A baixa produtividade tem sido um dos principais obstáculos para o crescimento sustentado da renda per capita no Brasil e ajuda a explicar por que o país não conseguiu manter o ritmo de expansão observado em períodos anteriores. A avaliação é do economista e pesquisador da FGV Ibre, Fernando Holanda Barbosa Filho.
Em entrevista ao Canal Um Brasil, iniciativa da FecomercioSP, Barbosa Filho destaca que o Brasil enfrenta há décadas dificuldades para sustentar uma trajetória contínua de aumento da produtividade. Segundo ele, desde a chamada “década perdida”, nos anos 1980, houve apenas um período de expansão mais acelerada da produtividade, na segunda metade do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, o crescimento anual do indicador permanece abaixo de 1% ao ano.
A importância do indicador está justamente em sua relação com a renda. No longo prazo, é o avanço da produtividade que permite elevar a renda por habitante. Quando esse ganho é baixo, a capacidade de crescimento da economia também fica limitada.
Para o economista, é esse mecanismo que ajuda a explicar por que o Brasil, durante décadas associado à ideia de ser uma “economia do futuro”, não conseguiu transformar essa expectativa em uma expansão sustentada da renda.
O Monitor do Mercado teve acesso exclusivo à entrevista e traz, em primeira mão, a análise do especialista sobre a produtividade brasileira.
Serviços concentram empregos, mas têm menor produtividade
O problema ganha dimensão maior no setor de serviços porque essa área concentra grande parcela do emprego e, ao mesmo tempo, apresenta produtividade inferior à da indústria e da agropecuária.
A economia pode crescer e os serviços acompanharem esse movimento. Da mesma forma, quando o crescimento é fraco, o setor também perde ritmo. Um avanço expressivo da agropecuária, por si só, não garante uma expansão elevada do PIB se o setor de serviços, que possui peso maior no emprego, permanecer estagnado.
Segundo Barbosa Filho, a baixa produtividade dos serviços se transforma em um problema de longo prazo para toda a economia.
O nível de produtividade brasileiro também permanece baixo quando comparado ao de outros países nos três grandes segmentos: serviços, indústria e agropecuária. A diferença entre os setores está relacionada, entre outros fatores, à quantidade de capital empregada por trabalhador.
Na indústria, historicamente, a produtividade por trabalhador tende a ser maior porque existe mais capital físico envolvido no processo produtivo. O economista usa como exemplo a Petrobras: um funcionário envolvido na extração de petróleo trabalha em uma estrutura como uma plataforma, que concentra grande volume de equipamentos e recursos.
O mesmo raciocínio vale para uma refinaria. Quanto maior a quantidade de capital utilizada por trabalhador, maior tende a ser o valor produzido por cada pessoa.
Na agropecuária moderna, a mecanização também elevou a quantidade de capital empregado. Já os serviços são, em muitos casos, mais dependentes do chamado capital humano, isto é, das habilidades, conhecimentos e capacidades dos trabalhadores. Embora o capital humano também seja importante para a indústria e para o campo, muitas atividades de serviços são diretamente prestadas por uma pessoa e possuem menor quantidade de capital físico incorporado.
Serviços modernos ainda estão atrás dos países desenvolvidos
O setor de serviços, contudo, não é homogêneo. Barbosa Filho divide as atividades entre serviços tradicionais e modernos. No primeiro grupo estão segmentos como alojamento e alimentação. No segundo, aparecem atividades como desenvolvimento de software e serviços ligados às novas tecnologias.
A produtividade dos serviços modernos costuma ser superior à dos tradicionais em diferentes economias. No Brasil, porém, mesmo esse segmento mais avançado apresenta uma defasagem relevante.
Segundo o economista, a produtividade dos serviços modernos brasileiros equivale à produtividade dos serviços tradicionais da economia americana. O diagnóstico reforça a existência de um problema disseminado pela economia brasileira, que não está restrito a um único setor.
A inovação, nesse contexto, aparece como um dos elementos associados ao aumento da produtividade. Barbosa Filho ressalta, porém, que inovação e capital não devem ser tratados como conceitos idênticos.
