Por Michel Jasper*
O setor varejista alimentar vive uma contradição perigosa. A obsessão constante pelo faturamento diário e pelo aumento desenfreado no volume de vendas tem mascarado perdas operacionais gravíssimas, comprometendo de forma silenciosa a rentabilidade real dos negócios. De acordo com o Ranking ABRAS 2026, o varejo alimentar movimentou impressionantes R$1,14 trilhão no último ano. No entanto, focar apenas nos números astronômicos registrados no caixa deixou de ser suficiente.
Conforme revela a 9ª Pesquisa Abrappe de Prevenção de Perdas no Varejo Brasileiro, o prejuízo com perdas operacionais e furtos atingiu R$42,1 bilhões no mesmo período. Para se ter ideia, se esse desperdício fosse uma empresa, seria a quarta maior varejista alimentar do país. A busca incessante por vender mais cega os gestores para esse ralo financeiro invisível que corrói o lucro líquido todos os dias.
Muitos acreditam que a prateleira abarrotada é sinônimo automático de sucesso, mas é exatamente nos detalhes não monitorados da execução que a margem de lucro se esvai. Um dado alarmante da mesma pesquisa da Abrappe mostra que, enquanto o faturamento do setor cresceu 6,4%, o impacto financeiro das perdas saltou 15,3%, evidenciando uma deterioração real na eficiência das companhias.
Produtos que vencem na área de vendas, excesso de trabalho manual e rupturas de exposição são exemplos clássicos dessa ineficiência. Quando a operação física não acompanha o planejamento comercial de ponta a ponta, cria-se o que chamo de estoque invisível, uma mercadoria parada que não gera receita, mas produz custos pesados e desperdícios inaceitáveis.
A resposta para essa crise crônica de rentabilidade não está em tentar atrair mais tráfego a qualquer custo ou realizar promoções agressivas que esmagam ainda mais as margens. A solução reside em dominar o que defino como a microfísica da loja. Trata-se de uma análise estratégica e minuciosa de cada centímetro da operação física. O verdadeiro ganho financeiro está escondido na capacidade de conectar a inteligência de dados à execução impecável no ponto de venda. Sem esse controle rigoroso, o produto não gira no tempo adequado e o lucro simplesmente desaparece antes mesmo que o consumidor tome a decisão de compra.
Transformar a eficiência operacional interna em uma prioridade absoluta de negócios é a única saída sustentável para proteger as finanças das redes varejistas. Apesar dessa urgência, o levantamento da ABRAS aponta que apenas 49,9% das empresas utilizam soluções digitais ou automatizadas na operação física de suas lojas, e limitados 21% adotam algum tipo de inteligência artificial.
Para mudar esse jogo, é fundamental abandonar o amadorismo do controle visual e abraçar a transformação digital, integrando os sistemas de gestão com ferramentas práticas voltadas à execução na loja. Automatizar processos complexos permite que as equipes troquem horas de trabalho manual por decisões rápidas e orientadas por dados reais. O uso de tecnologia aplicada ao chão de loja deixou de ser um luxo e se tornou a principal barreira de proteção contra prejuízos disfarçados de faturamento.
Ao conectar a estratégia corporativa à realidade diária da prateleira, conseguimos reverter o cenário de perdas e transformar o supermercado em um ambiente de alta performance. O varejo moderno, resiliente e lucrativo, pertence aos gestores que entendem uma premissa fundamental: a verdadeira vitória não se mede pela ilusão de uma gôndola excessivamente cheia ou pelo volume bruto transacionado no fechamento do dia, mas pela excelência silenciosa e estruturada que garante lucro real no fechamento do mês.
*Michel Jasper é CEO e Fundador da Web Jasper











