Por Fernando Balotin*
O Banco Central reduziu ontem a taxa Selic em 0,25 p.p., que agora opera a 14% ao ano. Embora o movimento sugira o início de um afrouxamento monetário, um olhar atento para a curva de DI Futuro na Bolsa mostra que os grandes investidores não enxergam dinheiro barato no horizonte. O impacto imediato na ponta para o tomador de crédito, seja ele o consumidor no varejo ou o empresário, é apenas marginal. A taxa de juros permanece em um patamar profundamente restritivo.
O verdadeiro ponto de atenção não está na decisão de ontem, mas na dura expectativa para 2027. A economia brasileira vai desacelerar de forma mais acentuada do que parte do mercado projeta. As projeções do Boletim Focus, é que o crescimento do PIB fique na casa de 1,50% no próximo ano.
Essa retração já aparece silenciosamente nos bastidores do mercado de trabalho. O último relatório oficial do Caged, de junho, mostrou a criação de 145 mil novas vagas de emprego formal. Porém, quando avaliamos o setor produtivo na ponta do lápis, fica evidente que o fôlego para novas contratações no segundo semestre tende a diminuir de forma relevante. O motivo é puramente matemático. Com as linhas de capital de giro inacessíveis ou extremamente caras e o consumidor final sufocado pelas dívidas antigas, falta margem financeira para o empresário assumir novas despesas fixas com folha de pagamento e expansão de capacidade.
Na prática da economia real, as empresas estão operando com asfixia crônica de crédito e caixa, enfrentando sérias barreiras para obter recursos e rodar suas operações comerciais diárias. A inflação geral cedeu, mas a produção industrial nacional já registrou uma retração de 1,8% em junho, segundo dados do IBGE.
Quando o custo do dinheiro se mantém alto e a indústria encolhe, o consumo retrai e o crédito desaparece da praça. Com a expectativa de que a Selic encerre o ano estacionada na casa dos 13,50% a 13,75%, o alívio financeiro em 2026 será quase nulo.
Para quem lidera um negócio ou busca equilibrar o balanço em casa, a estratégia exige pragmatismo absoluto a partir de agora. É o momento exato de buscar a renegociação de passivos bancários, alongar o perfil das dívidas existentes e evitar novas captações que não possuam lastro em geração de caixa forte.
Em tempos de crédito escasso e mercado de emprego pressionado, a eficiência operacional e a gestão financeira impecável são os únicos garantidores da continuidade e sobrevivência do negócio.
*Fernando Balotin é head da área de Corporate Finance da Quartzo Capital











