Por Paulo Antunes*
Crescer é uma ambição da maioria das empresas. A forma como esse crescimento será financiado, porém, é uma decisão muito mais estratégica do que parece. Em um ambiente em que o crédito continua seletivo e o capital está mais caro, optar entre utilizar recursos próprios, recorrer ao endividamento ou buscar novos investidores pode definir não apenas a velocidade da expansão, mas também a capacidade da empresa de gerar valor no longo prazo.
Nos últimos anos, tornou-se comum associar crescimento à captação de recursos. Muitos empresários iniciam conversas com bancos ou investidores acreditando que esse é o primeiro passo para expandir a operação. Na prática, essa lógica costuma estar invertida. Antes de discutir de onde virá o dinheiro, é preciso entender se a estratégia realmente exige capital adicional ou se existem oportunidades para financiar o crescimento por meio da própria operação, aumentando a eficiência, melhorando a gestão do caixa ou revisando a estrutura financeira da empresa.
Os números ajudam a contextualizar esse cenário. Segundo o Banco Central, o saldo das operações de crédito destinadas às empresas superou R$ 2,5 trilhões em 2025, demonstrando que o financiamento continua sendo um importante instrumento para impulsionar investimentos e expansão. Ao mesmo tempo, o patamar das taxas de juros faz com que cada decisão de financiamento tenha um impacto relevante sobre a rentabilidade do negócio, exigindo uma análise muito mais criteriosa do que em ciclos anteriores.
Esse mesmo movimento pode ser observado no mercado de investimentos. De acordo com a ABVCAP, os fundos de private equity e venture capital seguem com recursos disponíveis para investir, mas adotam critérios cada vez mais rigorosos na seleção das empresas. Hoje, a disponibilidade de capital não é o principal desafio. O que diferencia uma empresa é sua capacidade de demonstrar governança, previsibilidade de resultados, disciplina financeira e uma estratégia consistente de crescimento.
Isso significa que captar recursos deixou de ser um objetivo e passou a ser uma consequência. Empresas que conseguem crescer utilizando a própria geração de caixa, combinada com uma estrutura de capital equilibrada, normalmente chegam ao mercado em uma posição mais favorável. Elas preservam participação societária, reduzem custos financeiros e ampliam seu poder de negociação caso decidam, no futuro, incorporar um investidor ou realizar uma operação de mercado.
Naturalmente, existem situações em que a captação faz todo o sentido. Projetos de expansão acelerada, entrada em novos mercados, aquisições estratégicas ou investimentos relevantes em tecnologia frequentemente exigem recursos que ultrapassam a capacidade de autofinanciamento da empresa. Nessas circunstâncias, buscar capital pode ser a decisão correta, desde que exista clareza sobre como esses recursos contribuirão para aumentar a geração de valor do negócio e produzir retorno superior ao custo desse capital.
O erro mais recorrente acontece quando a empresa inicia a busca por recursos antes mesmo de definir sua estratégia. É relativamente comum encontrar organizações que procuram investidores sem uma tese clara de crescimento ou que contratam financiamentos sem avaliar se existem alternativas mais eficientes para alcançar o mesmo objetivo. Quando isso acontece, o capital deixa de ser um instrumento estratégico e passa a representar apenas uma solução temporária para limitações que, muitas vezes, poderiam ser resolvidas com melhorias operacionais ou financeiras.
A definição da estrutura de capital deve acompanhar o estágio de maturidade da empresa, seus objetivos e sua capacidade de execução. Não existe uma fórmula única que funcione para todos os negócios. O que existe é a necessidade de compreender qual combinação entre geração de caixa, crédito e capital de terceiros faz mais sentido para sustentar o crescimento sem comprometer a saúde financeira da organização.
No fim, empresas bem-sucedidas não são aquelas que captam mais recursos, mas aquelas que conseguem utilizar o capital da forma mais inteligente. Quando a estratégia vem antes da captação, as decisões financeiras passam a fortalecer o negócio, aumentar sua competitividade e criar as condições para um crescimento sustentável ao longo do tempo.
*Paulo Antunes é Executive Partner da Garza











