O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de elevar o nível de alerta para o quadro da dívida pública brasileira, ao sinalizar a continuidade da trajetória de alta nos próximos anos, caso não haja um esforço fiscal mais robusto. Após concluir a consulta anual do Artigo IV, a instituição estima que a dívida bruta do governo geral alcançará 97,8% do Produto Interno Bruto (PIB) até o final deste ano, avançando para 100% em 2027.
Segundo relatório divulgado nesta quinta-feira (23), no cenário-base do FMI, a dívida alcançaria 102% do PIB em 2028, 105,3% do PIB em 2031, caminhando para se estabilizar em torno de 106% do PIB até 2035.
Apesar de destacar a resiliência da economia brasileira diante de choques externos, o fundo afirma que será necessário um ajuste fiscal mais amplo para colocar a dívida em uma trajetória de queda.
A instituição também projeta que a inflação encerrará 2026 em 5,6%, acima da meta de 3% e do limite superior do intervalo de tolerância, de 4,5%, enquanto a economia deverá crescer 2,4% no período, sustentada principalmente pela resiliência da demanda interna e por ganhos decorrentes da exportação de petróleo, favorecidos pelo cenário geopolítico no Oriente Médio.
FMI vê cenário alternativo para a redução da dívida pública
O relatório apresentou ainda um segundo cenário (recomendado), no qual a dívida iniciaria uma trajetória de redução a partir de 2027, passando de 97% do PIB em 2027 para 95% em 2028 e chegando a aproximadamente 85% do PIB em 2031.
Segundo a instituição, esse resultado dependeria de um ajuste fiscal equivalente a 3 pontos percentuais do PIB ao longo de cinco anos, entre 2026 e 2031. Para isso, o Fundo propõe algumas medidas:
- a eliminação de benefícios tributários considerados ineficientes e regressivos;
- desvinculação do reajuste de benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo.
- fim dos pisos constitucionais para os gastos com saúde e educação.
O FMI também recomenda reduzir rigidezes do orçamento e fortalecer o arcabouço fiscal com uma âncora de médio prazo para a dívida, preservando os programas sociais voltados à população mais vulnerável.
Na avaliação do FMI, um ajuste fiscal menor que o necessário tende a elevar o prêmio de risco do país, aumentar o custo de financiamento da dívida pública e reduzir o investimento privado.
Projeções para o PIB, inflação e Selic
Além das projeções para a dívida pública, a instituição atualizou suas estimativas para os principais indicadores macroeconômicos do Brasil. O FMI projeta queda da Selic para 2027, enquanto a dívida chegaria a 100% do PIB.
A instituição prevê crescimento do PIB de 2,4% em 2026 e de 2,2% em 2027. No médio prazo, a expansão da economia tende a se estabilizar em torno de 2,5%, impulsionada pelos ganhos de produtividade esperados com a implementação da reforma tributária aprovada em 2023.
Para a inflação, o FMI estima uma projeção de 5,6% em 2026, com recuo para 3,2% em 2027. Além disso, avalia que a convergência para a meta de 3% deverá ocorrer apenas em meados de 2028.
Em relação à taxa Selic, o fundo considera adequado o posicionamento cauteloso do Comitê de Política Monetária (Copom), diante das expectativas de inflação ainda elevadas. As estimativas apontam para uma taxa básica de 14% em 2026, após 15% em 2025, com queda para 9,3% em 2027.
Os dados apresentados pelo FMI para os principais indicadores são:
| Indicador | 2024 | 2025 | 2026 | 2027 |
|---|---|---|---|---|
| Balanço primário (% do PIB) | -0,3 | -0,1 | -0,3 | -0,2 |
| Crescimento do PIB (%) | 3,4 | 2,3 | 2,4 | 2,2 |
| Dívida bruta (% do PIB) | 87,0 | 93,3 | 97,8 | 100,0 |
| IPCA (%) | 4,8 | 4,3 | 5,6 | 3,2 |
| Selic (%) | 12,3 | 15,0 | 14,0 | 9,3 |
Banco Central tem métricas diferentes para calcular a dívida pública
O governo brasileiro utiliza uma metodologia distinta da apresentada pelo FMI. No cálculo oficial, o resultado fiscal considera o déficit primário, que exclui os gastos com juros da dívida e incorpora despesas classificadas pela equipe econômica como emergenciais e fora da meta fiscal, como o programa Brasil Soberano 3, que prevê R$ 18,5 bilhões para empresas afetadas pelo tarifaço dos Estados Unidos.
O Banco Central informou, em dados divulgados em 30 de junho, que o déficit primário acumulado em 12 meses corresponde a 1,14% do PIB, enquanto a dívida pública representa 81,1% do PIB.











