Por Adriano Romero*
A transformação dos meios de pagamento no Brasil criou uma tecnologia financeira muito mais rápida, integrada e inteligente do que existia poucos anos atrás. O avanço do Pix, a expansão do uso de cartões e a digitalização dos serviços financeiros mudaram a forma como empresas e consumidores movimentam recursos.
Dados do Banco Central mostram a dimensão dessa mudança: no primeiro semestre de 2025, foram realizadas 72,5 bilhões de transações de pagamento no país, movimentando R$ 59,7 trilhões, crescimento de 15,2% na quantidade de operações e 14,5% no volume financeiro em relação ao mesmo período do ano anterior.
Essa evolução resolveu uma parte importante do desafio financeiro das empresas. Hoje, organizações conseguem realizar pagamentos de forma instantânea, acompanhar transações digitalmente e acessar informações com muito mais velocidade. O ponto é que essa transformação avançou principalmente na etapa da movimentação financeira, enquanto a gestão desses recursos ainda permanece, em muitos casos, baseada em processos construídos para uma realidade anterior.
Uma empresa pode ter pagamentos digitais, mas continuar dependendo de aprovações manuais, planilhas e análises posteriores para entender como o dinheiro está sendo utilizado. Esse descompasso entre a velocidade da operação e a capacidade de governança financeira se torna mais evidente conforme as empresas crescem. O aumento do número de fornecedores, colaboradores, áreas e centros de custo exige uma estrutura capaz de acompanhar decisões descentralizadas sem criar complexidade desnecessária.
Modelos tradicionais de controle foram desenvolvidos em um cenário no qual informações demoravam mais para circular e poucas pessoas concentravam decisões financeiras. Hoje, eles frequentemente colocam o financeiro em uma posição de explicar o passado, quando deveria estar ajudando a orientar decisões futuras.
Na prática, muitas organizações ainda tratam despesas como eventos isolados. Um colaborador realiza uma compra, uma área aprova um pagamento ou um fornecedor é contratado, e somente depois essas informações são consolidadas para análise. Esse modelo reduz a capacidade da empresa de agir no momento em que a decisão acontece e limita o aproveitamento estratégico dos dados gerados pelas próprias transações.
O desafio não é apenas saber quanto foi gasto, mas compreender o contexto daquela decisão: quem realizou a compra, qual área foi responsável, qual fornecedor esteve envolvido e como aquele recurso se relaciona com os objetivos do negócio.
É nesse ponto que o cartão corporativo precisa ser repensado. Durante muito tempo, ele foi tratado apenas como uma ferramenta para substituir pagamentos em dinheiro ou concentrar despesas em uma fatura mensal. Essa visão ficou limitada diante de uma realidade em que dados passaram a ter um papel central na gestão empresarial. Uma transação financeira não representa apenas uma saída de caixa, mas uma fonte de informações sobre fornecedores, áreas responsáveis, categorias de consumo e prioridades da organização. Quando esses dados são utilizados de forma inteligente, o pagamento deixa de ser apenas uma operação financeira e passa a contribuir para uma gestão mais clara, previsível e estratégica.
O que vemos no mercado é que a demanda das organizações deixou de ser apenas por meios de pagamento mais modernos. Empresas precisam de soluções capazes de conectar pagamentos, dados e regras de negócio, permitindo automatizar processos, aumentar a rastreabilidade das movimentações e dar mais visibilidade para as decisões financeiras.
O desafio atual não está na ausência de controles, mas na forma como muitas empresas ainda tentam aplicá-los. Durante anos, a governança financeira esteve associada à criação de mais etapas de aprovação, mais conferências e mais restrições. Esse modelo ajudou a reduzir riscos, mas também aumentou a complexidade operacional. A tecnologia permite uma abordagem mais eficiente, na qual políticas e critérios de utilização fazem parte do próprio fluxo financeiro, permitindo que a empresa tenha autonomia sem perder controle sobre seus recursos.
Essa mudança acompanha uma transformação maior do setor financeiro. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025 mostra que os bancos brasileiros seguem ampliando investimentos em inteligência artificial, analytics, automação e computação em nuvem, reforçando que a capacidade de transformar dados em eficiência operacional será cada vez mais relevante para a competitividade. A mesma lógica precisa avançar para dentro das empresas.
O futuro da gestão financeira corporativa não será definido apenas pela capacidade de realizar pagamentos digitais. Essa etapa já aconteceu. O próximo avanço está em transformar cada transação em uma fonte confiável de informação e cada informação em uma decisão melhor sobre os recursos da empresa. Para isso, pagamentos, dados e processos precisam funcionar de forma integrada, criando uma tecnologia financeira capaz de acompanhar a complexidade dos negócios em crescimento.
Essa evolução também muda o papel do financeiro dentro das organizações. A área deixa de ser apenas responsável por registrar despesas, fazer conciliações e garantir conformidade depois que as decisões foram tomadas. Com informações disponíveis no momento certo, o financeiro pode atuar de forma mais estratégica, contribuindo para eficiência, planejamento e melhor alocação de recursos.
Crescer exige movimento, mas esse movimento precisa ser acompanhado de clareza, controle e consistência. A próxima etapa da transformação financeira corporativa não será apenas sobre realizar pagamentos com mais velocidade, mas sobre permitir que empresas tomem decisões melhores a partir dos dados gerados por cada operação.
O cartão corporativo, nesse contexto, deixa de ser apenas um instrumento de pagamento e passa a fazer parte de uma estrutura mais ampla de gestão financeira. O valor não está apenas no pagamento realizado, mas na capacidade de conectar transações, informações e estratégia para que empresas possam operar com mais previsibilidade e avançar em escala.
*Adriano Romero, diretor de produto do Stark Bank











