A pressão da inflação sobre os alimentos cada vez mais vem alterando o comportamento do consumidor brasileiro, e agora chega a impactar a fidelidade às redes de supermercados. Para manter as despesas dentro do orçamento, as famílias passaram a distribuir suas compras entre diferentes canais, intensificando a busca por preços mais baixos, promoções e produtos específicos em cada estabelecimento, aponta o Ranking de Preferência do Consumidor (RPI) 2026, da Dunnhumby.
Segundo o levantamento, os consumidores destinam, em média, R$ 1.073,98 por mês às compras de varejo alimentar, sendo que, entre os entrevistados, 42% possuem renda familiar de até R$ 3.499.
Nesse cenário, a fidelidade a uma única bandeira perdeu espaço e os brasileiros passaram a frequentar, em média, quatro redes de supermercado diferentes por mês, considerando lojas físicas e plataformas digitais, para conseguir abastecer a despensa sem ultrapassar o orçamento.
Segundo Alessandra Shima, diretora de Desenvolvimento de Negócios da Dunnhumby, o cenário econômico obriga as famílias a reorganizarem a forma de consumir.
“O consumidor brasileiro precisa fazer um verdadeiro malabarismo para que a alimentação seja acomodada no orçamento familiar, que atende uma média de 3 pessoas. Estamos falando de um cenário econômico inflacionado e que sofre com tensões políticas nacionais e externas. O preço do feijão-carioca acumula uma alta de quase 53%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Todo esse contexto resulta na diversificação de redes de compras e procura por promoções.”
Inflação faz consumidor andar mais em busca do melhor preço
Entre os entrevistados, 74% dos consumidores afirmam comprar em supermercados tradicionais, enquanto 63% recorrem ao atacarejo — formato que reúne características de atacado e varejo e costuma oferecer preços menores em compras de maior volume.
Ao mesmo tempo, cresce a divisão das compras com estabelecimentos do comércio local, conforme a categoria de produto e as oportunidades de economia.
O ambiente digital também passou a desempenhar papel importante nessa estratégia. Entre os consumidores que fazem compras online, 61% utilizam os aplicativos das próprias redes varejistas para acompanhar promoções, comparar ofertas e resgatar descontos.
Shima afirma ainda que o preço é o principal fator para atrair o consumidor, mas destaca que a fidelização depende de outros atributos.
“Num cenário econômico restrito, o preço age como um ‘porteiro’: ele é o fator que define qual loja vai ganhar a visita inicial do cliente. Contudo, para realmente fazer o consumidor voltar e deixar uma fatia maior da sua renda, o varejo precisa ir além da guerra de preços e entregar diferenciais claros em sortimento, marcas próprias e disponibilidade”, conclui.
Comércio local amplia participação no orçamento das famílias
O estudo também aponta um fortalecimento do comércio de bairro dentro da jornada de compras dos consumidores. Feiras, hortifrútis, açougues e padarias são frequentados mensalmente por 36% dos brasileiros, e 45% dos entrevistados afirmam gastar mais nesses estabelecimentos do que no ano anterior.
Segundo a pesquisa, essa migração está ligada à percepção de maior qualidade dos produtos frescos e à especialização desses pontos de venda.
O comércio local lidera a preferência para a compra de itens perecíveis. Entre os consumidores, 73% escolhem esses estabelecimentos para adquirir frutas, legumes e verduras, enquanto 56% priorizam o canal para a compra de carnes.
Cada canal assume uma função na estratégia de compra
O levantamento mostra que o consumidor brasileiro passou a utilizar diferentes formatos de varejo conforme a necessidade de cada compra. Enquanto o comércio local concentra os produtos frescos, o atacarejo se consolidou como o principal destino para o abastecimento mensal de itens de maior volume. O canal lidera as compras de mercearia (66%) e produtos de limpeza (66%).
Já os supermercados tradicionais mantêm vantagem nas compras de conveniência e reposição do dia a dia, liderando a categoria de padaria (55%).
Os canais exclusivamente digitais, por sua vez, ainda não são a principal escolha para alimentos, mas dominam as compras de categorias não alimentícias. Segundo a pesquisa, 62% dos consumidores preferem essas plataformas para adquirir produtos como roupas e eletrônicos.











