Por Ricardo Giudice*
As Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) construíram uma reputação sólida no Brasil, e não foi por acaso. Estamos falando de um setor que administra mais de R$ 1,3 trilhão em ativos, desempenhando um papel estratégico na formação da poupança de longo prazo do país e na proteção financeira de milhões de trabalhadores e aposentados.
Segundo dados do Relatório Gerencial de Previdência Complementar do Ministério da Previdência, os ativos das EFPCs representam uma parcela relevante do patrimônio previdenciário nacional e seguem crescendo de forma consistente. Esse patrimônio, no entanto, não é apenas financeiro. Existe outro ativo igualmente valioso e que começa a ganhar protagonismo, que é a confiança do participante.
Historicamente, o setor concentrou seus esforços em temas fundamentais como governança, compliance, gestão de riscos, controles atuariais e performance dos investimentos. Essa evolução foi decisiva para consolidar a credibilidade do sistema.
A atuação da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (PREVIC), somada ao trabalho da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (ABRAPP), na disseminação de boas práticas e no fortalecimento institucional do segmento, ajudou a construir um ambiente reconhecido pela responsabilidade e pela visão de longo prazo.
Quando a comparação deixa de ser com outros fundos
Uma nova realidade está surgindo: o participante de uma entidade fechada já não compara sua experiência apenas com a de outros fundos de pensão, mas com a interação com sua previdência, a experiência que tem com bancos digitais, aplicativos de mobilidade, plataformas de streaming e marketplaces.
Quando precisa consultar saldo, atualizar dados cadastrais, acompanhar uma solicitação ou entender as opções disponíveis para seu plano, ele espera a mesma facilidade encontrada em qualquer serviço digital moderno, como rapidez, autonomia e transparência. E é justamente aí que surge um dos maiores desafios estratégicos das EFPCs para os próximos anos.
Durante muito tempo, a excelência do setor foi medida principalmente pela qualidade da gestão dos recursos financeiros. Esse continuará sendo um indicador essencial, porém, cada vez mais a percepção de valor será construída na experiência cotidiana do participante.
A confiança não nasce apenas da rentabilidade; ela é fortalecida em cada interação, como uma dúvida respondida rapidamente, um benefício solicitado sem burocracia, um processo simplificado e uma comunicação clara sobre temas complexos. Tudo isso influencia diretamente a percepção que o participante tem da entidade responsável por administrar sua reserva para o futuro.
O desafio da previdência de atender gerações diferentes
Essa mudança se torna ainda mais relevante diante das transformações demográficas do país, já que o Brasil envelhece rapidamente, mas, ao mesmo tempo, novas gerações ingressam nos planos de previdência, trazendo hábitos digitais completamente diferentes daqueles que predominavam há dez ou quinze anos.
As entidades passam a conviver simultaneamente com públicos de perfis muito distintos, em que, de um lado, participantes valorizam atendimento humano, clareza e segurança. E, de outro, usuários estão acostumados a resolver praticamente tudo pelo celular, em poucos cliques e sem necessidade de contato telefônico. Atender a ambos os públicos exige mais do que tecnologia; exige estratégia.
Transformação digital, nesse contexto, não significa simplesmente criar um aplicativo ou disponibilizar um chatbot, mas redesenhar jornadas completas, eliminar atritos, integrar sistemas legados, conectar canais de atendimento e construir uma visão única do participante.
Significa também utilizar dados de forma inteligente para oferecer comunicação mais personalizada e ampliar o engajamento previdenciário. Afinal, um dos maiores desafios históricos do setor sempre foi tornar um produto de longo prazo relevante no presente.
A experiência como diferencial competitivo
Em um cenário no qual o próprio mercado de previdência complementar passa por transformações importantes, incluindo iniciativas como a ampliação da inscrição automática em planos previdenciários e novas estratégias de expansão da cobertura previdenciária, as entidades precisarão demonstrar não apenas solidez financeira, mas capacidade de construir relacionamentos duradouros.
Os recursos administrados pelas entidades fechadas superam R$ 1,3 trilhão, enquanto o patrimônio total da previdência complementar brasileira ultrapassa R$ 3 trilhões, equivalente a cerca de um quarto do PIB nacional.
A pergunta agora não é se as EFPCs continuarão sendo relevantes; elas já são. A questão é quais delas conseguirão transformar essa força institucional em uma experiência capaz de gerar proximidade, confiança e engajamento ao longo de décadas. Porque o participante do futuro não avaliará apenas a rentabilidade do plano quando chegar à aposentadoria; ele avaliará toda a jornada que viveu até chegar lá, e essa jornada começa muito antes do primeiro benefício ser pago.
*Ricardo Giudice é diretor comercial da Plusoft, formado em Marketing pela Universidade Paulista (UNIP), com mais de 20 anos de experiência nos setores de tecnologia, transformação digital e experiência do cliente.











