Por Fernando Balotin*
O Comitê de Política Monetária (Copom) confirmou nesta quarta-feira a redução da Selic em 0,25 p.p., ajustando a taxa para 14% ao ano. O movimento já estava amplamente precificado nos vértices curtos da curva de DI Futuro na B3. No entanto, ao observar os vértices intermediários e longos da curva de juros, fica claro que o mercado continua cobrando um prêmio de risco elevado. O consenso erra ao precificar um ambiente de pouso suave prolongado e ignora uma assimetria de risco fundamental para 2027, que é a deterioração estrutural da atividade econômica doméstica.
Quando alertamos sobre essa deterioração da economia real, os dados oficiais corroboram a tese. A Pesquisa Industrial Mensal do IBGE revelou uma queda aguda de 1,8% na produção industrial em junho de 2026. No varejo, o volume de vendas também tem patinado nos últimos meses, refletindo o esgotamento da renda das famílias. Em linha com as revisões do Boletim Focus, aponta que o avanço do PIB deve ficar entre 1,20% e 1,50% no próximo ano.
O mercado de trabalho também emite sinais vitais de acomodação. Os dados mais recentes do Novo Caged, divulgados pelo Ministério do Trabalho, mostraram a criação líquida de pouco mais de 145 mil vagas formais em junho de 2026. Embora o número da manchete seja positivo, a abertura setorial e a forte pressão do custo de capital sinalizam uma exaustão na capacidade das empresas de continuarem expandindo a folha de pagamento.
Pressionado por essa retração no investimento produtivo e pela demanda restrita, o hiato do produto positivo que vinha sustentando os preços tende a diminuir nos próximos trimestres.
Sob a ótica de Corporate Finance e do mercado de Fusões e Aquisições (M&A), o cenário exige um alerta máximo para a estrutura de capital das companhias. As empresas enfrentam extrema dificuldade para acessar novos recursos financeiros. O custo da dívida continua estrangulando o capital de giro e inviabilizando projetos de expansão.
Além disso, os choques de oferta globais mantêm o risco inflacionário latente no curto prazo. Isso deve limitar o espaço para cortes agressivos, mantendo a Selic na casa dos 13,50% a 13,75% para o fim deste ano.
Para as teses de investimento, análises de valuation ou processos de M&A, a recomendação é ajustar as taxas de desconto para um cenário de liquidez restrita e crescimento tímido. O volume de transações de M&A só deve se sustentar onde o comprador possui caixa forte e o alvo precisa de reestruturação imediata. O foco das companhias não deve ser a alavancagem irresponsável, mas sim a reestruturação ágil do passivo e a preservação rigorosa do fluxo de caixa.
*Fernando Balotin é head da área de Corporate Finance da Quartzo Capital











