A ata da última reunião do Federal Reserve (Fed) mostra que a preocupação com a inflação segue dividindo os dirigentes e deve manter a taxa de juros sob pressão nos próximos encontros. Segundo o documento divulgado nesta quarta-feira (19), embora a maioria tenha defendido a manutenção dos juros em julho, vários integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) preferiam uma elevação de 0,25 ponto percentual.
A discussão ocorreu antes da divulgação dos dados mais recentes de inflação e emprego dos Estados Unidos, que vieram mais fracos do que o esperado. Por isso, o documento mostra um Fed mais preocupado com a persistência dos preços do que os indicadores divulgados posteriormente poderiam sugerir.
Segundo a ata, muitos dirigentes consideraram que a inflação permanecia elevada mesmo quando excluídos componentes mais voláteis, como alimentos e energia. Também houve preocupação com as expectativas de inflação de curto prazo, que teriam subido em relação ao período anterior ao conflito no Oriente Médio.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, o documento revela um Fed ainda vigilante em relação à inflação, mas sem consenso suficiente para promover uma alta imediata.
“A ata mostra um Fed ainda preocupado com a inflação e com viés claramente vigilante, mas sem consenso para uma alta imediata”, avaliou. Segundo Costa, o Comitê permanece majoritariamente em modo de espera, embora exista uma ala hawkish (defensora de uma política monetária mais restritiva) disposta a apoiar novas altas caso a inflação não continue desacelerando.
Após a divulgação da ata, os investidores continuaram atribuindo maior probabilidade à manutenção dos juros na reunião de setembro. Por volta das 15h50 (de Brasília), o mercado precificava 65,4% de chance de manutenção da taxa, ante 63,9% na sessão anterior.
Para outubro, as apostas permanecem divididas. A probabilidade de manutenção estava em 52,4%, enquanto a de uma alta de 0,25 ponto percentual era de 40,7%. A possibilidade de elevação de 0,50 ponto percentual aparecia com 6,9%.
Inflação continua no centro da decisão
A avaliação predominante entre os dirigentes é de que a inflação deve perder força ao longo dos próximos meses, à medida que diminuam os efeitos das tarifas e de choques anteriores sobre os preços.
Ao mesmo tempo, o documento registra preocupações com a possibilidade de uma desaceleração mais lenta. Alguns dirigentes apontaram que as pressões continuam disseminadas, principalmente nos serviços e em setores relacionados aos investimentos em inteligência artificial.
A ata também mostra que alguns membros consideraram as condições financeiras pouco restritivas para garantir o retorno da inflação à meta de 2%.
Parte dos dirigentes que defendia uma alta de 0,25 ponto percentual em julho avaliou que uma elevação antecipada poderia evitar a necessidade de um aperto monetário mais intenso posteriormente.
Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a ata apresenta um tom mais hawkish do que o observado durante o período de Jerome Powell à frente do Fed.
Segundo o estrategista, a diferença está principalmente na preocupação com uma inflação que permanece acima da meta por um período prolongado. Na avaliação de Castro Alves, a prioridade do banco central deve continuar sendo preservar a estabilidade de preços e a credibilidade da política monetária.
O cenário, porém, envolve um dilema. Enquanto a inflação ainda preocupa, o mercado de trabalho americano começa a apresentar sinais de desaceleração.
Mercado de trabalho limita espaço para aperto
De acordo com a ata, a avaliação predominante entre os dirigentes é de que o mercado de trabalho permanece equilibrado, com desemprego próximo do nível considerado de longo prazo e criação de vagas compatível com o crescimento da força de trabalho.
Alguns participantes identificaram melhora marginal nas condições de emprego. Outros, porém, apontaram sinais de enfraquecimento, como a menor taxa de recolocação e o nível ainda elevado do desemprego de longa duração.
Para Costa, essa combinação torna a decisão do Fed mais complexa. O banco precisa controlar a inflação sem provocar uma deterioração excessiva da atividade econômica.
Na avaliação do economista, a atividade continua apresentando crescimento, apoiada pelo consumo e pelos investimentos em inteligência artificial. O investimento, entretanto, está concentrado em projetos ligados à tecnologia.
Esse movimento também entrou no debate sobre inflação. Parte dos dirigentes considera que os investimentos em IA aumentam a demanda e pressionam os preços. Outros avaliam que os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia podem, posteriormente, reduzir custos e ajudar no controle da inflação.
Também foi levantado o risco de uma eventual frustração com os investimentos em inteligência artificial provocar correções nos mercados financeiros.
Juros seguem como principal ferramenta do Fed
Apesar das discussões sobre o balanço patrimonial da instituição, os dirigentes reafirmaram que a principal ferramenta para ajustar a política monetária deve continuar sendo a taxa de juros.
O balanço patrimonial do Fed aumentou significativamente após a crise financeira de 2008, quando o banco central passou a comprar títulos para injetar liquidez na economia. Uma redução desse balanço, por meio da venda de ativos, retira recursos do sistema financeiro e também produz um efeito de aperto monetário.
William Castro Alves destacou que essa discussão ganhou espaço entre os dirigentes, mas ainda não representa uma mudança no principal instrumento utilizado pelo banco central.
Segundo o estrategista, parte do mercado já vem realizando esse trabalho por meio dos juros dos títulos americanos. Os rendimentos dos papéis, especialmente os de curto prazo, subiram nos últimos meses diante da expectativa de uma política monetária mais restritiva.
Fed pode mudar calendário de reuniões
A ata do Fed também revelou uma proposta de mudança na frequência das reuniões do Fomc. O presidente do Fed, Kevin Warsh, defendeu que o Comitê passe a realizar seis reuniões programadas por ano, aproximadamente uma a cada dois meses.
Atualmente, o banco central americano realiza oito reuniões anuais, em intervalos próximos de 45 dias. Segundo o documento, a mudança permitiria acumular mais informações entre as decisões e daria aos dirigentes e à equipe técnica mais tempo para avaliar questões estratégicas de política monetária.
No entanto, nenhuma decisão foi tomada sobre a alteração. Warsh também indicou que uma eventual mudança não afetaria o calendário restante de 2026.











