Poucos municípios brasileiros conseguem transformar um fenômeno geológico raro em modelo de turismo consolidado há três séculos. Caldas Novas, no sul de Goiás, faz isso desde 1722, quando bandeirantes em busca de ouro se depararam com fontes de água morna surgindo direto do chão. Sem um único vulcão ativo nas proximidades, o município se tornou a maior estância hidrotermal do mundo, com águas que brotam entre 37 e 57 graus e recebem mais de 2 milhões de turistas por ano. A cidade fica a 170 km de Goiânia e concentra mais de 100 hotéis e parques aquáticos abastecidos pelas fontes termais.
Por que as águas de Caldas Novas brotam a 57°C sem vulcão por perto?
Segundo o Ministério do Turismo, as águas termais da região têm origem em chuvas que caíram há até mil anos sobre a Serra de Caldas. A água da chuva penetra em fissuras nas rochas sedimentares e desce por cerca de mil metros abaixo do solo, onde é aquecida pelo gradiente geotérmico natural da Terra. O processo é gradual e leva séculos para completar o ciclo entre a infiltração e o afloramento nas nascentes.
Geólogos apontam que Caldas Novas reúne uma das maiores ocorrências de águas quentes sem vínculo com vulcanismo no mundo. O fenômeno é resultado da combinação entre a estrutura geológica da Serra de Caldas e dos Aquíferos Araxá e Paranoá, que se encontram sob a cidade. A área de recarga dos lençóis termais é protegida pelo Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN), primeira unidade de conservação do estado, criada em 1970 com 12.315 hectares de Cerrado preservado. Sem essa proteção, a exploração das águas seria insustentável a longo prazo.

Como o Anhanguera descobriu as fontes em 1722?
A história oficial começa durante o ciclo do ouro. Em 1722, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva Filho, conhecido como Anhanguera, encontrou nascentes escaldantes na fralda da serra enquanto procurava metais preciosos pelo interior de Goiás. Os relatos da expedição mencionavam fontes que surpreendiam os viajantes, acostumados ao calor do Cerrado, mas não à água saindo morna direto do solo. O calor era intenso o suficiente para causar queimaduras em quem tentava banhar-se sem cautela.
As fontes ficaram esquecidas por décadas depois da expedição inicial. Em 1777, o paulista Martinho Coelho de Siqueira redescobriu as nascentes por acaso, durante uma caçada na região. A partir daí, começou o povoamento definitivo do local. A vila cresceu ao redor das águas e se emancipou de Morrinhos em 1911, tornando-se município autônomo. Por muito tempo, as fontes atraíram visitantes em busca das chamadas propriedades terapêuticas das águas, com relatos de melhora em problemas de pele, reumatismo e circulação.
Como os anos 1970 transformaram Caldas Novas em polo turístico do Cerrado?
O turismo em escala industrial começou na década de 1970, quando os primeiros hotéis com piscinas termais foram construídos. Antes disso, o acesso às águas se dava principalmente por banhos artesanais em fontes naturais espalhadas pela cidade. O modelo de resort com piscinas aquecidas por poços monitorados transformou a economia local e virou padrão replicado em toda a região. Segundo dados oficiais, os poços que abastecem hotéis e parques aquáticos são fiscalizados em tempo real por órgãos técnicos estaduais e federais.
Hoje, Caldas Novas concentra mais de 100 hotéis e vários parques aquáticos, com destaque para o Water Park e o diRoma Acqua Park. A cidade vizinha de Rio Quente, a 25 km, abriga o maior rio de águas naturalmente quentes do planeta, com vazão de 150 milhões de litros por dia. O Hot Park, também em Rio Quente, guarda a Praia do Cerrado, considerada a maior piscina de águas quentes do mundo, com 6 milhões de litros de capacidade. Juntas, as duas cidades formam o polo hidrotermal do Cerrado.

Quais atrações compõem o roteiro além dos parques aquáticos?
Além das piscinas termais, a cidade oferece cachoeiras de água fria, mirantes e patrimônio histórico. Confira os principais pontos:
- Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN): primeira UC de Goiás, com 12.315 hectares, cachoeiras de água fria e mirantes acima de mil metros.
- Hot Park: em Rio Quente, com a Praia do Cerrado, maior piscina de águas quentes do mundo.
- Water Park: em Caldas Novas, com toboáguas e piscinas termais.
- diRoma Acqua Park: parque ligado a um dos maiores complexos hoteleiros da cidade.
- Igreja Nossa Senhora das Dores: construída em 1850, tombada como patrimônio histórico estadual.
- Casarão dos Gonzaga: uma das casas mais antigas da cidade, erguida em 1907.
- Represa de Corumbá: espelho d’água para passeios de barco e esportes náuticos.
- Cachaçarias e alambiques: cidade tem longa tradição na produção de cachaça artesanal.
Este vídeo do canal 3em3, com 987 mil visualizações, apresenta um guia rápido dos principais parques e atrativos turísticos em Caldas Novas, Goiás.
Como é o clima em Caldas Novas ao longo do ano?
Caldas Novas tem clima tropical de savana, típico do Cerrado, com duas estações bem definidas: chuvosa (outubro a março) e seca (abril a setembro). O contraste entre a água termal e o ar seco do inverno é uma das experiências mais procuradas. Confira abaixo como se comporta o clima da cidade ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas em Caldas Novas com base no Climatempo. As condições podem variar em função de fenômenos como El Niño e La Niña, e vale consultar a previsão atualizada antes da viagem.
Como chegar a Caldas Novas?
De Goiânia, o trajeto tem cerca de 170 km e leva aproximadamente duas horas e meia pela BR-153 e GO-139. De Brasília, a distância é de 300 km pela BR-050. O Aeroporto Nelson Ribeiro Guimarães, a 7 km do centro, recebe voos sazonais de São Paulo, Belo Horizonte e outras capitais. O Aeroporto Internacional Santa Genoveva, em Goiânia, concentra as principais rotas nacionais. Vans e transfers cobrem o trajeto Goiânia-Caldas Novas em horários regulares durante o dia.
Uma cidade sustentada pela chuva de mil anos atrás
Caldas Novas construiu, ao longo de três séculos, um dos modelos mais consolidados de turismo termal do mundo. As mesmas fontes escaldantes que surpreenderam o Anhanguera em 1722 continuam abastecendo os hotéis e parques aquáticos da cidade, alimentadas pela chuva que caiu há centenas de anos sobre a Serra de Caldas. O Parque Estadual da Serra de Caldas Novas, criado em 1970, garante que a área de recarga dos lençóis termais permaneça preservada, o que impede a exaustão do sistema. A combinação entre fenômeno geológico raro, controle técnico dos poços e infraestrutura hoteleira faz da cidade goiana um dos raros destinos brasileiros que funciona plenamente o ano inteiro, com água quentinha em qualquer estação.