Um novo investimento frequentemente incorpora tecnologia mais avançada. Quando uma empresa substitui um carro antigo por outro, por exemplo, não está apenas aumentando a quantidade de veículos disponíveis: o novo equipamento tende a ser mais econômico, durar mais e incorporar tecnologias que elevam sua capacidade produtiva, esclarece o especialista.
Debate sobre a escala 6×1 envolve custos de produtividade
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho aparece, nesse cenário, como um novo desafio para a produtividade. Barbosa Filho reconhece que existe uma demanda por mais tempo de lazer. À medida que a renda per capita aumenta, trabalhadores tendem a valorizar mais o tempo livre, inclusive para convívio familiar.
O Brasil já registra uma redução gradual da jornada média. Desde a década de 1980, ela vem caindo cerca de 0,3% a 0,4% ao ano. A jornada média, que anteriormente estava na faixa de 46 a 47 horas semanais, hoje se encontra em aproximadamente 38 ou 39 horas, dependendo do tipo de cálculo utilizado. Assim, a redução das horas trabalhadas já ocorre gradualmente na economia.
A proposta de mudança da escala 6×1 para 5×2, porém, estabelece uma alteração por meio de legislação. Para o economista, o problema não está em discutir ou aprovar a medida, caso exista maioria política para isso, mas em apresentar a mudança como se ela não tivesse custos.
Uma empresa que já opera com 40 horas semanais e concede cinco dias de trabalho e dois de descanso teria, segundo seus cálculos, um aumento de 9,1% na folha caso os dois dias de descanso passassem a ser remunerados dentro do novo modelo.
“Quando a gente fala que vai melhorar… não necessariamente: algumas pessoas serão substituídas. Tem esse aumento de uma empresa que, entre aspas [sic], já estava enquadrada, e você tem ainda o problema mais elevado, que é a empresa que realmente tinha 44 horas de jornada, quando passar por lei para 40 horas, vai ter um aumento de 20% da sua folha. O que, na minha opinião, vai gerar alguma mudança no comportamento”, finaliza.
Menos horas não significam automaticamente mais empregos
Barbosa Filho afirma que experiências de redução da jornada foram inicialmente justificadas pela expectativa de criação de empregos. A lógica era simples: se cada trabalhador passasse menos tempo trabalhando, as empresas precisariam contratar mais pessoas para compensar as horas perdidas.
Segundo os estudos citados por ele, porém, a redução da jornada não produz automaticamente mais emprego nem mais desemprego. Um dos efeitos observados é o aumento do custo por hora trabalhada. Ao mesmo tempo, a produtividade do trabalhador pode cair porque ele passa menos tempo trabalhando.
Também pode haver redução da renda mensal em determinados casos, mesmo quando a proposta preserva a remuneração média. Isso ocorre porque as empresas podem reagir ao aumento do custo substituindo trabalhadores mais caros por outros com salários menores.
A consequência pode ser aumento da rotatividade, ou seja, maior frequência de entrada e saída de trabalhadores dos postos de trabalho. Outra possibilidade é o trabalhador procurar uma segunda ocupação para preservar sua renda.
O especialista complementa ainda, que é de se esperar a perda de emprego em algum grau, considerando que alguns setores não terão como se adaptar.
Experiências internacionais mostram efeitos diferentes
O economista afirma que países que reduziram jornadas apresentaram diferentes formas de adaptação. Em alguns casos, empresas maiores, com maior capacidade de absorver custos, aumentaram contratações, enquanto trabalhadores migraram para companhias menores que ainda não haviam reduzido a jornada.
Outro mecanismo de ajuste é a substituição de trabalho por capital. Quando a mão de obra se torna mais cara, empresas podem investir em máquinas e tecnologia para reduzir a necessidade de trabalhadores. Isso pode elevar a produtividade dos empregados que permanecem, mas também significa operar com menos pessoas.
Há ainda uma diferença importante entre a jornada estabelecida em lei e a jornada efetivamente praticada. Em diversos países, a jornada real acabou ficando abaixo da jornada legal por meio de negociação coletiva.
