Por Dhiogo Corrêa*
A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma tendência tecnológica para se tornar parte da estratégia das empresas. Hoje, está presente em soluções para saúde, indústria, varejo, infraestrutura, serviços financeiros e praticamente qualquer segmento imaginável. Mas um dos movimentos mais interessantes dessa transformação não está apenas na evolução da tecnologia, está na diferença de velocidade com que cada mercado vem incorporando a IA aos negócios.
Existe uma percepção comum de que a Europa lidera todas as grandes revoluções tecnológicas. No entanto, quando olhamos especificamente para a adoção prática de inteligência artificial, acredito que essa realidade já não seja tão evidente.
O que tenho observado é um ambiente europeu muito mais cauteloso em relação ao uso da IA. Questões regulatórias, exigências relacionadas à soberania dos dados e uma preocupação crescente com a dependência de provedores americanos e chineses fazem com que muitas organizações avancem em um ritmo bastante conservador.
Hoje, não basta que uma solução esteja hospedada em servidores localizados na Europa. Em muitos casos, existe uma preferência por infraestrutura totalmente europeia, desde a cloud utilizada até os modelos empregados pela inteligência artificial. Essa preocupação é compreensível e faz parte da estratégia de autonomia tecnológica do continente, mas também pode tornar a inovação mais lenta.
E é justamente essa comparação que reforça uma percepção que tenho sobre o mercado brasileiro: estamos adotando inteligência artificial de forma muito mais rápida do que muitos imaginam.
Enquanto parte da Europa ainda discute como criar as condições ideais para utilizar IA, muitas empresas brasileiras já estão implementando soluções, conectando dados internos, automatizando análises e utilizando inteligência artificial para apoiar decisões de negócio. Isso não significa que o Brasil esteja mais avançado em pesquisa ou infraestrutura. A diferença está principalmente na disposição para experimentar, validar e colocar novas tecnologias em operação. Esse talvez seja um dos nossos maiores diferenciais competitivos neste momento: a velocidade.
Ao mesmo tempo, acredito que essa diferença tende a diminuir. O mercado europeu já reconhece a necessidade de acelerar e existe um movimento importante de investimentos, incentivo à inovação e fortalecimento do ecossistema tecnológico local.
Outro ponto que considero especialmente relevante nessa nova fase da inteligência artificial é a relação da tecnologia com os dados corporativos. O mercado avançou muito em plataformas focadas na extração de informações de documentos, PDFs e conteúdos não estruturados. Mas ainda existe um espaço enorme para soluções capazes de conectar diferentes sistemas empresariais e transformar dados dispersos em inteligência para tomada de decisão.
Na minha visão, é justamente aí que está uma das próximas grandes oportunidades da IA nas empresas. Tecnologias capazes de integrar ERPs, CRMs, bancos de dados e outras fontes corporativas em uma única camada de inteligência podem mudar a forma como as organizações tomam decisões. À medida que o mercado amadurece, acredito que o valor da IA deixará de estar apenas na capacidade dos modelos e dependerá cada vez mais da qualidade do contexto que esses modelos conseguem acessar.
Não adianta ter o modelo mais sofisticado do mercado se ele não compreende os dados, os processos e a realidade daquela empresa.
Outro tema que acompanho com atenção é a computação quântica. Ainda estamos distantes de aplicações em larga escala, mas os avanços nessa área mostram que a próxima transformação da capacidade computacional talvez já esteja começando a ser construída. Tudo isso me leva a acreditar que estamos entrando em uma etapa diferente da corrida pela inteligência artificial.
A discussão não será apenas sobre quem possui o modelo mais poderoso ou quem consegue lançar a próxima grande tecnologia. Será, cada vez mais, sobre quem consegue transformar inteligência artificial em aplicações concretas, conectadas ao contexto dos negócios e capazes de melhorar decisões reais. É justamente nesse cenário que vejo uma oportunidade relevante para o Brasil.
Nossa capacidade de experimentar, adaptar e implementar novas tecnologias com velocidade pode se tornar uma vantagem competitiva importante. Mas, para isso, precisamos avançar sem deixar de lado questões fundamentais como governança, segurança, qualidade dos dados e contexto.
A próxima disputa da inteligência artificial não será apenas tecnológica; será sobre quem consegue transformar tecnologia em decisões melhores. E, nesse aspecto, acredito que o Brasil pode ocupar um papel muito mais relevante do que muitos imaginam.
*Dhiogo Corrêa é cofundador e CTO da Draiven











