A tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros representa mais do que um obstáculo às exportações nacionais. Embora a medida tenha como objetivo tornar os produtos brasileiros mais caros e reduzir sua competitividade no mercado americano, seus efeitos não devem ficar restritos ao Brasil.
A decisão também deve aumentar os custos para empresas e consumidores norte-americanos, uma vez que muitos produtos brasileiros são difíceis de substituir, de forma que o prêmio da tarifa recairá sobre o produto final e será repassado aos cidadãos dos EUA, avalia Luciano Gioielli, analista internacional do Portal das Commodities.
Segundo o especialista, na prática, a tarifa adicional, ao mesmo tempo em que onera o Brasil, deve se tornar o novo imposto doméstico para o cidadão norte-americano. Ao invés de ser uma tarifa que protege a indústria americana, vai aumentar os custos e a inflação desses produtos no mercado local, além de reduzir a competitividade do consumidor, que vai pagar mais caro.
O café é um dos exemplos mais claros dessa relação, segundo Gioielli: “Um exemplo é o café, que tem uma parcela ínfima da demanda produzida em território americano, e que o mercado depende quase integralmente das exportações do Brasil, que é o maior produtor e exportador mundial, o que dificulta a substituição por outro país e, por isso, foi escolhido entre os itens da lista de exceções ao tarifaço”.
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As preocupações com os efeitos da medida não partem apenas do lado brasileiro. Durante as negociações realizadas antes da decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), parlamentares e empresas americanas argumentaram que a elevação das tarifas teria potencial para provocar mais prejuízos aos próprios Estados Unidos do que ao Brasil.
Para Gioielli, esse posicionamento evidencia uma preocupação concreta dos importadores americanos em preservar o acesso a produtos considerados essenciais para suas cadeias produtivas. Segundo ele, muitas empresas dos Estados Unidos não encontram fornecedores capazes de substituir o Brasil com o mesmo nível de qualidade, capacidade produtiva e regularidade no abastecimento.
Tarifas dos EUA refletem nova ordem do comércio global
Na avaliação do analista, a decisão americana também precisa ser compreendida dentro de um movimento mais amplo de reorganização do comércio internacional.
Gioielli explica que as tarifas impostas ao Brasil têm menos relação com uma deterioração específica das relações bilaterais e mais conexão com uma transformação estrutural do comércio global. E esse movimento não ocorre apenas nos Estados Unidos. Outros mercados, como Europa e China, grandes destinos das exportações brasileiras, também têm tomado decisões para reduzir a dependência do mercado brasileiro.
Nesse contexto, o especialista explica que as sanções tarifárias americanas são um reflexo de um novo mundo pós-pandemia, em que acontece uma reorganização geopolítica, na qual os países estão voltando a ser mais independentes. Nesse momento, “diminui-se o multilateralismo e inicia-se o protecionismo”, completa.
“Essa reorganização, com certeza, vai mexer com o agronegócio e impactar o Brasil, que, por não ser industrialmente estratégico, é uma ‘lojinha de commodities’, ficando mais vulnerável ao mercado externo”, explica.
O especialista atribui essa vulnerabilidade ao fato de o Brasil não ter se desenvolvido na área de exportação e não ter diversificado seus produtos de forma estratégica, como fazem outros países, correndo o risco de perder seu principal cliente em determinados setores. Ele lembra que Rússia e China também são frequentemente alvo de sanções comerciais motivadas pelo mesmo diagnóstico: elevada dependência do mercado americano.
Ele pontua ainda que, além das sanções americanas, as recentes barreiras fitossanitárias e novas regras ambientais impostas pela União Europeia em relação à carne brasileira também são um instrumento de protecionismo para evitar que o produto chegue ao seu território, por ser muito competitivo, e pelo risco de afetar a produção industrial local.
Para enfrentar esse novo ambiente, Gioielli defende uma mudança na estratégia comercial brasileira e propõe que o Brasil aja da mesma forma que esses países, ter relações estratégicas de acordo com as demandas de cada parceiro comercial e que dependem 100% da exportação brasileira.
“Vamos usar o café para fazer tarifas também, alavancagens com os Estados Unidos. A China depende do que da gente para o mercado de soja? Vamos fazer pressão na China, vamos fazer novos comércios de forma estratégica, em vez de focar apenas em vender qualquer produto!”, enfatiza.
