Os mercados globais operam em tom misto nesta quinta-feira (20), com os investidores dividindo a atenção entre a recuperação dos Treasuries de longo prazo e a escalada das tensões no Oriente Médio. O movimento dos títulos americanos perdeu força após a intervenção do Tesouro dos Estados Unidos, que pode aliviar temporariamente as condições de liquidez no mercado de dívida de longo prazo. Ainda assim, permanece a cautela quanto à capacidade das pressões fiscais de manter elevados os prêmios exigidos pelos investidores.
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A melhora no mercado de Treasuries ocorre em um momento de crescente preocupação com a trajetória das contas públicas americanas. O Departamento do Tesouro informou que a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou, pela primeira vez, US$ 40 trilhões, reforçando a discussão sobre o custo do financiamento do governo e a sustentabilidade fiscal do país.
O desempenho dos mercados, porém, é limitado pelo agravamento da crise no Oriente Médio. Na quarta-feira (19), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a possibilidade de adotar medidas econômicas “sem precedentes” contra o Irã, em uma tentativa de pressionar Teerã a fechar um acordo que permita a reabertura do Estreito de Ormuz.
A nova ameaça amplia o risco de escalada do conflito e aumenta a preocupação dos mercados com possíveis interrupções no fornecimento da commodity. O petróleo já acumula a quinta sessão consecutiva de alta, refletindo justamente o temor de novos impactos sobre o fluxo de energia pelo Estreito.
Trump também elevou o tom contra países que contribuírem para sustentar a economia iraniana. Em uma publicação na rede Truth Social, o presidente americano afirmou que qualquer país cujas instituições financeiras, empresas, aeroportos ou órgãos governamentais ofereçam algum tipo de apoio considerado vital ao Irã poderá sofrer “consequências econômicas tremendas”.
A reação de Teerã veio nesta quinta-feira. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que as declarações feitas por Trump na noite anterior representam uma tentativa de desviar a atenção da população americana dos problemas financeiros internos dos Estados Unidos, citando entre eles a dívida em nível recorde e os juros elevados.

Araqchi acrescentou que a insistência em políticas que considera fracassadas tende a produzir novas derrotas e ampliar a hostilidade dos iranianos. O chanceler também classificou a política de pressão econômica dos Estados Unidos como uma ameaça à economia global e à soberania nacional de países ao redor do mundo.
A ofensiva anunciada por Washington se soma a quase cinco décadas de sanções contra Teerã. O regime teocrático iraniano está submetido a duras restrições econômicas desde a Revolução Islâmica de 1979, período em que os Estados Unidos ampliaram sucessivamente a pressão sobre o país.
Brasil: Despesas previdenciárias avançam e pressionam contas públicas
No Brasil, a situação fiscal também prende atenção dos mercados. O governo estima que as despesas obrigatórias com benefícios previdenciários crescerão 7,7% em 2027, segundo projeções que serão incorporadas ao Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), a ser encaminhado pela equipe econômica ao Congresso Nacional no dia 31 de agosto.
Pelos cálculos enviados ao Ministério do Planejamento e Orçamento, a despesa total deverá avançar de R$ 1,135 trilhão projetados para este ano, conforme o último Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas, para R$ 1,223 trilhão em 2027.
O montante contempla os pagamentos de benefícios previdenciários, o Comprev — mecanismo de compensação financeira entre o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e os regimes próprios de Previdência — e os benefícios concedidos por meio de decisões judiciais. Quando considerados apenas os benefícios previdenciários, excluindo Comprev e sentenças, a alta estimada é ainda maior, de 8,6%.
Dois fatores explicam principalmente o avanço projetado. O primeiro é o reajuste do salário mínimo em ritmo superior à inflação, já que o piso nacional serve como referência para a correção dos benefícios previdenciários equivalentes ao mínimo, que representam mais da metade da despesa previdenciária. O segundo é a expectativa de aumento no número de segurados.
As estimativas foram encaminhadas ao Ministério do Planejamento e Orçamento e deverão integrar o PLOA de 2027. Com isso, a evolução das despesas previdenciárias se soma às preocupações fiscais domésticas, enquanto, no exterior, o mercado acompanha os efeitos da dívida americana e o comportamento dos Treasuries.
Manchetes desta manhã
- Carf afasta PIS e Cofins sobre bonificações ao varejo (Valor)
- Investigadores aceitam reabrir negociação com Vorcaro, mas cobram delação completa e bens no exterior (Folha)
- Dívida dos EUA atinge US$ 40 trilhões enquanto a onda de endividamento do país continua (Estadão)
- Saída de estrangeiro da Bolsa já chega a R$ 18 bi em agosto, no pior mês desde a pandemia (O Globo)
Mercado global tem desempenho limitado após Trump ameaçar Irã com sanções econômicas
Em Nova York, os índices futuros operam próximos da estabilidade, enquanto a recuperação dos Treasuries de longo prazo perde força. Em meio a esse movimento, os investidores aguardam novos catalisadores que possam indicar a direção dos mercados.
As bolsas da Europa operam majoritariamente em queda, pressionadas pelo avanço do petróleo e pela escalada das tensões no Oriente Médio, após Trump anunciar medidas econômicas “sem precedentes” contra o Irã.
Já na Ásia, os mercados fecharam em alta, impulsionados pelo alívio na pressão sobre os rendimentos globais e pela recuperação das ações de semicondutores. A Coreia do Sul liderou os ganhos, com o Kospi avançando 5,89%.
