A inadimplência empresarial atingiu um novo pico no mês de julho, com 9,2 milhões de CNPJs negativados. Essas empresas concentraram 67,2 milhões de dívidas em atraso, que somaram R$ 238,6 bilhões em apenas um mês, segundo o índice de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian.
Em um ambiente marcado por crédito mais restrito e condições financeiras ainda apertadas, o aumento da inadimplência também traz preocupações quanto às demandas e pagamentos de longo prazo, podendo até mesmo mudar a estratégia comercial das empresas.
Nesse cenário, Nelson Lins, especialista em wellness, em franquias, equity, M&A e expansão, afirma que o aumento da inadimplência obriga as empresas a olharem com mais atenção para a qualidade da receita.
O especialista pontua que vender mais é importante, mas receber bem também é fundamental, uma vez que, em um ambiente de maior inadimplência, essa diferença pode definir quais empresas conseguem preservar caixa e continuar investindo.
“O parcelamento continua sendo uma ferramenta importante para facilitar o acesso do consumidor, mas precisa estar acompanhado de uma política de crédito bem estruturada. É necessário conhecer melhor o perfil do cliente, acompanhar os indicadores de atraso e entender o impacto financeiro de cada decisão comercial”, afirma.
Inadimplência avança mensalmente e pode impactar o caixa no longo prazo
Diante desse cenário de maior cautela econômica, Lins afirma que deve haver um equilíbrio entre crescimento e preservação de caixa. Ele pontua que, quando o crédito fica mais caro, eficiência passa a ser ainda mais importante e destaca que empresas que têm uma operação organizada, boa gestão de caixa, governança e um modelo de negócio que pode ser replicado tendem a tomar decisões com mais segurança.
“A empresa precisa ter ambição para crescer, mas também clareza sobre os limites financeiros do negócio. Nem toda oportunidade precisa ser aproveitada, principalmente quando a expansão exige um nível de investimento que pode pressionar o caixa”, alerta.
Segundo o especialista, é fundamental olhar para cada movimento de forma individual, analisando quanto capital será necessário, em quanto tempo aquela unidade ou operação deve amadurecer e o impacto disso sobre o negócio como um todo.
Os dados de julho mostram a deterioração do mercado de crédito e do quadro de inadimplência — contexto que deve ser analisado pelas empresas. Enquanto em julho de 2025, foram registradas 58,6 milhões de dívidas negativadas, no valor de R$ 193,4 bilhões, em julho deste ano, o número de dívidas chegou a 67,2 milhões, totalizando R$ 232,9 bilhões.
A dívida média era de R$ 25.983,88 e o ticket médio, de R$ 3.551,59. A quantidade média de dívidas por CNPJ ficou em 7,3, enquanto houve aumento no valor médio das obrigações.
Impacto no setor de serviços já influencia decisão sobre consumo
Entre as empresas negativadas em julho, Serviços representaram 55,8% do total, enquanto o Comércio respondeu por 32,1%, a Indústria por 8% e o segmento Primário por 1%.
Quando a análise considera a origem das dívidas inadimplidas, os Serviços aparecem novamente na primeira posição, com 31,7% das pendências. Bancos/Cartões responderam por 19,7%, seguidos por Cooperativas, com 8,5%, Utilities, com 6,9%, e Telefonia, com 6,2%.
Quando o crédito fica mais restrito e a inadimplência aumenta, o impacto chega rapidamente ao consumo, quando o consumidor passa a ter menos espaço no orçamento, pensa mais antes de assumir uma nova parcela e começa a priorizar onde vai colocar o dinheiro, afirma o especialista. Isso naturalmente afeta empresas que dependem de compra parcelada ou de um consumo mais recorrente.
Lins avalia que, para quem está à frente de um negócio, o desafio é entender que não se trata apenas de uma queda ou aumento de demanda, uma vez que existe uma mudança no comportamento do consumidor, que fica mais seletivo, sensível a preço e mais cuidadoso nas decisões de compra.
“Quando o crédito fica mais restrito e a inadimplência aumenta, o impacto chega rapidamente ao consumo. O consumidor passa a ter menos espaço no orçamento, pensa mais antes de assumir uma nova parcela e começa a priorizar onde vai colocar o dinheiro. Isso naturalmente afeta empresas que dependem de compra parcelada ou de um consumo mais recorrente”, explica.
Cenário de escassez do crédito pode trazer oportunidades
Apesar do cenário de dificuldade para obter crédito e manter o caixa, Lins destaca que momentos de maior cautela econômica também podem gerar boas oportunidades.
“Quando o mercado fica mais pressionado, alguns ativos passam a ter valuations mais atrativos e empresas saudáveis podem encontrar espaços para crescer que, em outros momentos, seriam muito mais disputados”, afirma.
No entanto, o especialista alerta sobre a importância de não confundir preço com oportunidade, pois um ativo barato pode esconder problemas estruturais, e afirma que uma aquisição só faz sentido se houver uma perspectiva clara de geração de valor.
Para Lins, é preciso olhar além do valuation e entender a qualidade da operação, assim como a geração de caixa, o nível de endividamento, a capacidade de integração e o potencial real do negócio em questão.
“Em momentos como esse, disciplina e análise são ainda mais importantes do que a vontade de crescer rapidamente”, conclui.











