Por Luiz Fialho*
Existe uma forma simples de identificar se uma área financeira ainda opera de maneira reativa: basta perguntar quanto tempo depois do final do mês ela leva para confiar nos próprios números. Se a resposta envolve dias conciliando planilhas, validando informações entre sistemas e reconstruindo dados antes de qualquer decisão, o problema não está na tecnologia utilizada, mas na forma como a informação é gerida: fechamentos que só ficam prontos semanas depois, planilhas conhecidas por poucas pessoas, indicadores que mudam de versão antes de chegar à diretoria. É uma operação voltada para explicar o passado, quando o mercado exige decisões em tempo real.
Esse modelo, que já era desconfortável antes, está prestes a ficar insustentável. E o gatilho tem nome, prazo e está mais perto do que parece: a reforma tributária. A promessa de simplificação, menos tributos, fim da cumulatividade, mais previsibilidade, é real, mas só se cumpre quando a transição estiver concluída; até lá, as empresas vão conviver com o sistema atual e o novo IVA Dual em paralelo, além da não cumulatividade ampla e do split payment. Na prática, isso significa mais controles, mais rastreabilidade e uma dependência muito maior da qualidade dos dados.
A complexidade, portanto, não desaparece. Ela apenas muda de natureza. O desafio deixa de estar na interpretação da legislação e passa a depender da qualidade, da rastreabilidade e da consistência dos dados, aí é que mora o maior problema.
Muitas empresas ainda tratam a reforma como um projeto fiscal ou, no máximo, de tecnologia. Na realidade, é uma transformação baseada em dados. Sem governança da informação, nenhum sistema entrega conformidade, eficiência ou segurança operacional. As grandes companhias já iniciaram diagnósticos e boa parte do mercado, especialmente empresas de médio porte, ainda olham para 2033 como se houvesse tempo de sobra.
É comum encontrar organizações que dominam os detalhes da nova legislação, mas não conseguem explicar com segurança a origem dos dados que alimentarão a nova apuração. A lei está compreendida, mas o dado continua desorganizado.
Existe ainda uma percepção equivocada de que o risco é proporcional ao tamanho da empresa. Não é. O fator determinante é o grau de organização das informações.
Empresas com elevado volume de transações, processos descentralizados e forte dependência de controles paralelos estão mais expostas, independentemente do faturamento. Em muitos casos, grandes organizações carregam sistemas legados, integrações complexas e bases fragmentadas por anos de aquisições e mudanças organizacionais, tornando a adaptação ainda mais desafiadora.
Setores como varejo, distribuição, indústria e serviços com grande volume de documentos fiscais tendem a sentir esse impacto primeiro. A régua que separa quem está preparado de quem não está é simples: quanto maior a dependência de planilhas para explicar indicadores críticos do negócio, maior será a exposição aos riscos da nova dinâmica tributária.
A grande mudança trazida pela reforma é que dados inconsistentes deixam de representar apenas um problema operacional e passam a impactar diretamente o caixa das empresas. Na prática, um crédito tributário mal documentado pode deixar de ser aproveitado, elevando desnecessariamente a carga tributária. Da mesma forma, créditos apropriados sem respaldo suficiente podem gerar autuações, multas e passivos fiscais. Com o split payment, esses efeitos deixam de aparecer meses depois e passam a impactar imediatamente o fluxo financeiro.
As empresas que mais atrasam essa transição costumam repetir três erros. O primeiro é acreditar que 2033 representa o verdadeiro prazo da reforma, quando, na realidade, os impactos começam muito antes. O segundo é investir na parametrização de sistemas antes de organizar a qualidade dos dados que irão alimentá-los. O terceiro é não definir uma liderança clara e responsável pela transformação. A reforma costuma ser acompanhada por diversas áreas, mas poucas empresas estabelecem quem, de fato, responderá pelo sucesso da implementação.
Existe ainda um quarto risco, mais silencioso: desperdiçar 2026. Esse ano será uma oportunidade única para testar processos e validar informações antes que os impactos financeiros da nova legislação sejam efetivos. Nesse contexto, a inteligência artificial pode acelerar conciliações, identificar inconsistências e aumentar a eficiência operacional. Mas ela não resolve problemas estruturais. Sem governança, a IA apenas automatiza erros. Com dados confiáveis, torna o financeiro mais estratégico.
Por isso, o papel do CFO também muda. A qualidade da informação deixa de ser uma preocupação exclusiva da tecnologia e passa a integrar o centro da estratégia financeira. Preparar-se para a reforma significa revisar processos, organizar dados e criar uma fonte única de verdade para toda a empresa.
Os impactos vão muito além de multas ou autuações. O maior risco é silencioso: perder créditos tributários, reduzir margens e comprometer a competitividade sem perceber imediatamente a origem do problema. Em contrapartida, as empresas que fizerem esse dever de casa terão fechamentos mais rápidos, melhor aproveitamento dos créditos e decisões mais ágeis.
O prazo crítico já começou. Os efeitos da nova legislação começam a aparecer a partir de 2026 e 2027 — quando a CBS passa a substituir integralmente PIS e Cofins —, e quem deixar a preparação para depois terá de estrear no novo sistema sem período de adaptação.
No fim, não será a complexidade da reforma que pegará muitas empresas desprevenidas. Será a baixa qualidade dos dados que sustentam sua operação financeira. Mais do que uma mudança tributária, a reforma representa uma transformação na forma como as empresas produzem, organizam e utilizam informações — e é isso que fará a diferença entre um financeiro reativo e um financeiro verdadeiramente estratégico.
*Luiz Fialho é CFO e Chief AI Officer da Dattos











