A cadeia brasileira de proteínas animais deve manter o ciclo de expansão nos próximos dois anos, impulsionada pelo avanço da produção, das exportações e do consumo interno, segundo projeções divulgadas pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) nesta terça-feira (28).
A produção de carne de frango deve superar 15 milhões de toneladas neste ano, enquanto a de carne suína deve chegar a cerca de 5,6 milhões de toneladas e a produção de ovos ficar em torno de 64,8 bilhões de unidades.
As estimativas também apontam crescimento das exportações de frango e de carne suína, consolidando um cenário de expansão para o setor em meio à reconfiguração do mercado global de proteínas.
Enquanto concorrentes enfrentam desaceleração das exportações, recuperação de rebanhos após crises sanitárias e novos surtos de influenza aviária e Peste Suína Africana (PSA), a produção brasileira segue em trajetória de crescimento, sustentando tanto o avanço das exportações quanto o abastecimento do mercado doméstico. Por outro lado, o consumo brasileiro é impactado pelo endividamento das famílias e segue influenciando na busca por proteínas de valor mais acessível.
Segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA, o dólar mais estável ajuda o mercado brasileiro na questão da competitividade, especialmente em se tratando do maior exportador de carne de frango do mundo e o terceiro maior de carne suína.
“Apesar da queda de 32 mil toneladas nas exportações para a China e da presença das Filipinas, temos uma estratificação das exportações, que mantêm o Brasil bem posicionado e, por isso, conquistou a posição de terceiro maior exportador mundial no ano passado e vai se manter como o terceiro maior exportador, ainda que em um ambiente desafiador.”
“A gente já exporta mais do que há 50 anos atrás, quando éramos importadores de carne suína, e hoje nós somos o terceiro maior exportador. Em 2008 produzíamos três milhões de toneladas, hoje dobramos a produção”, complementa.
Carne de frango segue à frente da exportação de proteínas
Entre as proteínas analisadas pela ABPA, a carne de frango continua concentrando as maiores projeções de crescimento das vendas externas. A produção brasileira deverá passar de 15,28 milhões de toneladas em 2025 para um intervalo entre 16 milhões e 16,15 milhões de toneladas em 2026, alta de até 5,6%, podendo alcançar até 16,6 milhões de toneladas em 2027.
As exportações devem avançar para até 5,875 milhões de toneladas este ano, ante os 5,324 milhões de toneladas registrados em 2025, reportando um crescimento de até 10,3%. Já em 2027, os embarques podem atingir 6,05 milhões de toneladas, com alta adicional de até 3%.
Mercado doméstico
O crescimento da produção também deverá ampliar a oferta destinada ao mercado brasileiro. A disponibilidade interna tende a subir de 9,96 milhões de toneladas em 2025 para aproximadamente 10,275 milhões de toneladas este ano e alcançar 10,55 milhões de toneladas em 2027.
Como consequência, o consumo per capita de carne de frango deverá passar de 46,7 quilos por habitante para até 48,1 quilos em 2026 e atingir 49,4 quilos em 2027.
Os dados mensais apresentados pela entidade mostram que a produção nacional permaneceu acima de 1,2 milhão de toneladas durante praticamente todo o período analisado. Entre janeiro e junho de 2026, os volumes mensais oscilaram entre 1,252 milhão e 1,409 milhão de toneladas. Já a média mensal das exportações alcançou 850 mil toneladas.
Crise sanitária
A ABPA revela ainda, além do cenário de reorganização global, que a influenza aviária permaneceu disseminada entre janeiro e julho de 2026, período em que foram registrados 3.609 casos em 67 países.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), os registros incluem aves silvestres, de subsistência e comerciais. Os maiores números ocorreram na Alemanha (1.428 casos), seguida por Polônia (359), Holanda (154), Estados Unidos (152), Japão (116), Coreia do Sul (50), Chile (39) e Peru (26).
Na Espanha, novas ocorrências próximas a Barcelona levaram à ampliação das zonas infectadas pela doença, enquanto a Austrália confirmou o segundo caso de influenza aviária no continente e reforçou as medidas de contenção.
Mesmo com o crescimento dos embarques internacionais, a oferta destinada ao mercado doméstico permaneceu elevada. A disponibilidade mensal para consumo interno variou entre 785 mil e 885 mil toneladas, indicando, segundo a ABPA, equilíbrio entre o atendimento da demanda brasileira e a expansão das exportações.
