Por Gilberto Kaminski*
A construção civil brasileira atravessa um dos melhores momentos dos últimos anos. O setor voltou a crescer, registra volumes expressivos de investimentos e alcançou a marca de mais de três milhões de trabalhadores formais, o maior contingente desde 2014. À primeira vista, os indicadores são positivos. No entanto, quem acompanha o dia a dia dos canteiros de obras sabe que existe um desafio silencioso que pode limitar esse crescimento: a dificuldade de renovar a mão de obra.
Cada vez mais profissionais experientes se aproximam da aposentadoria, enquanto um número reduzido de jovens demonstra interesse em construir carreira no setor. O resultado é uma escassez crescente de profissionais qualificados justamente em funções essenciais para a execução das obras, como mestres de obras, pedreiros, carpinteiros, armadores e instaladores.
Essa realidade não surgiu de uma hora para outra. Ela é consequência de uma mudança no mercado de trabalho e também da forma como a construção civil passou a ser percebida pelas novas gerações. Durante muito tempo, consolidou-se a ideia de que trabalhar na construção significava exercer apenas uma atividade pesada, com poucas perspectivas de crescimento profissional. Essa visão, entretanto, não representa mais a realidade de um setor que evoluiu, incorporou novas tecnologias e passou a investir cada vez mais na formação de pessoas.
A construção civil continua sendo uma das portas de entrada mais importantes para quem busca inserção no mercado de trabalho. É um ambiente onde muitos profissionais iniciam a carreira sem qualificação técnica e, ao longo dos anos, tornam-se encarregados, mestres de obras e gestores de equipes. São trajetórias construídas com capacitação, experiência e dedicação, que frequentemente proporcionam remunerações acima da média brasileira.
Mais do que preencher vagas, precisamos mostrar que existe uma carreira sólida dentro da construção civil. O setor oferece oportunidades reais de crescimento profissional, estabilidade e desenvolvimento técnico. Resgatar essa percepção é fundamental para atrair uma nova geração de trabalhadores.
Ao mesmo tempo, não há dúvidas de que a tecnologia tem um papel cada vez mais relevante nesse processo. Ferramentas como o Building Information Modeling (BIM), processos industrializados e novas metodologias construtivas elevam a produtividade, reduzem retrabalhos e tornam o planejamento das obras mais eficiente. Mas é importante reconhecer que nenhuma inovação tecnológica substitui pessoas. A adoção dessas soluções exige investimentos, treinamento das equipes e uma cadeia produtiva preparada para operar em um novo modelo. A tecnologia ajuda a reduzir os impactos da escassez de mão de obra, mas não elimina a necessidade de formar novos profissionais.
Essa transformação também já aparece na estrutura de custos das obras. Há cerca de 25 anos, aproximadamente 40% dos custos de um empreendimento correspondiam à mão de obra, enquanto os materiais representavam cerca de 60%. Hoje, essa relação praticamente se inverteu. A mão de obra responde pela maior parcela dos custos, reflexo da valorização dos profissionais qualificados e da dificuldade crescente de reposição dessa força de trabalho.
Com um volume expressivo de contratos em execução e novos projetos em desenvolvimento, o principal ativo de qualquer obra continua sendo as pessoas. Equipamentos, processos e tecnologia são fundamentais, mas nenhuma construção acontece sem profissionais preparados, comprometidos e valorizados.
O futuro da construção civil dependerá da nossa capacidade de atrair jovens, investir em qualificação e mostrar que o setor oferece muito mais do que emprego: oferece carreira, desenvolvimento e oportunidades de crescimento. Se quisermos manter o ritmo de expansão da construção brasileira, será preciso investir tanto na inovação tecnológica quanto na formação das pessoas. Afinal, o maior patrimônio de uma obra sempre será quem a constrói.
*Gilberto Kaminski é diretor de Planejamento e Controle de Produção da Thá Engenharia