Impacto da tarifa se espalha por toda a cadeia produtiva
Se no plano geopolítico a tarifa reflete uma mudança na dinâmica do comércio internacional, seus efeitos práticos tendem a ser sentidos rapidamente ao longo da cadeia produtiva brasileira. No curto prazo a maior preocupação é a competitividade que o Brasil teria no mercado americano.
Segundo Gioielli, a tarifa de 25% representa um aumento artificial do preço do produto brasileiro, como o café, por exemplo, para o importador dos Estados Unidos, obrigando-o a desembolsar um valor maior para adquirir o mesmo produto.
Em um efeito cascata, esse importador deve repassar os 25% de taxa sobre o produto ao consumidor final, o que, dependendo da margem do setor, inviabiliza contratos e reduz margens de lucro internas, levando-o a procurar por outro fornecedor.
“No início do elo, o exportador será o lado mais afetado, especialmente pela perda de produtividade; em seguida, os setores mais vulneráveis a essas tarifas são os frigoríficos, cooperativas, indústrias de processamento, logística e transportadoras, que passarão a operar com um volume menor de produtos e cujo impacto deve chegar ao produtor rural e, consequentemente, pode impulsionar para baixo os preços no mercado doméstico”.
Os reflexos da medida não devem se limitar às empresas diretamente envolvidas nas exportações. Gioielli avalia que estados com forte vocação exportadora, como Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Espírito Santo, podem registrar impactos indiretos sobre outras atividades econômicas em decorrência da desaceleração da indústria ligada às exportações.
Nesse cenário, algumas cadeias produtivas devem ser mais impactadas que outras, como o café solúvel, carne, madeira, o setor de papel e celulose, que são mais vulneráveis a tarifas. Já as commodities estratégicas no mercado americano, aponta o especialista, como café verde e carnes — sobretudo em um momento em que o rebanho americano está baixo — já tinham mais chance de permanecer entre as exceções da sanção comercial americana.
Gioielli destaca ainda um cenário paralelo em que alguns produtos brasileiros são complementares à indústria americana e não competem diretamente com a produção dos Estados Unidos.
Efeitos da tarifa sobre a inflação de alimentos no Brasil
Apesar dos impactos sobre o comércio exterior, a tarifa, por si só, não deve ser responsável por uma alta da inflação dos alimentos no Brasil. Segundo o especialista, a inflação depende da variação dos preços provocada por diversos fatores, como safra, condições climáticas, câmbio e custos logísticos, e não apenas das mudanças nas exportações.
Segundo Gioielli, no curto prazo, a reação dos preços internos à tarifa ainda é incerta, uma vez que dependerá da destinação que o Brasil dará a esses produtos que seriam exportados para os EUA, considerando uma redução da demanda.
Aumentando a oferta, os preços desses produtos tendem a baixar no mercado doméstico e a tendência é uma queda da inflação, explica o especialista. Por outro lado, se o Brasil conseguir redirecionar rapidamente essas exportações para outros países, o efeito deflacionário também tende a ser mais limitado.
Além disso, qualquer produto mais barato no mercado, o consumidor tende a comprar mais e, pela lei da oferta e demanda, isso pode puxar o preço para cima, ajudando as empresas a não quebrarem, considerando que o Brasil tem muito mercado consumidor para enxugar essa oferta extra, avalia o especialista.
Maior desafio do Brasil é manter espaço nos EUA
Segundo Gioielli, nesse momento, o principal desafio para o governo brasileiro vai ser preservar acesso ao mercado norte-americano, ao mesmo tempo em que precisa diversificar os compradores, além de aumentar valor agregado para suas exportações.
Numa perspectiva otimista, ele afirma que sempre há oportunidades de fechar negócio com outros parceiros comerciais. No entanto, a diversificação dependerá de uma atuação coordenada do governo, das condições de competitividade dos produtos brasileiros e da demanda internacional.
O especialista ressalta que esse processo não ocorre de forma imediata — considerando que o Brasil já possui outros destinos como a China, Europa, Oriente Médio e Ásia, essas parcerias podem não ser suficientes no longo prazo para suprir a demanda dos Estados Unidos, caso as tarifas sejam permanentes.
Reduzir a dependência de commodities e ampliar a participação de produtos com maior conteúdo industrial será fundamental para diminuir a vulnerabilidade da economia brasileira diante do avanço do protecionismo global. No curto prazo, porém, o especialista avalia ser difícil substituir os Estados Unidos, cuja cadeia de produção é muito dependente das exportações brasileiras, estabelecendo uma dependência bilateral.











