O mercado global de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) deve bater o recorde registrado em 2021 e movimentar mais de US$ 6,4 trilhões em 2026, segundo projeções do Morgan Stanley. Mas, segundo Lucas Mendes, CEO da Helping Hand, consultoria especializada em valuation e M&A, o mercado passou a olhar além do faturamento das companhias.
Para o executivo, a capacidade de gerar resultados previsíveis, manter uma estrutura de gestão organizada e crescer sem depender exclusivamente do fundador também influencia a avaliação de um negócio.
“Durante muitos anos, o empresário concentrou seus esforços em aumentar o faturamento. Hoje, o investidor procura empresas capazes de gerar valor sustentável”, afirma. De acordo com Mendes, esse cenário aumenta a importância do equity.
No Brasil, o movimento ocorre com uma característica diferente: o número de transações diminuiu, mas o valor envolvido aumentou. Pesquisa da KPMG mostra que as operações de M&A movimentaram R$ 195 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de mais de 22% em relação aos R$ 160 bilhões na comparação anual.
Ao mesmo tempo, foram realizadas 610 transações, queda de 35% ante as 938 operações do primeiro semestre do ano passado.
Governança passa a pesar antes da chegada do comprador
A preparação para uma operação de M&A também passa a ocorrer antes da entrada de um potencial comprador. Processos internos, governança corporativa, planejamento sucessório, indicadores de desempenho e formação de lideranças podem influenciar a percepção de risco dos investidores.
Para Mendes, a preparação para uma venda não deve começar quando surge uma proposta. A estruturação da empresa ao longo dos anos pode reduzir riscos e aumentar a capacidade de negociação dos sócios.
“A venda de uma empresa não começa quando aparece um comprador. Ela começa anos antes, quando o empresário estrutura processos, fortalece a governança, desenvolve lideranças e cria indicadores que aumentam a confiança do mercado”, afirma.
A discussão ganha peso entre pequenas e médias empresas. Segundo o Sebrae, elas representam cerca de 99% das empresas brasileiras. Dados do Ministério do Emprego e do Trabalho apontam que também respondem pela maior parte dos empregos formais do país.
Apesar da participação na economia, parte dessas empresas ainda apresenta baixa maturidade em governança, planejamento sucessório e gestão estratégica, fatores que podem afetar o valuation e a capacidade de atrair investidores.
Menos M&A, mas negócios de maior valor
Os dados da KPMG mostram que a redução na quantidade de operações não significou uma queda no dinheiro movimentado pelo mercado brasileiro.
“Embora o número de operações tenha diminuído, observamos um crescimento expressivo no valor movimentado, indicando que investidores continuam identificando oportunidades relevantes e priorizando transações com maior impacto estratégico e capacidade de geração de valor no longo prazo”, afirma Paulo Guilherme Coimbra, coordenador da pesquisa e sócio da KPMG.
Entre as principais operações anunciadas no primeiro semestre estão a aquisição de ativos de mineração e refinaria da South32 pela Alcoa Corporation, por aproximadamente R$ 28,5 bilhões; a compra da Serra Verde pela USA Rare Earth, junto aos fundos Derham Capital, Energy and Minerals Group e Vision Blue, por cerca de R$ 13,9 bilhões; e a aquisição da Raízen Argentina pela Mercuria, em transação avaliada em aproximadamente R$ 7,2 bilhões.
Para Alan Riddell, sócio-líder de transações e estratégia da KPMG, os dados mostram uma concentração maior do mercado em operações de grande porte e maior valor agregado.
“As maiores operações do semestre demonstram a continuidade do interesse de investidores por ativos estratégicos em setores considerados fundamentais para a economia, como mineração, serviços financeiros e energia”, afirma.
Investimento estrangeiro e private equity recuam
No primeiro semestre, as transações domésticas somaram 419 operações, ante 705 no mesmo período de 2025. Os negócios envolvendo investidores estrangeiros passaram de 233 para 191.
Já a indústria de private equity e venture capital registrou 146 transações, contra 266 no primeiro semestre do ano passado. Apesar da redução na quantidade de operações desse segmento, o valor financeiro movimentado cresceu mais de 30%, segundo a KPMG.
Com investidores mais seletivos, a capacidade de demonstrar geração de valor pode ganhar peso na definição dos negócios que avançam. Para Mendes, empresas que estruturam processos, governança e gestão antes de buscar um comprador podem reduzir incertezas para os investidores e melhorar as condições de uma eventual negociação.