Para Barbosa Filho, esse processo é diferente de uma mudança imposta de cima para baixo. Quando a redução é negociada, a empresa tende a fazê-la quando possui margem econômica para absorver o custo. Em muitos casos, os ganhos de produtividade obtidos ao longo do tempo são divididos entre aumento de salários e redução da jornada. Quando a produtividade não cresce, porém, a negociação se torna mais difícil.
Brasil perde em produtividade para outros países
O nível de produtividade brasileiro também permanece baixo quando comparado ao de outros países nos três grandes segmentos: serviços, indústria e agropecuária. A diferença entre os setores está relacionada, entre outros fatores, à quantidade de capital empregada por trabalhador.
Na indústria, historicamente, a produtividade por trabalhador tende a ser maior porque existe mais capital físico envolvido no processo produtivo. O economista usa como exemplo a Petrobras: um funcionário envolvido na extração de petróleo trabalha em uma estrutura como uma plataforma, que concentra grande volume de equipamentos e recursos.
O mesmo raciocínio vale para uma refinaria. Quanto maior a quantidade de capital utilizada por trabalhador, maior tende a ser o valor produzido por cada pessoa.
Na agropecuária moderna, a mecanização também elevou a quantidade de capital empregado. Já os serviços são, em muitos casos, mais dependentes do chamado capital humano, isto é, das habilidades, conhecimentos e capacidades dos trabalhadores.
Embora o capital humano também seja importante para a indústria e para o campo, muitas atividades de serviços são diretamente prestadas por uma pessoa e possuem menor quantidade de capital físico incorporado.
Brasil já conseguiu diminuir distância para os EUA
A trajetória brasileira entre 1950 e 1980 mostra que o país já foi capaz de reduzir a distância em relação às economias desenvolvidas.
Durante o período de crescimento conhecido como “milagre”, o Brasil conseguiu diminuir a diferença de produtividade e renda per capita em relação aos Estados Unidos. O país chegou a alcançar aproximadamente 30% da renda per capita americana.
“O Estado brasileiro tinha capacidade de investimento, porque tinha poupança. Do final da década de 80 para cá, disputa poupança com o setor privado financiando a sua dívida. Então, as condições mudaram e de lá para cá, na minha visão, é algo muito mais macroeconômico do que setor específico na economia”, explica.
Esse processo ocorre, segundo Barbosa Filho, porque economias de renda média podem observar e incorporar tecnologias e experiências desenvolvidas nos países que estão na fronteira tecnológica. Enquanto uma economia que lidera tecnologicamente precisa criar novas tecnologias, países que estão atrás podem acelerar sua produtividade ao reproduzir soluções que já funcionaram em outros lugares.
Foi esse movimento que, na avaliação do economista, ajudou o Brasil a reduzir sua distância em relação aos Estados Unidos durante o período de 1950 a 1980. A partir da década de 1980, porém, essa convergência perdeu força.
Infraestrutura e “custo Brasil” pressionam produtividade
A perda da capacidade de investimento público também teve reflexos sobre a infraestrutura. Barbosa Filho cita estradas, portos e logística como exemplos de gargalos que aumentam o chamado “Custo Brasil”, expressão usada para descrever os custos adicionais decorrentes de problemas estruturais e operacionais da economia.
Um produtor pode ser eficiente dentro da propriedade, mas perder parte dessa eficiência quando precisa transportar sua produção por uma estrada em condições inadequadas, utilizar caminhões em vez de ferrovias e, posteriormente, enfrentar dificuldades no porto.
A demora para desembaraçar cargas, as limitações dos portos e o tempo de espera dos navios são, na avaliação do economista, exemplos de infraestrutura que não acompanhou as necessidades de determinadas atividades econômicas. O resultado é uma perda de produtividade.
A participação do setor privado na infraestrutura também encontra limitações quando não há estabilidade suficiente para investimentos de retorno muito longo. “Eu não vou fazer um investimento que o retorno é de 20, 30 anos se eu não sei se o país vai estar quebrado amanhã porque o fiscal está desarrumado”, afirmou.