Tailândia perde ritmo na exportação de frango
A ABPA também comparou o desempenho brasileiro com o da Tailândia, um dos principais concorrentes do Brasil no mercado internacional de carne de frango.
Enquanto o Brasil projeta forte expansão das exportações em 2026, a Tailândia embarcou 501.950 toneladas entre janeiro e maio, queda de 6,6% frente às 537.621 toneladas registradas na comparação anual.
Entre os destinos que ampliaram compras de carne de frango tailandesa estão Japão (+3%), Malásia (+11%), Filipinas (+47%), Laos (+92%), Coreia do Sul (+7%) e África do Sul (+247%).
Por outro lado, houve retração nas exportações para China (-61%), Reino Unido (-6%), União Europeia (-1%), Emirados Árabes Unidos (-53%), Macedônia (-61%), Albânia (-45%), Catar (-52%), Kuwait (-91%) e Camboja (-97%).
Carne suína mantém trajetória de expansão
As projeções para a suinocultura também indicam crescimento nos próximos anos. A produção brasileira deverá passar de 5,59 milhões de toneladas em 2025 para até 5,87 milhões de toneladas em 2026, alcançando até 6,05 milhões de toneladas em 2027. O avanço estimado pela associação é de até 5% em 2026 e de até 3,1% no ano seguinte.
As exportações deverão crescer de 1,51 milhão de toneladas para até 1,6 milhão de toneladas este ano e alcançar até 1,7 milhão de toneladas em 2027, representando altas de até 5,9% e 6,3%, respectivamente.
No mercado interno, a disponibilidade poderá avançar de 4,08 milhões para cerca de 4,27 milhões de toneladas em 2026 e atingir 4,35 milhões de toneladas em 2027. Nesse cenário, o consumo per capita deverá subir de 19,1 quilos por habitante em 2025 para 20 quilos em 2026 e 20,4 quilos em 2027.
Segundo Santini, na suinocultura há mais peso de carcaça, levando a produção a um crescimento em torno de 5% neste ano, puxado pelos mercados externos. Já a exportação deve atingir em 2026 algo em torno de 1.600 toneladas.
Peste suína segue alterando o comércio global
Além da influenza aviária, a entidade destaca o avanço da Peste Suína Africana (PSA). Entre os exemplos citados estão a suspensão das exportações de aves pelo Chile após um caso de gripe aviária e o aumento das importações chilenas de ovos brasileiros. Essa demanda elevou em 19% os embarques brasileiros de ovos em junho, mantendo o Chile como principal comprador pelo quinto mês consecutivo.
A ABPA também cita a confirmação oficial de Peste Suína Africana em javalis no distrito de Uckermark, na Alemanha, onde o último caso registrado no estado de Brandemburgo havia ocorrido em 14 de maio de 2025. Já na Polônia, foi identificado o primeiro foco da doença em suínos em 2026, em uma granja com 21.390 animais.
Segundo a entidade, a continuidade de surtos sanitários tem provocado restrições comerciais, suspensão de exportações e alterações nos fluxos globais de proteínas, fatores que seguem redesenhando o mercado internacional e abrindo espaço para maior participação brasileira em diferentes mercados.
Exportação de carne suína cresce em volume e faturamento
De acordo com a ABPA, o Brasil embarcou 794 mil toneladas de carne suína entre janeiro e junho deste ano, aumento de 10% em relação às 722 mil toneladas exportadas no mesmo período do ano anterior.
Em receita, as vendas externas alcançaram US$ 1,85 bilhão no primeiro semestre, avanço de 7,9% frente aos US$ 1,723 bilhão registrados entre janeiro e junho de 2025.
As Filipinas consolidaram-se como principal destino da carne suína brasileira, respondendo por 27% do volume embarcado. Na comparação com o primeiro semestre de 2025, os embarques para as Filipinas cresceram 32,4%, passando de 161.662 para 214.038 toneladas.
Santini destaca que o país tem 20,7% do mercado brasileiro de exportação suína e continua como o maior destino de exportação. “Antes do episódio da PSA, em 2019, as Filipinas produziam 1,5 milhão de toneladas e têm mantido sua produção local em 1 milhão de toneladas, tendo uma complementaridade de Brasil e demais exportadores, no patamar de 700 a 790, que é a projeção para 2026”, explica.
Na sequência aparecem Japão (12%), China (8%), Chile (8%), Hong Kong (6%), Singapura (4%), Argentina (4%), México (4%), Uruguai (3%), Vietnã (3%) e outros mercados, que juntos representam 21% das exportações.
