Por Luciano Gioielli*
Os Estados Unidos e Israel decidiram abrir mais uma frente de guerra no Oriente Médio, desta vez contra o Irã. E, como quase sempre acontece quando o Ocidente se lança numa aventura bélica cujo fim ninguém consegue prever, o maior beneficiário não está entre os beligerantes. Está em Pequim. Nos últimos dias, os mercados globais de títulos viveram uma liquidação generalizada, elevando os custos de financiamento de governos do mundo inteiro.
Só um país nadou contra a corrente: a China, onde os juros caíram. Não foi acidente, nem sorte. Foi a prova mais recente de que, cada vez que o Ocidente escolhe a guerra como instrumento de política externa, está literalmente financiando a ascensão do seu principal rival estratégico.
A disparada dos juros globais
Comecemos pelos números, porque eles não deixam margem para interpretações complacentes. O rendimento dos títulos de 10 anos — a taxa que os governos pagam para se financiar numa janela intermediária de tempo, e por isso o melhor termômetro do mercado — está em disparada praticamente em todo lugar. Os títulos americanos saíram de pouco mais de 4% para cerca de 4,7% em seis meses. Os franceses foram de 3,2% para mais de 4%. O Japão bateu 2,95%, o maior nível desde 1996 — um número que, para quem acompanha décadas de juro zero japonês, deveria soar como alarme de incêndio, não como estatística de rodapé.
O Reino Unido flerta com 5%. Até a Alemanha, a fortaleza fiscal da Europa, viu seus rendimentos subirem de 2,8% para 3,2%. E o Brasil, fiel à sua tradição de pagar caro pela desorganização crônica, segue perto de 15%, combinando o mesmo movimento global com décadas de irresponsabilidade fiscal doméstica que os brasileiros já deveriam ter deixado de tolerar.
A exceção é a China. Enquanto o resto do planeta paga mais caro para se financiar, o rendimento dos títulos chineses de 10 anos caiu para cerca de 1,6% — metade do custo alemão, um terço do americano. Isso não é uma curiosidade estatística; é um sintoma de que algo estrutural está mudando na hierarquia financeira global, e a maioria dos formuladores de política nos países ocidentais parece não ter percebido, ou pior, prefere não encarar.
O que está por trás dessa disparada — e por que a explicação convencional não basta
É fácil, e um tanto preguiçoso, atribuir essa alta de juros a fatores locais isolados: o impasse eleitoral francês, a inflação japonesa, a estagnação alemã. Esses fatores existem, sim, mas funcionam como desculpa conveniente para não discutir a causa comum. A verdade incômoda é que a maior parte do mundo desenvolvido carrega economias envelhecidas, endividadas e sem fôlego de crescimento — e a guerra no Irã, que segue sem sinal de desfecho, está jogando lenha numa fogueira inflacionária que já estava acesa antes do primeiro míssil ser disparado.
Quando o mercado desconfia que o valor real de uma dívida está sendo corroído pela inflação, exige juros mais altos como compensação. É lógica básica de qualquer credor que não queira ser tolo.
Mas o epicentro real dessa história são os Estados Unidos, e aqui a autocrítica deveria ser mais dura do que tem sido. Os títulos do Tesouro americano funcionam como referência para o mundo inteiro; quando sobem, arrastam todos os outros. E há sobra de motivos para subirem: um déficit fiscal que ninguém em Washington parece disposto a enfrentar de verdade, dados econômicos que sugerem fraqueza, inflação teimosamente persistente. A isso se soma um ingrediente político que deveria preocupar qualquer investidor sério: os ataques recorrentes de Trump ao Federal Reserve e a indicação de Kevin Warsh para a presidência do banco central.
Warsh, historicamente um hawk convicto — daqueles que tratam inflação como inimigo público número um —, chegou a 2026 evitando sinalizar qualquer alta e recusando dar orientação clara ao mercado, essencialmente sugerindo que o Fed não precisa subir juros para conter a inflação. Um banco central que abandona sua própria ortodoxia por conveniência política não inspira confiança; inspira prêmio de risco. E é exatamente isso que os mercados estão cobrando.
Por que a China está vencendo sem fazer nada
Aqui está o ponto que mais incomoda: a China não fez nada de extraordinário para chegar a essa posição. Não lançou um plano de estímulo genial, não promoveu uma reforma revolucionária. Ela simplesmente ficou parada enquanto o Ocidente tropeçava sozinho — e isso, por si só, já deveria ser motivo de reflexão sobre a fragilidade das nossas próprias escolhas estratégicas.
À primeira vista, a resiliência chinesa parece contraintuitiva. A China é a maior importadora de petróleo do planeta; deveria estar mais exposta a qualquer choque energético ligado ao Irã, não menos. Seu PIB per capita fica entre o da Albânia e o do México, uma faixa de renda que os manuais de economia classificam como vulnerável a turbulências globais. E, ainda assim, a China contrariou o roteiro. Por quê?
Parte da resposta é estrutural e, para ser honesto, um tanto autoritária: os controles de capital do Partido Comunista Chinês isolam o país das oscilações do mercado financeiro internacional. É difícil tirar ou colocar dinheiro na China — o que, ironicamente, virou vantagem competitiva justo no momento em que o resto do mundo paga o preço da sua própria abertura e liquidez.
Mas há também competência de planejamento, algo que o Ocidente parece ter deixado de praticar. A China estocou petróleo em volumes agressivos antes da guerra começar, blindando-se de boa parte do choque nos mercados de energia. Sua matriz energética, diversificada entre carvão e renováveis, reduziu ainda mais a exposição. Enquanto isso, a economia chinesa segue crescendo entre 4% e 5%, sustentada pela demanda global por suas exportações — a mesma demanda que o Ocidente continua alimentando, aliás, sem questionar a própria dependência.
Há ainda um contraste que deveria soar como alerta e não como nota de rodapé: enquanto o mundo combate inflação, a China combate deflação, com preços praticamente estagnados nos últimos dois anos. Isso não é motivo de celebração — reflete uma demanda interna fraca e problemas estruturais próprios —, mas tem um efeito colateral conveniente: juros mais baixos, exatamente quando o resto do planeta paga mais caro para se financiar.
Um novo porto seguro
O dado mais desconfortável de toda essa história não é econômico, é geopolítico. Durante décadas, os títulos do Tesouro americano foram o porto seguro incontestável do mundo: em toda crise, o dinheiro corria para lá. Desta vez, não correu. Os títulos americanos caíram junto com o resto dos ativos de risco, evidenciando que perderam, ao menos parcialmente, esse status quase sagrado. Enquanto isso, o único mercado de títulos que se valorizou durante a guerra foi o chinês — e essa tendência persiste.
Isso não é um detalhe técnico para analistas de renda fixa debaterem em relatórios obscuros. É um sinal de que a arquitetura financeira que sustenta o poder americano há oitenta anos está sendo silenciosamente substituída, título por título, enquanto Washington segue distraído com guerras que não consegue vencer e um banco central que parece mais preocupado em agradar a Casa Branca do que em defender sua credibilidade.
A China não precisou vencer a guerra do Irã. Bastou não participar dela, cuidar da própria casa e deixar que o Ocidente fizesse o trabalho de miná-lo sozinho.
*Luciano Gioielli é analista internacional do Portal das Commodities











