Por Joana Moreira*
Ao longo de mais de duas décadas de carreira, boa parte delas em ambientes predominantemente masculinos, aprendi a reconhecer um padrão que se repete com frequência preocupante: mulheres altamente qualificadas que entregam resultados consistentes, mas que não necessariamente se colocam como candidatas às próximas posições de liderança. Não é falta de competência. É uma questão de posicionamento.
Os números confirmam o que observo no dia a dia. De acordo com o Panorama Mulheres, realizado pelo Talenses Group em parceria com o Insper, as mulheres ocupam 30% das posições de diretoria nas empresas brasileiras, mas representam apenas 20% das vice-presidências e 17% das presidências. A participação feminina diminui à medida que o nível hierárquico aumenta, e isso me leva a uma pergunta que considero central: o que, de fato, impede profissionais preparadas de avançarem na carreira?
Muitas mulheres ainda acreditam que, depois de anos entregando bons resultados, alguém vai reconhecer seu esforço, fazer um convite especial e dizer que chegou a hora. Isso acontece, mas é exceção, não regra. Promoção não é prêmio por bom comportamento. É uma decisão de negócio. E, ao observar minha própria trajetória e a de tantas outras profissionais, identifiquei cinco erros que considero determinantes nesse processo e que compartilho aqui para quem também busca transformar competência em posicionamento estratégico.
Romantizar a promoção
Por muito tempo, acreditei como muitas mulheres ainda acreditam que bons resultados e anos de dedicação seriam suficientes para que uma promoção acontecesse naturalmente. Hoje entendo que é preciso assumir um papel mais ativo na construção da própria carreira.
Promoção não é prêmio por bom comportamento. É uma decisão de negócio. Se você quer participar dessa decisão, precisa se colocar como candidata, falar sobre carreira, comunicar seus resultados e entender os critérios do próximo nível.
Esperar estar 100% pronta
O perfeccionismo e o medo de errar nos levam, muitas vezes, a adiar oportunidades por acreditarmos que ainda precisamos dominar todas as competências exigidas por uma nova posição.
Existe uma diferença enorme entre estar preparada e dominar 100% das competências de uma posição. Algumas mulheres esperam receber autorização para ocupar um espaço que já têm competência para disputar. O problema é que oportunidades têm timing.
Confundir competência com visibilidade
Entregar bons resultados não significa, necessariamente, ser percebida como uma profissional pronta para liderar. Percebo isso o tempo todo: mulheres extremamente competentes que sabem explicar muito bem o que fizeram, mas têm dificuldade de explicar o valor que geraram.
Relatamos atividades, não impacto. Aprendi que reconhecer o próprio valor não é arrogância. É responsabilidade sobre a própria carreira.
Tratar relacionamento como algo circunstancial
Por muito tempo, tratei o networking como algo que só valia a pena ativar quando surgia uma vaga. Mudei de perspectiva ao entender que relações de carreira precisam ser construídas antes da oportunidade existir. Isso significa desenvolver relações intencionais com pares, líderes, mentores e, principalmente, sponsors pessoas que falam por você em ambientes onde você não está presente.
Aceitar o papel de quem resolve tudo
Ser a pessoa que sempre resolve problemas me trouxe reconhecimento por muito tempo, mas também me manteve presa a uma percepção operacional. Por isso, hoje faço a mim mesma e recomendo que outras mulheres façam uma pergunta simples: indispensável para quê? Se toda a sua reputação está construída em torno da capacidade de executar, resolver urgências e cuidar dos outros, você pode estar reforçando justamente a percepção que dificulta sua movimentação para uma posição estratégica.
*Joana Moreira é executiva de RH com atuação regional na América Latina e reconhecida entre as Top 50 Female Leaders Brazil 2026











