O ambiente de juros elevados deve continuar direcionando recursos para a renda fixa nos próximos anos, mantendo o crédito privado entre os principais destinos dos investidores. Ao mesmo tempo, esse cenário pressiona o preço dos ativos, aumenta a preocupação com a trajetória fiscal do país e reforça a preferência por aplicações de menor risco, segundo análise de especialistas do ASA durante o Expert XP 2026.
Nesse cenário, Thais Prado, head de fundos de crédito privado do ASA, explica que o ambiente de juros elevados levou um volume significativo de recursos para a renda fixa nos últimos anos, enquanto segmentos como Bolsa de Valores e fundos multimercado perderam espaço na carteira dos investidores.
Parcela relevante desse fluxo migrou para o crédito privado, principalmente para títulos isentos de Imposto de Renda, que passaram a concentrar a preferência dos investidores em razão da remuneração oferecida.
Crédito privado exige avaliação de risco
Apesar da forte entrada de recursos, Prado ressalta que o crédito privado não pode ser encarado como uma aplicação livre de riscos, com base em episódios relevantes no mercado, como pedidos recentes de recuperação judicial de grandes empresas de renome nacional.
Analisando o cenário atual, Prado diz que a preferência recai sobre títulos emitidos por instituições financeiras e empresas com perfil de crédito considerado mais sólido.
Ao comentar o segmento de high yield (ativos de alto rendimento e maior volatilidade), a especialista explica que essa categoria, por natureza, envolve maior risco, compensado por taxas de retorno mais elevadas. A especialista observa, entretanto, que em determinadas situações esses papéis podem apresentar uma dinâmica de risco diferente da observada em títulos high grade (ativos considerados de alta qualidade, associados a fundos sólidos sem garantias ou empresas com balanços fortes).
Na avaliação da executiva, o mercado continua registrando forte entrada líquida de recursos. Além dos resgates permanecerem reduzidos, parte do capital que deixou o crédito privado já demonstra intenção de retornar para essa classe de ativos.
Para Prado, caso o cenário de juros elevados se prolongue pelos próximos quatro anos, como projeta o ASA, o fluxo para o crédito privado deve permanecer consistente.
Juros elevados reduzem valor dos ativos
Também durante o evento, o head de investimentos do ASA, Rogerio Freitas, analisou os desdobramentos dos juros altos sobre os preços de ativos. Ele explica que o atual cenário econômico produz três efeitos principais sobre os investimentos: redução dos preços dos ativos, aumento dos riscos macroeconômicos e mudança na alocação das carteiras.
Segundo o executivo, o primeiro impacto decorre da permanência dos juros elevados por um período prolongado, pelo menos até o ciclo eleitoral, com possibilidade de continuidade pelos próximos quatro anos.
Nesse ambiente, Freitas explica que aumenta-se a taxa de desconto utilizada para calcular o valor presente dos ativos. Como a Selic representa a taxa livre de risco da economia, sua elevação reduz o valor atual dos fluxos de caixa futuros, pressionando os preços dos investimentos.
O efeito, segundo ele, vai além do mercado acionário. A elevação da taxa de desconto também afeta imóveis urbanos, propriedades rurais e os demais ativos da economia doméstica.
Dívida pública pode alcançar 100% do PIB
A segunda consequência apontada por Freitas envolve o quadro macroeconômico e o risco de dominância fiscal. Segundo ele, caso seja mantida uma política fiscal expansionista ou marcada por falta de disciplina nas contas públicas, a dívida bruta poderá crescer entre três e quatro pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) por ano.
Partindo do patamar atual, entre 80% e 83% do PIB, a dívida pública poderia atingir 100% do PIB até o fim do próximo governo, trajetória que, segundo o executivo, aumenta o risco de uma crise fiscal caso não ocorra uma reancoragem das contas públicas.
Freitas afirma que estabilizar essa dinâmica exigiria um ajuste fiscal equivalente a três ou quatro pontos percentuais do PIB ao ano. No entanto, destacou que menos de 10% do orçamento federal corresponde a despesas discricionárias, o que limita o efeito de medidas pontuais de eficiência ou cortes em programas considerados secundários.
Para o executivo, o mercado passou a exigir um ganho efetivo de credibilidade na condução das contas públicas, já que promessas sem resultados concretos reduziram a confiança dos agentes econômicos.
“O grande risco desse quadro é a economia caminhar para um ambiente de dominância fiscal, no qual a política monetária perde a sua eficácia. Nesses casos extremados, a elevação dos juros gera efeitos inversos, enfraquecendo a moeda, acelerando a desvalorização cambial e pressionando ainda mais a inflação”, afirmou.
Dívida pública pode reduzir espaço para investimentos privados
Freitas também destacou o fenômeno conhecido como crowding out, situação em que o aumento do endividamento público reduz a disponibilidade de recursos para o setor privado. Ele explica que, ao captar mais recursos para financiar a dívida, o governo absorve parte da poupança do setor privado, reduzindo a capacidade de investimento das empresas.
O especialista afirma que esse movimento já deu sinais recentes de fortalecimento, lembrando que o Tesouro Nacional enfrentou dificuldades para emitir títulos prefixados e indexados à inflação, o que levou a uma composição da dívida com mais de 50% dos papéis atrelados à taxa pós-fixada.
A redução dos investimentos privados tende a diminuir a produtividade da economia, comprometer o crescimento do PIB e limitar a expansão dos lucros das empresas e seu potencial de valorização na Bolsa.
Cenário favorece renda fixa em detrimento da Bolsa
A terceira implicação apresentada pelo ASA diz respeito à estratégia de alocação de ativos. Segundo Freitas, um ambiente caracterizado por crescimento econômico mais baixo, produtividade pressionada e juros reais elevados tende a favorecer a renda fixa em relação aos investimentos em renda variável.
O executivo afirma que, em um contexto de política fiscal expansionista e inflação persistentemente pressionada, a taxa real de juros necessária para conter a atividade permanece em patamares elevados, atualmente ao redor de 10%, enquanto a curva de juros negocia próxima de 8% em diversos vértices.
Na avaliação do especialista, esse diferencial aumenta a atratividade da renda fixa e eleva significativamente o retorno exigido pelos investidores para assumirem risco em outros mercados.
“Esse diferencial atrai o capital para a renda fixa e impõe um patamar de exigência muito mais alto para a exposição ao risco”, conclui.