Fiscal dificulta reformas de longo prazo
A questão fiscal aparece, nesse contexto, como um dos obstáculos à construção de uma agenda de produtividade. O especialista argumenta que medidas de ajuste podem gerar custos imediatos, enquanto seus benefícios são percebidos apenas depois de muitos anos. “Porque o custo é imediato, o benefício é de longo prazo.”
Esse descompasso cria um problema para a política pública. Governos submetidos ao horizonte eleitoral podem ter pouco incentivo para adotar medidas cujos resultados aparecerão apenas depois de quatro, dez ou 20 anos. Nesse caso, os benefícios podem ser colhidos por um sucessor que nem sequer pertença ao mesmo grupo político.
O economista também aponta a atuação de interesses setoriais como parte do problema. Empresas podem reconhecer que reformas estruturais melhorariam o ambiente econômico no longo prazo, mas, diante de dificuldades imediatas, tendem a buscar soluções para seus próprios problemas.
Barbosa Filho descreve esse comportamento como uma “política do puxadinho”: em vez de construir uma estratégia integrada para o país, são feitas adaptações pontuais para resolver problemas específicos.
A consequência, segundo ele, é a ausência de um projeto de longo prazo que estabeleça onde o país pretende chegar em 10, 20 ou 30 anos.
Hoje, segundo Barbosa Filho, nem mesmo a política fiscal possui uma trajetória suficientemente estável. A cada mudança de governo, novas regras podem ser criadas para acomodar prioridades políticas e eleitorais, em vez de solucionar os desequilíbrios estruturais. Essa falta de continuidade dificulta a construção de um ambiente que estimule investimentos de longo prazo.
“A gente não consegue se organizar para desenhar um programa de país que vai crescer naquela direção nos próximos 10, 20 ou 30 anos, e a gente tem uma meta traçada, porque basicamente, hoje em dia, não tem uma meta do que a gente quer para amanhã”, finaliza.
Produtividade será decisiva diante da inteligência artificial
A discussão sobre jornada ocorre em um momento de transformação tecnológica que adiciona outro grau de incerteza ao mercado de trabalho. A inteligência artificial pode gerar ganhos de produtividade, mas ainda não é possível determinar com precisão qual será a dimensão desse efeito.
Segundo o especialista, algo que afeta a produtividade é não ter empresas em uma escala ótima. “Você ter muitas empresas pequenininhas, tem alguma escala em que você ganha produtividade. Se você tem algum estímulo legal ou de organização do país, que incentive a ter muitas empresas de pequeno porte, você acaba tendo empresas relativamente menos produtivas.”
“Ou quando você não tem um ambiente de negócios adequado, cria muita burocracia e a empresa, grande parte do tempo, em vez de produzir, cumpre com regra legal. Ou você não tem o capital humano necessário para adotar uma nova tecnologia. Posso ter uma tecnologia que está disponível e eu posso não ter o recurso para absorvê-la”, conclui.
Para Barbosa Filho, justamente por isso o país precisará preservar capacidade de adaptação. A economia terá de lidar simultaneamente com mudanças tecnológicas, alterações na organização das empresas, qualificação da mão de obra e possíveis transformações nas relações de trabalho.
Nesse contexto, elevar a produtividade não depende apenas de fazer o trabalhador produzir mais em menos tempo. Exige melhorar tecnologia, capital humano, infraestrutura, acesso a crédito, ambiente de negócios, escala empresarial e capacidade de investimento.
O desafio brasileiro, portanto, é construir condições para que esses fatores avancem conjuntamente. O economista não descarta a possibilidade de mudanças nas relações de trabalho, mas ressalta que elas precisam considerar os custos e a capacidade de adaptação das empresas.
“A gente não tem a certeza do impacto, mas uma coisa que precisa para o futuro é flexibilidade para se adaptar a um contexto que vai ter bastante incerteza por conta da tecnologia,” conclui.
Assista à entrevista na íntegra, com o economista e pesquisador da FGV Ibre, Fernando Holanda Barbosa Filho, ao Canal Um Brasil, uma iniciativa da FecomercioSP:











