Por Michel Maciel*
Enquanto o debate econômico continua concentrado na trajetória da Selic e no custo do crédito, um dado passou relativamente despercebido fora do mercado financeiro: segundo a Abecip, o crédito com garantia de imóvel (home equity) movimentou R$ 3,166 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 25,83% sobre o mesmo período do ano anterior e o maior volume desde o início da série histórica, em 2018. Apenas em março foram registradas mais de 4 mil operações, crescimento de 34,3% em relação ao mesmo mês de 2025. O avanço chama atenção porque ocorre justamente em um país onde boa parte das famílias continua financiando consumo e reorganizando dívidas por meio das linhas mais caras disponíveis no sistema financeiro.
O crescimento do home equity não deveria ser analisado apenas como uma tendência do mercado imobiliário ou bancário. Ele expõe uma contradição histórica da vida financeira brasileira. Durante anos, milhões de pessoas acumularam patrimônio em imóveis ao mesmo tempo em que pagavam juros extremamente elevados em cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Na prática, mantinham um ativo de alto valor imobilizado enquanto carregavam passivos que corroíam renda e patrimônio todos os meses. O recorde de 2026 sugere que uma parcela dos consumidores começa a corrigir essa distorção. Não porque o crédito tenha ficado barato no Brasil, mas porque determinadas modalidades se tornaram incomparavelmente mais vantajosas do que outras.
O dado ganha ainda mais relevância quando observado no contexto macroeconômico. O crescimento das operações ocorreu mesmo em um ambiente de juros elevados. Isso significa que a expansão não está sendo impulsionada por crédito abundante, mas pela busca por eficiência financeira. Quando uma modalidade opera com taxas próximas de 1,12% a 1,80% ao mês e oferece prazos que podem chegar a cerca de 13 anos, ela passa a representar uma alternativa concreta para quem precisa reorganizar passivos acumulados em linhas muito mais onerosas. O avanço de 60% no volume financeiro das operações de março em relação ao mesmo mês do ano anterior mostra que essa percepção deixou de ser restrita ao mercado e começou a chegar ao consumidor.
Isso não significa que o home equity deva ser tratado como uma solução universal. Parte da cobertura recente sobre o tema tem destacado apenas a redução das taxas, quando o ponto central deveria ser a qualidade da contratação. O imóvel fica vinculado à operação e a inadimplência pode resultar na perda da garantia. Além disso, consumidores frequentemente avaliam apenas a taxa anunciada e ignoram o Custo Efetivo Total, que incorpora seguros obrigatórios, avaliação do imóvel, registros e demais despesas. Em um mercado que atrai cada vez mais interessados, o risco não está apenas no endividamento, mas na falsa percepção de economia criada por comparações superficiais.
Há também um equívoco recorrente na análise desse crescimento. Alguns enxergam a expansão do home equity como evidência de que as famílias estão mais endividadas. A leitura correta é outra. O aumento das operações revela que parte dos consumidores está substituindo dívida cara por dívida mais barata, movimento que melhora fluxo de caixa, reduz comprometimento de renda e amplia capacidade de planejamento financeiro.
O problema nunca foi o uso do crédito em si. O problema sempre foi a dependência de modalidades que transformam dificuldades temporárias em ciclos prolongados de endividamento.
O recorde registrado em 2026 deve ser visto como um sinal positivo, mas não pela expansão de uma modalidade específica. O que merece atenção é o fato de que mais brasileiros começam a questionar a lógica de pagar os juros mais altos do sistema financeiro enquanto possuem patrimônio capaz de reduzir esse custo de forma significativa.
O home equity não resolve problemas financeiros por conta própria. O que resolve é a combinação entre planejamento, comparação de propostas, análise do Custo Efetivo Total e contratação em instituições autorizadas pelo Banco Central. Quando esses critérios são respeitados, o imóvel deixa de ser apenas um ativo parado e passa a funcionar como instrumento de proteção patrimonial. Quando são ignorados, o crédito que deveria aliviar a situação financeira apenas transfere o problema para um prazo mais longo.
*Michel Maciel é head of home equity operations da Bricker











