 surpreende e reforça cenário de desaceleração da inflação
No Brasil, o principal destaque da agenda é a divulgação do IPCA-15 de julho, que avançou apenas 0,06%, abaixo das projeções do mercado, que variavam entre 0,17% e 0,21%. Em junho, o indicador havia registrado alta de 0,41%.
Na comparação anual, a inflação desacelerou para 4,52%, após marcar 4,80% no mês anterior, também abaixo do consenso de 4,67%. O resultado reforça a percepção de perda de força da inflação e será acompanhado de perto pelos investidores na avaliação dos próximos passos da política monetária.
No cenário corporativo, a Petrobras divulgará, após o fechamento dos mercados, seu Relatório de Produção e Vendas referente ao segundo trimestre de 2026, documento que poderá trazer sinais sobre o desempenho operacional da companhia antes da divulgação do balanço financeiro.
No front comercial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, após reunião com o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, nesta segunda-feira, um acordo para o envio de uma missão sanitária sul-coreana ao Brasil. A iniciativa poderá abrir o mercado do país asiático para frigoríficos brasileiros, ampliando as oportunidades de exportação do setor de proteínas.
O Banco Central informou que iniciará, a partir de 5 de agosto, os leilões para rolagem dos contratos de swap cambial com vencimento em 1º de setembro de 2026.
A autoridade monetária destacou que a quantidade de contratos ofertados poderá ser ajustada diariamente, conforme as condições de mercado, e que o volume efetivamente aceito poderá ser inferior ao inicialmente ofertado, de acordo com a demanda dos participantes.
Destaques do mercado corporativo
- Banco do Brasil: Fitch reafirmou o rating BBB das operações de fluxo futuro em dólares, mantendo perspectiva estável.
- Natura: S&P manteve o rating brAAA, mas revisou a perspectiva para negativa devido aos desafios de integração com a Avon e à execução do plano de transformação.
- Hapvida: lançará em agosto a marca NotreDame Saúde, voltada ao segmento premium de planos de saúde.
- WEG: Citi reiterou recomendação neutra e preço-alvo de R$ 49, destacando demanda resiliente e menor exposição às tarifas americanas.
- Grupo Toky: aprovou grupamento de ações na proporção de 20 para 1 para adequação às regras de listagem da B3.
- Tupy: contratou R$ 600 milhões em financiamentos com o BNDES para reforçar a estrutura de capital e financiar seu plano de crescimento.











