Por Carlos Pereira*
Google, Microsoft, Apple, Meta e Amazon nasceram de negócios muito diferentes, mas chegaram ao topo seguindo uma lógica semelhante: nenhuma delas permaneceu limitada ao produto que a tornou conhecida. Mais do que criar ferramentas de sucesso, essas empresas aprenderam a transformar produtos em plataformas e plataformas em ecossistemas. Agora, com o avanço da inteligência artificial, essa estratégia entra em uma nova fase.
A busca do Google abriu caminho para publicidade, Android, YouTube e serviços de nuvem. A Microsoft expandiu sua atuação do Windows e do Office para o Azure. A Apple construiu ao redor do iPhone um ecossistema de dispositivos e serviços. A Amazon partiu do comércio eletrônico e transformou a infraestrutura criada para sustentar sua operação em um dos maiores negócios de computação em nuvem do mundo. A Meta, por sua vez, ampliou seu alcance com aquisições como Instagram e WhatsApp.
O ponto em comum não está apenas na diversificação. Essas companhias construíram uma combinação difícil de reproduzir: escala global, grandes volumes de dados e capacidade de investir continuamente em tecnologia. Também souberam entrar em mercados próximos antes que seus negócios originais perdessem relevância. Em tecnologia, talvez um dos maiores riscos seja acreditar que o produto responsável pelo sucesso de hoje continuará sendo suficiente amanhã.
Os dados tiveram papel fundamental nesse processo. Cada busca, clique, compra ou tempo dedicado a determinado conteúdo ajuda a revelar o comportamento dos consumidores de uma forma que pesquisas tradicionais, sozinhas, dificilmente conseguiriam. É a diferença entre perguntar o que alguém prefere e observar o que essa pessoa efetivamente faz. Testes A/B e análises de comportamento fazem parte do marketing digital há anos. A inteligência artificial acrescenta escala e velocidade a essa lógica, permitindo identificar padrões, antecipar comportamentos e personalizar experiências para milhões de usuários.
Não surpreende, portanto, que a IA tenha se tornado uma das principais frentes de investimento dessas empresas. E essa corrida não se resume a desenvolver o modelo mais avançado. Ela envolve assistentes, agentes capazes de executar tarefas, chips, data centers, infraestrutura em nuvem e até a energia necessária para sustentar uma capacidade crescente de processamento. Ao mesmo tempo, seguem as apostas em dispositivos vestíveis, saúde digital e computação quântica.
Isso não significa que toda visão de futuro apresentada pelas gigantes necessariamente se concretizará. O metaverso mostrou como uma tecnologia pode atrair investimentos bilionários e expectativas enormes sem alcançar, ao menos no ritmo inicialmente imaginado, a adoção esperada. Ter capital, dados e escala aumenta a capacidade de experimentar, mas não elimina o risco de errar.
A inteligência artificial, no entanto, tem potencial para provocar uma mudança particularmente relevante: tornar nossa relação com a tecnologia menos dependente de interfaces. Hoje, ainda precisamos abrir um aplicativo para fazer uma compra, outro para organizar compromissos e outros tantos para cuidar das finanças, trabalhar ou consumir conteúdo. Com assistentes e agentes de IA, essa dinâmica tende a mudar. Em vez de escolher a ferramenta e executar cada etapa, poderemos simplesmente indicar o que queremos alcançar.
Um assistente poderá organizar compromissos, realizar compras, acompanhar despesas ou ajudar no monitoramento da saúde. E essa interação não deverá permanecer restrita ao smartphone. Óculos, fones, carros, relógios e dispositivos presentes nas casas podem se tornar pontos permanentes de contato com esses sistemas. A tecnologia tende, assim, a ficar mais presente justamente ao se tornar menos perceptível.
Essa conveniência também traz uma contrapartida. Quanto mais um sistema conhece nossa rotina e consegue agir em nosso nome, maior é a quantidade de informações necessária para que isso aconteça. Privacidade, segurança e transparência deixam de ser discussões paralelas e passam a fazer parte do próprio funcionamento desses serviços. O mesmo vale para a concorrência: se poucas plataformas passarem a intermediar grande parte das nossas decisões digitais, o poder concentrado nesses ecossistemas também tende a aumentar.
A história das big techs mostra que as grandes transformações raramente terminam no produto que deu origem a uma empresa. O verdadeiro salto acontece quando esse produto se torna a porta de entrada para um ecossistema.
Com a inteligência artificial, podemos estar diante de uma nova etapa desse movimento. A próxima disputa não será apenas por quem terá o melhor modelo de IA, mas por quem conseguirá ocupar a camada que conecta pessoas, dados, serviços e decisões.
*Carlos Pereira é Co-fundador e COO da Draiven.










