O fortalecimento do El Niño aumentará os riscos climáticos para a produção agrícola global durante o terceiro trimestre, segundo a 36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities, da StoneX. Entre os principais afetados, café e soja devem lidar com possíveis reflexos sobre a oferta e preços.
De acordo com a consultoria, a combinação de temperaturas acima da média e mudanças no regime de chuvas também pode afetar outras culturas, como açúcar, algodão, trigo e cacau.
Neste ano, o fenômeno passou rapidamente de uma condição de neutralidade para um El Niño fraco entre março e maio e tende a ganhar intensidade nos próximos meses. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) projeta anomalias próximas de 2°C na temperatura das águas do Pacífico Equatorial, patamar compatível com um evento de forte intensidade.
Segundo Carolina Giraldo, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, o trimestre será marcado pela consolidação do fenômeno climático.
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“O terceiro trimestre será marcado pela consolidação do El Niño e por um aumento expressivo do risco climático em diversas regiões produtoras. O fenômeno tende a modificar padrões de chuva e temperatura em escala global, exigindo atenção redobrada de produtores e agentes do mercado.”
Para Guto Gioielli, analista CNPI e fundador do Portal das Commodities, o principal risco para o mercado não está apenas na falta ou no excesso de chuva, mas na combinação entre calor intenso e distribuição irregular das precipitações. Segundo ele, esse cenário pode reduzir o rendimento das lavouras e aumentar a volatilidade dos preços das commodities agrícolas.
Como o El Niño afeta a produção agrícola
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera, modificando a distribuição das chuvas e das temperaturas em diversas regiões do planeta.
Além do Pacífico, a StoneX destaca que o comportamento dos oceanos Índico e Atlântico também deve influenciar o clima no segundo semestre. As mudanças elevam tanto o risco de estiagens quanto de excesso de chuvas, dependendo da região produtora.
Segundo a consultoria, a duração do El Niño será um fator tão importante quanto sua intensidade. Caso as projeções passem a indicar enfraquecimento já no início de 2027, os riscos para a produção global poderão ser limitados. Contudo, se o fenômeno persistir em níveis elevados, o mercado poderá começar a incorporar um prêmio climático às cotações ainda no final de 2026.
“Hoje o mercado trabalha com a expectativa de oferta abundante no curto prazo, mas o comportamento do El Niño pode redefinir as perspectivas para a safra seguinte. Por isso, apesar do cenário potencialmente baixista para os próximos meses, a volatilidade continua sendo uma característica importante para o café”, afirma Leonardo Rossetti, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX.
Brasil entra em período decisivo para a soja
No Brasil, a principal preocupação está concentrada entre agosto e setembro, período em que ocorre a recuperação da umidade do solo nas principais áreas produtoras do Centro-Oeste e Sudeste antes do início da safra de verão.
Gioielli afirma que, no Brasil, atrasos ou irregularidade no retorno das chuvas em setembro podem comprometer a implantação da safra de soja, alterando as projeções de oferta global. Além da soja, o Sul do País pode enfrentar excesso de umidade, elevando a incidência de doenças em algumas culturas.
Para ele, investidores devem acompanhar os relatórios climáticos, a umidade do solo nas principais regiões produtoras e a reação dos mercados futuros, já que mudanças nas perspectivas de produção costumam influenciar diretamente a formação dos preços das commodities agrícolas.
Café, açúcar, trigo e cacau também entram no radar
O relatório destaca que diferentes culturas serão impactadas de formas distintas. No café, chuvas durante a colheita podem afetar a secagem e a qualidade dos grãos. Em seguida, as floradas dependerão de condições adequadas de umidade e temperatura.
No açúcar, o Centro-Sul brasileiro monitora o risco de interrupções na colheita caso as chuvas fiquem acima da média.
O trigo enfrenta cenários diferentes entre os hemisférios. Na Austrália, o padrão mais seco associado ao El Niño aumenta o risco de estresse hídrico. Já no Sul do Brasil, o excesso de umidade pode favorecer doenças nas lavouras.
O cacau também está entre as culturas mais expostas. Na África Ocidental e na Indonésia, há risco de irregularidade das chuvas, enquanto o Equador pode registrar condições mais úmidas, favorecendo o desenvolvimento das plantas, mas aumentando a pressão de doenças.
Ondas de calor também preocupam durante El Niño
Além das alterações no regime de chuvas, a StoneX prevê temperaturas acima da média em diversas regiões produtoras da América do Sul, América do Norte, Ásia e Oceania.
Segundo Carolina Giraldo, o calor excessivo aumenta a necessidade de água das plantas e pode reduzir o potencial produtivo em fases importantes do desenvolvimento das lavouras.
“O calor persistente amplia a demanda hídrica das plantas e pode acelerar o ciclo de desenvolvimento das culturas. Em fases críticas, como floração e enchimento de grãos, esse comportamento tende a reduzir o potencial produtivo, especialmente quando combinado com baixa disponibilidade de água no solo.”