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Confira os principais índices do mercado:
- S&P 500 Futuro: -0,01%
- FTSE 100: -0,18%
- CAC 40: -0,27%
- Nikkei 225: +1,36%
- Shanghai SE Comp: +0,24%
- Hang Seng: +0,80%
- Ouro (jun): -0,55%, a US$ por 4.520,14 por onça troy
- Índice do dólar (DXY): -0,04%, aos 98,75 pontos
- Bitcoin: +10,64% a US$ 71.773,8
Commodities
- Petróleo: os contratos futuros avançam mais de 2%, na quinta sessão consecutiva de alta, com o Brent chegando a US$ 93,81, em meio ao agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irã. O movimento ganhou força após Donald Trump anunciar medidas para ampliar o isolamento econômico de Teerã e ameaçar punir países que contribuam para manter a economia iraniana.
Analistas avaliam que as novas sanções podem atingir o comércio de petróleo entre Irã e China, principal comprador do produto iraniano, elevando o prêmio de risco sobre a commodity.
O Brent/outubro sobe 2,62%, cotado a US$ 94,02, enquanto o WTI/outubro avança 2,99%, a US$ 86,91. - Minério de ferro: fechou em queda de 1,19% em Dalian, na China, cotado a US$ 105,15/ton.
Cenário internacional
A agenda econômica desta quinta-feira tem poucos indicadores e concentra os principais eventos no cenário internacional. Nos Estados Unidos, o destaque fica para o índice de atividade industrial do Federal Reserve (Fed) da Filadélfia, referente a agosto, que será divulgado ao longo da manhã. Também nos EUA, serão conhecidos os novos pedidos semanais de auxílio-desemprego. A expectativa de economistas consultados pela Dow Jones é de 210 mil solicitações.
No campo fiscal, a dívida bruta dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões na quarta-feira. O novo recorde ocorre em meio à preocupação com a trajetória das contas públicas após décadas de expansão do endividamento para financiar despesas militares, programas sociais e cortes de impostos promovidos pelo governo de Donald Trump.
Somente em 2026, os Estados Unidos devem tomar mais de US$ 2 trilhões em novos empréstimos para cumprir suas obrigações, incluindo despesas relacionadas à guerra no Irã e aos amplos cortes de impostos aprovados pelos republicanos em 2025. Ao mesmo tempo, o aumento dos juros pagos aos investidores que detêm títulos do governo já responde por cerca de metade do déficit americano.
Na China, o Banco Popular da China (PBoC) manteve inalteradas nesta quinta-feira as principais taxas de empréstimo, em linha com as expectativas do mercado. A taxa de juros de referência para empréstimos (LPR, na sigla em inglês) de 1 ano ficou em 3% ao ano, enquanto a de 5 anos permaneceu em 3,5% ao ano; no mesmo nível desde maio de 2025.
Brasil – Bolsa perde capital estrangeiro em meio à pressão fiscal
No Brasil, a agenda econômica começou com a reunião mensal do Conselho Monetário Nacional (CMN), seguida por uma entrevista do ministro da Fazenda, Dario Durigan, à rádio CBN. As declarações do ministro serão acompanhadas em meio ao debate sobre a trajetória das contas públicas e as perspectivas para a economia brasileira.
Às 11h30, o Tesouro Nacional realiza leilão de NTN-F (Notas do Tesouro Nacional – Série F) e LTN (Letras do Tesouro Nacional). O resultado será observado pelo mercado como um indicador da demanda por títulos públicos em um ambiente de juros elevados e maior atenção dos investidores à situação fiscal brasileira.
O fluxo de capital estrangeiro também chama atenção. Em apenas duas semanas de agosto, investidores internacionais retiraram R$ 18,1 bilhões da Bolsa brasileira, configurando a maior saída em seis anos, desde março de 2020, quando o início da pandemia de Covid-19 provocou forte aversão ao risco nos mercados globais.
A saída contrasta com o desempenho registrado no primeiro semestre, quando o mercado brasileiro havia atraído volumes relevantes de capital externo. Somente em janeiro, o fluxo estrangeiro chegou a superar todo o saldo acumulado ao longo de 2025.
Segundo especialistas, o movimento recente estaria relacionado tanto à estratégia de reduzir a exposição à volatilidade associada ao período eleitoral quanto à busca por retornos em mercados considerados mais atrativos, especialmente nos Estados Unidos e na Ásia, onde se concentram empresas ligadas ao setor de inteligência artificial (IA).
Com a retirada de recursos estrangeiros e o ambiente de maior cautela, o Ibovespa acumula queda de 5,71% em agosto até a quarta-feira (19), reforçando a pressão sobre os ativos brasileiros ao longo do mês.
Destaques do mercado corporativo
- Vale: avalia participar da disputa pelo Porto Sudeste sem desembolso direto, por meio de contrato “take-or-pay”; GIP/BlackRock e Gerdau também integram a proposta.
- Banco do Brasil: pagará R$ 196,9 milhões em JCP, equivalente a R$ 0,0345 por ação, em 11 de setembro; papéis ficam ex-JCP em 2 de setembro.
- Santander Brasil: emitiu R$ 600,3 milhões em letras financeiras subordinadas, com prazo de dez anos, para reforçar o capital de Nível II.
- BRB: Tribunal de Contas pediu esclarecimentos ao governo do DF sobre eventual ordem para adiar a divulgação do balanço.
- Braskem: Justiça dos EUA marcou para 24 de setembro audiência sobre o plano de recuperação da Braskem Idesa, que prevê redução de US$ 920 milhões de uma dívida de US$ 2,4 bilhões.
- Casas Bahia: obteve proteção contra vencimento antecipado de contratos após o pedido de recuperação judicial; a Justiça fará perícia antes de decidir sobre o processamento da recuperação.
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