A expectativa de redução da taxa Selic na reunião desta quarta-feira (4) do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) não deve alterar os problemas estruturais da economia brasileira, segundo análise da FecomercioSP.
Para a entidade, enquanto os gastos públicos permanecerem elevados e o resultado nominal das contas do governo continuar se deteriorando, a queda dos juros terá efeito limitado.
Na avaliação da federação, o debate econômico deveria ir além da decisão sobre a taxa básica de juros e concentrar esforços no controle das despesas obrigatórias do governo. A entidade defende a revisão das indexações e dos gastos vinculados, apontando que o ajuste fiscal continua sendo o principal desafio para a economia.
“Ou esse caminho é seguido ou então teremos dois cenários no futuro próximo: uma crise de confiança do empresariado e do consumo de grandes proporções, ou o ajuste ‘silencioso’ pela inflação, cuja conta é paga pelos menos abonados”, afirma a FecomercioSP.
Diante da possibilidade de corte da Selic e análise dos indicadores econômicos, a FecomercioSP avalia que “a política monetária do BC está sendo usada como ferramenta de uma situação que não pode resolver: o quadro fiscal do País, que segue muito deteriorado”.
O mercado precifica que o BC cortará os juros em 0,25 ponto porcentual (p.p.), levando-a para 14% ao ano, movimento que a FecomercioSP atribui principalmente à inflação acumulada em 12 meses (4,64%), que, embora ainda permaneça acima do teto meta, está em desaceleração, considerando que “a alta de junho (0,16%) foi mais sazonal do que estrutural, em detrimento da alta na energia elétrica.”
A entidade destaca também que a inflação de junho, de 0,16%, teve caráter predominantemente sazonal, impulsionada pelo aumento das tarifas de energia elétrica, e não por pressões estruturais sobre os preços. Também contribuiu para a expectativa de corte o resultado do IPCA-15, que veio abaixo das projeções do mercado.
Política monetária do BC enfrenta limites diante do quadro fiscal
A federação ressalta que a dívida pública consolidada, somando União, Estados e municípios, está próxima de 80% do Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, afirma que os precatórios voltaram a pressionar as contas públicas, mantendo o resultado fiscal no vermelho.
O cenário, segundo a instituição, também é influenciado por fatores externos. Entre eles estão o retorno das tensões tarifárias entre Brasil e Estados Unidos — segundo maior parceiro comercial do País — e as incertezas no ambiente internacional, que continuam pressionando os preços do petróleo.
Endividamento das famílias amplia preocupação
A FecomercioSP também chama atenção para o elevado comprometimento da renda das famílias brasileiras. Com base em dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a entidade informa que, em junho, 29,9% das famílias conviviam com contas em atraso. Ao mesmo tempo, 29,3% da renda mensal dos lares era destinada ao pagamento de dívidas.
Segundo a federação, boa parte desse endividamento está concentrada no cartão de crédito e no crediário. Nesses casos, o consumidor permanece sujeito ao custo efetivo total das operações, independentemente do valor escolhido para as parcelas.
Na avaliação da entidade, esse quadro reduz a capacidade da política de juros de conter o consumo das famílias de menor renda e, ao mesmo tempo, amplia o custo de vida e o risco de inadimplência.
“Em outras palavras, o juro básico não desestimula o consumo das famílias mais pobres, mas encarece o custo de vida, empurrando-as para a inadimplência. E esse ciclo é perverso — como o aperto dos juros altos cai sobre quem investe (ou seja, as empresas), a capacidade produtiva cai”, conclui a FecomercioSP.











