Por Wesley Ribeiro*
Há um fenômeno curioso no ecossistema empreendedor brasileiro: a romantização do mercado norte-americano. Aprendemos a olhar para os Estados Unidos como a meca dos negócios, como um ambiente onde a segurança jurídica, o crédito abundante e a previsibilidade parecem desenhar o cenário perfeito para o sucesso.
No entanto, a experiência de empresas e empreendedores que atuam em mercados maduros demonstra que a realidade é mais complexa. O mercado americano é excelente, organizado e previsível, mas também é saturado, maduro e marcado por uma competição intensa, com margens frequentemente pressionadas por grandes empresas já consolidadas.
Onde existe uma ordem consolidada e elevada competitividade, sobra pouco espaço para capturar ineficiências e construir novos mercados. Ganhos que podem levar anos para serem consolidados sob as margens apertadas de economias hiperdesenvolvidas, muitas vezes podem ser alcançados em prazos menores em mercados emergentes. E é aqui que o Brasil se mostra vantajoso.
Não se trata de ignorar o famigerado “Custo Brasil”. A complexidade tributária, a volatilidade econômica e os gargalos de infraestrutura são reais e cobram seu preço diariamente. Contudo, o erro de muitos executivos e investidores é olhar para o Custo Brasil apenas como um obstáculo intransponível, e não como uma gigantesca barreira de entrada que protege quem aprende a navegar nessas águas.
Em mercados em desenvolvimento, cada ineficiência não resolvida representa uma demanda reprimida de bilhões esperando por uma solução eficiente. A história de diferentes setores da economia brasileira mostra que muitos negócios de grande escala surgiram justamente da capacidade de identificar gargalos históricos e transformá-los em soluções, serviços e novos mercados.
Essa lógica se torna ainda mais evidente em períodos de instabilidade. Momentos de crise econômica, mudanças regulatórias e transformações no comportamento do consumidor frequentemente aceleram a busca por novas soluções e abrem espaço para empresas capazes de combinar leitura de mercado, capacidade de execução e gestão de riscos.
Os grandes ciclos de crescimento empresarial nem sempre surgem em cenários de estabilidade absoluta. Muitas vezes, são construídos justamente quando empresas conseguem identificar uma oportunidade em meio à complexidade e desenvolver uma operação capaz de atender a uma demanda ainda pouco explorada.
A lição que fica é direta: o Brasil não é para amadores, mas é indiscutivelmente um dos terrenos mais férteis para quem combina tecnologia, disciplina executiva e compliance.
A inovação no mercado americano costuma ser incremental (a melhoria de algo que já funciona bem). No Brasil, há espaço para uma inovação mais transformadora, inclusiva e fundacional. Significa criar mercados, democratizar o acesso a serviços essenciais e resolver dores históricas do consumidor e das empresas.
Para o empreendedor que cogita deixar o País em busca de águas mais calmas, vale uma reflexão pragmática: antes de buscar novos mercados, é importante considerar o valor do conhecimento acumulado sobre o ambiente local, das relações construídas ao longo do tempo e da compreensão das particularidades culturais e econômicas de cada região.
Esses ativos intangíveis podem representar uma vantagem competitiva difícil de ser reproduzida em mercados estrangeiros, especialmente para empresas que ainda estão em fase de expansão e consolidação.
O mar calmo dos mercados maduros pode parecer atraente na superfície, mas é no mar agitado das economias em transformação que os verdadeiros impérios de negócios são construídos.
*Wesley Ribeiro é fundador e CEO da Liberty Card











