Por Alessio Alionço*
A aceleração da inteligência artificial generativa (IA) trouxe o mercado corporativo a um ponto de virada. Se a primeira fase foi marcada pela distribuição de licenças e pela experimentação individual, o momento atual exige maturidade. Apenas distribuir ferramentas abertas aos colaboradores sem medir impacto, ou permitir o desenvolvimento informal sem governança cria uma ilusão de inovação, mas não gera eficiência real nem escala para o negócio.
Vejo esse padrão se repetir: empresas distribuem licença de IA como se fosse um quadro em branco e, no final, ninguém consegue dizer onde a tecnologia foi usada, qual foi o ganho real e como colocar na ponta do lápis o benefício e o risco. A pauta da IA tornou-se uma agenda central de gestão, onde o protagonismo da liderança é o fator decisivo para conectar a tecnologia ao resultado do negócio.
Um estudo que conduzimos no primeiro semestre de 2026 mostra o tamanho desse descompasso: 71% das empresas brasileiras já usam ferramentas de IA em seus fluxos de trabalho, mas apenas 6% têm os processos totalmente integrados e orquestrados de ponta a ponta pela tecnologia. Entre as duas pontas está a maioria: 41% mantêm automações que resolvem tarefas isoladas, mas não conversam entre si. Isso acontece porque a tecnologia ainda é tratada de forma pontual, sem um direcionamento claro focado em indicadores de negócio, como redução de custos, diminuição de erros e ganho de capacidade operacional.
O gargalo da transformação não está na escolha do modelo de IA, mas na maturidade dos processos. Aprendemos que a tecnologia só entrega valor quando aplicada sobre fluxos de trabalho previamente organizados, categorizados e previsíveis. Negócios sólidos não rodam em comandos isolados; eles dependem de processos integrados de ponta a ponta. Quando a aplicação é rasa, os ganhos ficam represados em tarefas individuais, sem impactar a produtividade da operação.
É nessa travessia que a atuação dos diretores, VPs e C-Levels torna-se indispensável. A estratégia de IA não é uma atribuição que possa ser totalmente terceirizada para áreas de TI ou comitês de inovação. Os líderes são os responsáveis pelo conhecimento estratégico e pelas regras operacionais.
Cabe à alta gestão conduzir os times na transição de projetos isolados para a orquestração agêntica que executa processos completos dentro de regras claras de governança. Agentes capazes de avaliar um crédito, fazer o background check de um fornecedor ou analisar um sinistro de forma segura e auditável.
O avanço da inteligência artificial no ambiente corporativo é uma oportunidade real para redesenhar a eficiência das empresas. Liderar essa evolução de forma madura significa superar o hype inicial e traduzir a experiência executiva em governança ativa, transformando o potencial da tecnologia em ganho de eficiência mensurável. O líder que continuar não se responsabilizando por essa transição corre o risco de não só perder em eficiência, mas também em relevância e empregabilidade. A janela para conduzir essa mudança é agora.
*Alessio Alionço é CEO e fundador da Pipefy