O Japão registrou a maior expansão entre os principais compradores, com alta de 66,9%, de 55.338 para 92.334 toneladas. Também cresceram as vendas para Chile (+9,2%), Argentina (+3,4%), Uruguai (+2,6%) e outros mercados (+26,9%).
Em contrapartida, houve redução das exportações para China (-32,3%), Hong Kong (-20,5%), Singapura (-27,9%), México (-5,8%) e Vietnã (-2,4%).
Produção de ovos cresce, mas exportações recuam após forte alta
A produção brasileira de ovos deverá aumentar de 62,25 bilhões de unidades em 2025 para 64,8 bilhões em 2026 e atingir 66,5 bilhões em 2027. A expansão prevista é de 4,1% em 2026 e de 2,6% no ano seguinte.
Após o forte crescimento registrado em 2025, as exportações deverão recuar de 40.894 toneladas para 30 mil toneladas em 2026, redução de 26,6%. A expectativa da entidade é de retomada em 2027, quando os embarques poderão atingir 34,5 mil toneladas, crescimento de 15% sobre 2026.
No mercado interno, o consumo continuará avançando. A média por habitante deverá passar de 288 ovos em 2025 para 301 unidades em 2026 e chegar a 312 unidades em 2027.
China reduz importações após recuperar produção
A produção chinesa de carne suína praticamente retornou aos níveis registrados antes do surto de Peste Suína Africana (PSA), cujo primeiro caso foi confirmado no país em agosto de 2018.
A produção caiu de 54,04 milhões de toneladas em 2018 para 36,34 milhões em 2020, durante o auge da crise sanitária. Posteriormente, iniciou processo de recuperação, alcançando 47,5 milhões de toneladas em 2021, 58,38 milhões em 2025 e estimativa de 58,5 milhões de toneladas em 2026.
Em sentido oposto, as importações chinesas seguiram trajetória de queda após atingirem o pico de 5,27 milhões de toneladas em 2020. A série histórica apresentada pela entidade mostra importações de 1,18 milhão em 2025 e projeção de apenas 1 milhão de toneladas em 2026.
Segundo a ABPA, a recomposição do rebanho chinês explica a redução gradual da dependência de importações e ajuda a entender a menor participação da China entre os principais destinos da carne suína brasileira. Ao mesmo tempo, o Brasil ampliou sua presença em mercados como Filipinas, Japão e outros países do Sudeste Asiático.
Segundo Santin, apesar de ter uma grande produção, a China continua comprando 1.200 toneladas de importação nesse ano, e o reconhecimento do Brasil “livre de febre aftosa sem vacinação” possibilita a venda para outros estados que já deram início ao processo de habilitação para exportar aos chineses, além de Santa Catarina, e também, no futuro, a possibilidade de venda de “miúdos”, que fortalece a posição brasileira na disputa do mercado.
A China, segundo Santin, segue com uma produção bastante elevada, mas não deixará de comprar os “miúdos”, que são a complementaridade dos países satélites, considerando que a China consome mais miúdos de suínos do que a própria produção local consegue produzir.
Ele pontua ainda que, antes da PSA (Peste Suína Africana), a China importava em média 1,5 milhão de toneladas, principalmente miúdos suínos. Enquanto em 2025 importou 1,18 milhão.
Estados Unidos ampliam embarques, mas seguem abaixo do histórico
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), apresentados pela ABPA, mostram que os norte-americanos exportaram 1,028 milhão de toneladas de carne suína entre janeiro e abril de 2026, aumento de 4,2% sobre as 986,9 mil toneladas registradas no mesmo intervalo de 2025.
Apesar da recuperação, o desempenho acumulado entre janeiro e maio permanece aproximadamente 10% abaixo dos volumes históricos.
Entre os principais mercados, cresceram as exportações para México (405.288 toneladas, +5%), Japão (123.396 toneladas, +16%), República Dominicana (42.832 toneladas, +34%), Canadá (66.888 toneladas, +14%), Filipinas (20.808 toneladas, +21%), Panamá (7.874 toneladas, +70%), Costa Rica (9.946 toneladas, +20%), Taiwan (4.513 toneladas, +53%) e Nicarágua (7.338 toneladas, +14%).
Já houve retração nas vendas para China (-2%), Chile (-15%), Coreia do Sul (-1%), Vietnã (-56%), Guatemala (-5%), Nova Zelândia (-33%), Cuba (-34%), Reino Unido (-88%), Colômbia (-11%) e Austrália (-24%).











