Capitais costumam expulsar o mangue para a periferia ou aterrá-lo de vez. Recife fez o contrário sem querer: manteve uma extensão enorme de lama, raízes e caranguejos encravada entre bairros de classe média alta, shopping e uma via expressa. O resultado é um trecho de floresta alagada em pleno tecido urbano, com dono definido em lei e uma disputa institucional em torno de quem cuida dele.
O que existe dentro desses 320 hectares?
Um estuário inteiro funcionando. O Parque dos Manguezais ocupa cerca de 320 hectares entre os bairros do Pina, Boa Viagem e Imbiribeira, dos quais 225,8 hectares são de mangue, o que faz dele o maior manguezal em área urbana do país, conforme a Câmara Municipal do Recife.
A área está no meio do complexo estuarino formado pelos rios Capibaribe, Jordão, Pina e Tejipió, e concentra a maior mancha de mangue da cidade, segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Recife. O ecossistema funciona como berçário natural de espécies marinhas: peixes e crustáceos que abastecem a pesca no litoral pernambucano começam a vida ali, protegidos entre as raízes.

Por que a área pertence à Marinha e não à prefeitura?
Porque o terreno é da União e sempre esteve sob administração militar. Conforme a Câmara Municipal do Recife, a área pertence à Marinha do Brasil, virou área de conservação em 2010 e, por decisão judicial, a autonomia sobre parte das ilhas foi devolvida à corporação.
Na prática, quem impede o avanço sobre o mangue é a tropa. Um representante da Capitania dos Portos de Pernambuco explicou na mesma audiência pública que a Marinha mantém no local fuzileiros navais responsáveis pela preservação e por conter o desmatamento. É uma configuração incomum: a maior reserva urbana de mangue do país é patrulhada por militares, não por guardas ambientais.

Quando o parque virou unidade de conservação?
Em duas etapas separadas por quase quinze anos. O parque foi criado pela Lei de Uso e Ocupação do Solo em 1996 e só veio a ser regulamentado em 2010, com área de 320,34 hectares, de acordo com a Secretaria de Meio Ambiente do Recife.
A elaboração do plano de manejo, documento que define o que pode e o que não pode ser feito dentro da unidade, começou com oficinas participativas na Ilha de Deus, comunidade pesqueira encravada no próprio manguezal. Moradores, pescadores, pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e técnicos municipais participaram do diagnóstico, num reconhecimento de que quem vive da maré precisa opinar sobre as regras da área.
Onde o mangue aparece na paisagem da cidade?
Em pontos que a maioria dos visitantes atravessa sem perceber. Confira abaixo o que melhor traduz essa convivência:
- Parque dos Manguezais: a mancha verde visível de avião na aproximação do aeroporto, entre bairros densamente ocupados.
- Ilha de Deus: comunidade pesqueira dentro do estuário, com trabalho de replantio de mudas de mangue.
- Bacia do Pina: encontro dos rios com o mar, que define a dinâmica das marés na zona sul.
- Rio Capibaribe: curso d’água que atravessa a capital e integra o mesmo sistema estuarino.
- Orla de Boa Viagem: faixa urbana vizinha ao parque, do outro lado da linha de bairros.
O vídeo do canal Fabi Cassol | Minha Praia Viajar, com mais de 375 mil visualizações, apresenta um roteiro completo de 4 dias por Recife, em Pernambuco, destacando a rica cultura e história da cidade, passeios pelo Recife Antigo, visitas ao Instituto Ricardo Brennand e à oficina de Francisco Brennand, além de uma exploração pelo charme histórico de Olinda, com dicas sobre gastronomia local, o famoso frevo e praias da região como a do Cabo de Santo Agostinho.
Como é o clima de Recife ao longo do ano?
Calor constante e a inversão típica do litoral leste nordestino, com verão seco e chuva concentrada no meio do ano. A diferença é grande: segundo o Climatempo, a média histórica de chuva em Recife é de 128 mm em julho e cai para 88 mm em março. Veja abaixo o comportamento aproximado ao longo do ano:
Valores aproximados. As condições mudam a cada temporada por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada no Climatempo.
A cidade cresceu em cima do próprio berçário
Há uma tensão permanente escrita naquele pedaço de lama. Ele sustenta a pesca, segura enchentes e serve de refúgio para dezenas de espécies, ao mesmo tempo em que ocupa um dos terrenos mais valorizados do Nordeste, cercado por avenidas, prédios e obras viárias.











